Portugal Distante

Há 1,6 milhões de portugueses a viver a mais de meia hora de distância de umas Urgências

Há concelhos que ficam a mais de uma hora de caminho por estrada até às Urgências Polivalentes ou Médico-Cirúrgicas mais próximas e a resposta às emergências de saúde depende totalmente da eficácia do INEM.
Este é o quarto e último trabalho sobre as desigualdades no acesso a serviços básicos, feitos numa parceria entre o Expresso e o NOVA Cidade — Urban Analytics Lab, da NOVA IMS

JANEIRO 2026

Colado à fronteira com a Galiza, Melgaço tem 7500 habitantes, metade com mais de 65 anos. As Urgências Polivalentes ou Médico-Cirúrgicas mais próximas — que respondem a situações mais complexas — ficam em Viana do Castelo: do centro da vila ao hospital são 100 quilómetros e mais de uma hora de carro. Mas tendo em conta as várias freguesias, os habitantes do concelho estão, em média, a 1h20 das Urgências — pior só em Freixo de Espada à Cinta. “É complicado e, muitas vezes, o 112 demora a atender”, resume o autarca de Melgaço, José Albano Domingues. “Temos ambulância com Suporte Imediato de Vida no território, mas o tempo é a diferença entre a vida e o fim dela.”

A rede de serviços de urgência, tal como foi definida em 2014, estipula que cada cidadão deverá ter uma Urgência Polivalente ou Médico-Cirúrgica a um máximo de 60 minutos. No continente, cerca de 132 mil pessoas vivem em concelhos que estão, em média, a mais de uma hora de carro de um destes serviços. É 1,3% da população — o que reflete, globalmente, o cumprimento desse critério. Mas a lei também define que, quando a distância for superior a uma hora, é obrigatório ter um Serviço de Urgência Básico, embora só sirva para situações mais simples.

Em algumas emergências de saúde, o risco de morte aumenta por cada minuto que passa

Outro critério de distância às Urgências — que foi ponderado pela comissão envolvida na requalificação da rede — é estar no máximo a 45 minutos. Atualmente, há cerca de 470 mil pessoas a essa distância (5% da população). Contam-se quase 1,6 milhões de portugueses (16%) a meia hora ou mais; enquanto, pelo contrário, 44% estão a menos de 15 minutos. Na comparação europeia, Portugal não está entre os melhores — e o Eurostat sublinha as desigualdades de acesso no interior do território.

Estas são algumas das conclusões da análise de acessibilidade feita numa parceria entre o Expresso e o NOVA Cidade — Urban Analytics Lab, da NOVA IMS. Partindo da geolocalização das Urgências Polivalentes ou Médico-Cirúrgicas e das Urgências Obstétricas, foi calculada a distância e o tempo de viagem mais curto desde o ponto central de cada freguesia até ao hospital mais próximo, avaliando-se a distância e o tempo médio para cada concelho. Depois da análise sobre escolas, bancos e cinemas, o Expresso conclui a série ‘Portugal Distante’, sobre as desigualdades que espelham o isolamento, abandono e fragilidade de uma parte do país.

DESLOCAÇÃO ATÉ ÀS URGÊNCIAS POLIVALENTES OU MÉDICO-CIRÚRGICAS MAIS PRÓXIMAS

TEMPO MÉDIO EM MINUTOS, POR FREGUESIA
Passe o cursor sobre o mapa para explorar os dados

Fonte: Expresso e NOVA Cidade - Urban Analytics Lab/NOVA IMS (Candela Sol Pelliza, Bruno Jardim, André Barriguinha e Miguel de Castro Neto) com dados do SNS e DR sobre Urgências Polivalentes ou Médico-Cirúrgicas (foram consideradas 42 Urgências destas tipologias, excluindo a Unidade Hospitalar de Mirandela por ter a Urgência Cirúrgica encerrada) e dados do ArcGIS Online da ESRI (cálculo das rotas)

Em algumas emergências de saúde, o risco de morte aumenta por cada minuto que passa — como num AVC, enfarte agudo do miocárdio, trauma grave, sépsis ou paragem respiratória. A distância ao hospital conta, mas o essencial está no tempo de chegada de uma ambulância ao local. Para perceber qual o tempo médio de socorro por concelho, o Expresso pediu dados ao INEM, mas não teve resposta. As únicas estatísticas públicas, de 2025, apontam para uma resposta superior a 30 minutos em 12% dos casos em áreas rurais e acima de 15 minutos em 32% dos pedidos em espaço urbano.

DESERTOS MÉDICOS

“Na ausência de dados públicos do INEM sobre tempos de resposta, torna-se difícil garantir a eficácia da resposta nos concelhos mais afastados”, diz Ana Isabel Ribeiro, geógrafa de saúde e investigadora no Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território e no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto. Apesar de não existir um “padrão internacionalmente consensual” sobre o que é uma distância excessiva, a investigadora diz que “diversos estudos” apontam para um tempo crítico de 30 minutos. “As áreas com tempos de deslocação além deste limiar podem ser consideradas ‘desertos médicos’, com baixa acessibilidade a serviços de saúde.”

O mapa mostra um país dividido: o litoral e centro a distâncias inferiores a 30 minutos; o interior e o Alentejo mais distantes. A concentração de hospitais nos centros urbanos tem vantagens, embora dependa sempre da disponibilidade de meios, mas as más condições das estradas no interior também contam.

“Em Trás-os-Montes, os serviços de saúde foram deslocalizados contra o que é favorável aos cidadãos. Sabemos que não é possível ter um hospital em cada município, mas o melhor serviço de saúde que podíamos ter agora era uma boa rede viária”, frisa Pedro Lima, presidente da Comunidade Intermunicipal (CIM) de Trás-os-Montes, referindo ainda o investimento das autarquias nos bombeiros, “imprescindíveis no serviço de emergência”.

"Sabemos que não é possível ter um hospital em cada município, mas o melhor serviço de saúde que podíamos ter agora era uma boa rede viária”
PEDRO LIMA

Para vários destes concelhos, o fecho da Urgência de Cirurgia do Hospital de Mirandela há já dois anos agravou ainda mais as distâncias. “A administração da ULS diz que não tem médicos suficientes para que a Urgência funcio­ne”, aponta João Gonçalves, presidente da CIM do Douro, reconhecendo a dificuldade em atrair e fixar profissionais na região. “Cada ULS faz a sua gestão autónoma, com preocupações de ordem económico-financeira.”

Ana Isabel Ribeiro defende que uma das mudanças necessárias é passar a integrar critérios de acessibilidade geográfica na definição da rede hospitalar e serviços de urgência, “mesmo que isso implique compromissos na eficiência económica”. Além disso, defende um estudo sobre a relação entre os tempos de resposta e a mortalidade geral e materno-infantil — embora sublinhe que o acesso às Urgências “nunca será suficiente para explicar cabalmente um fenómeno tão complexo como a mortalidade”.

Tendo em conta as 39 Urgências de Obstetrícia, as distâncias são ainda maiores: 19% da população está a 30 minutos ou mais da maternidade mais próxima e quase 2% tem de fazer mais de uma hora de carro. Para Diogo Ayres de Campos, obstetra e diretor do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital Santa Maria, a cobertura territorial é “razoá­vel”, mesmo comparando com outros países europeus.

Nos casos em que a distância é mais elevada, o especialista vê sentido na solução dos países nórdicos. “Quando as senhoras se aproximam do termo da gravidez, o Estado assegura as despesas de transporte e estadia para que fiquem num local mais perto do hospital.”

Para o obstetra, o problema de cobertura resume-se a zonas como o Litoral Alentejano, onde “fazia sentido” abrir uma maternidade, “embora não possa ser prioridade neste momento”. A grande pressão, porém, está na periferia da Grande Lisboa, “com cobertura deficiente devido aos constrangimentos” das maternidades.

DESLOCAÇÃO ATÉ ÀS URGÊNCIAS OBSTÉTRICAS MAIS PRÓXIMAS

TEMPO MÉDIO EM MINUTOS, POR FREGUESIA
Passe o cursor sobre o mapa para explorar os dados

Fonte: Expresso e NOVA Cidade/NOVA IMS (Candela Sol Pelliza, Bruno Jardim, André Barriguinha e Miguel de Castro Neto) com dados do SNS relativos às Urgências Obstétricas (foram consideradas 39 Urgências, excluídas as que têm apenas Ginecologia) e dados do ArcGIS Online da ESRI (cálculo das rotas)

“As zonas mais problemáticas, além da Península de Setúbal, são o Norte de Lisboa, como Vila Franca de Xira, além de Abrantes, Santarém e Caldas da Rainha. É preciso que as maternidades que já existem nestes locais funcionem.” 

Diogo Ayres de Campos considera que a falha está sobretudo na constituição de equipas médicas em alguns hospitais. “Ao longo destes 10 ou 15 anos faltou uma visão estratégica sobre como manter as equipas estáveis. Não é uma situação aguda de um Governo, é um problema de longo prazo que tem vindo a ser adiado.”

“Estas localidades ‘deixadas para trás’ são-no a vários níveis, não só na saúde. A mesma ausência de serviços verifica-se na educação, cultura, justiça e desenvolvimento económico”
ANA ISABEL RIBEIRO

Atrair e fixar médicos é um problema ainda maior no interior. Em Melgaço, há cinco médicos de família em vez dos sete previstos e espera-se “quatro ou cinco meses” por uma consulta, diz o autarca, que acredita na aposta de serviços partilhados com Espanha. “A solução é virarmo-nos para o outro lado.”

Em causa, diz Ana Isabel Ribeiro, está um problema sistémico. “Estas localidades ‘deixadas para trás’ são-no a vários níveis, não só na saúde. A mesma ausência de serviços verifica-se na educação, cultura, justiça e desenvolvimento económico”, resume. “Sem atuar na causa estrutural — o abandono de certas áreas do país —, melhorar a acessibilidade geográfica aos serviços será sempre uma utopia.”

REPORTAGEM

Freixo de Espada à Cinta: “Numa urgência, se tiver sorte, não morre”

Em Freixo de Espada à Cinta demora-se mais de uma hora até uma urgência e faltam ambulâncias

Há dois anos que, para Preciosa Manso, cada ida ao médico implica atravessar o país de lés a lés. Desde Freixo de Espada à Cinta, a vila colada à fronteira ocidental com Espanha, até ao Porto, na costa atlântica, vão quase três horas de viagem para cada lado e um dia inteiro perdido entre quilómetros. A cada consulta, uma travessia. “Freixo fica longe de tudo.”

Quando, aos 49 anos, se viu confrontada com um problema oncológico, passou a ser seguida no Porto. Foi então que percebeu, mais do que nunca, o peso da geografia. “Se tivermos de ir a uma urgência, a mais próxima é Mogadouro e já é muito longe. Em Freixo só temos médico até às 22h da noite, no centro de saúde”, diz, conformada. António Félix, taxista e companheiro de tantas viagens pelo país fora, acrescenta com um sorriso amargo: “Uma pessoa só pode estar doente até às 22h, a partir daí é proibido.”

Preciosa Manso é doente oncológica e há dois anos que usufrui do serviço de táxi para ir a consultas e tratamentos no IPO do Porto Fernando Veludo

Preciosa Manso é doente oncológica e há dois anos que usufrui do serviço de táxi para ir a consultas e tratamentos no IPO do Porto Fernando Veludo

Marlene Silva conhece o mesmo mapa. Viaja no mesmo táxi e há dois anos que leva a filha, Alexia, de sete anos, a consultas regulares no hospital de Gaia/Espinho por causa de duas doenças autoimunes. “Como se costuma dizer, Freixo é onde judas perdeu as botas. Valha-nos esta opção. Se viesse com o meu marido — porque eu não conduzo — ele tinha de perder o dia de trabalho. Em menos de um mês, cheguei a ir ao Porto quatro vezes.”

O transporte público oferece pouco alívio. O único autocarro sai da vila às 6h45 e regressa às 15h. Quando os horários das consultas não encaixam, resta o serviço de táxi da câmara. Perde-se o dia, mas não se paga. E aos taxistas de Freixo, como António Félix, não falta trabalho. A maior parte das viagens é feita por quem já não tem transportes, nem saúde, perto de casa. Bragança, Vila Real, Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Porto, Gaia. Por vezes, até Coimbra.

“Não há outra realidade e as pessoas têm de se sujeitar ao que há”, diz ao Expresso, no caminho de volta para Freixo, sob alguma inquie­tação de Alexia quando a noite já se estende sobre a autoestrada. Para consultas e tratamentos marcados, ainda se encontra solução. O problema começa quando o tempo deixa de ser negociável. “Numa urgência, se tiver sorte, não morre.”

Freixo de Espada à Cinta é o concelho do país mais distante de uma urgência diferenciada. A unidade mais próxima fica em Bragança, a 1h25 de viagem — o mesmo tempo que uma VMER (ambulância com médico) demora a chegar, em caso de emergência. A alternativa mais rápida, embora menos diferenciada, é uma ambulância de Suporte Imediato de Vida (SIV), com enfermeiro, que demora, no mínimo, 40 minutos a chegar a Freixo, explica Rui Rocha, enfermeiro-gestor da SIV Norte, do INEM.

O helicóptero é o meio diferenciado mais rápido, capaz de chegar em 25 minutos, mas só é acionado em situações muito graves e depende sempre das condições atmosféricas. Na prática, para a vila e para as cinco aldeias em redor, são os bombeiros o grande garante do socorro imediato.

HÁ UM ANO SEM AMBULÂNCIA

A única ambulância do concelho foi acionada cedo pelo CODU e só regressou perto da hora de almoço. “Estamos um bocado longe de tudo”, resume Victor Rentes, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Freixo de Espada à Cinta. Cada saída é, por isso, um risco calculado. Durante horas, o concelho pode ficar sem qualquer meio de emergência. No mês passado, a ambulância saiu para a aldeia de Ligares, a 20 quilómetros, e seguiu depois para o hospital de Mirandela, a mais de uma hora de distância. Enquanto esteve fora, duas outras ocorrências tiveram de ser cobertas por corporações vizinhas.

A falta de meios agravou-se há cerca de um ano, quando uma das duas ambulâncias de suporte básico de vida se avariou e nunca mais regressou à base, nem foi substituída pelo INEM. Desde então, tornaram-se frequentes os pedidos a que não conseguem responder, apesar de realizarem, em média, 35 serviços ao INEM por mês. “Há cerca de um ano tivemos um parto em que a ambulância tinha saído e a SIV ainda demorava a chegar. Fomos ter com a grávida sem ambulância, apenas com o kit de partos, e quando lá chegámos o bebé já tinha nascido.” O mais delicado é que, há um mês, a mesma mulher voltou a ter outro bebé que não esperou pelo hospital e nasceu na ambulância dos bombeiros, tal como já tinha acontecido com o primeiro filho, anos antes.

Mas os constrangimentos no acesso à saúde não começam, nem acabam, nas situações de emergência. Começam muito antes, no dia a dia, no centro de saúde que serve o concelho, onde há boas instalações e consulta aberta todos os dias até às 22h, mas onde não há forma de fixar médicos. Talvez por isso, entre bombeiros, INEM e hospitais a uma hora de distância, o centro de saúde apareça sempre como uma nota de rodapé. E o paradoxo começa logo no topo. Por não ter um único médico no quadro, a própria coordenação clínica é feita por Hugo Martins, que tem a sua base de trabalho num centro de saúde em Mogadouro, a 40 minutos dali. De resto, todos os clínicos que ali trabalham são prestadores de serviço, alguns já reformados, outros recém-especialistas a fazerem consultas pontuais. “Os concursos abrem, mas há três anos que não há uma única contratação.”

Um deles é Joaquim Couto, ex-governador do Porto e ex-presidente da Câmara de Santo Tirso e arguido na operação Teia por suspeitas de corrupção e tráfico de influências. Aos 75 anos, é um dos médicos reformados que dá consultas a tempo inteiro em Freixo de Espada à Cinta. Diz que foi ali, onde ninguém quer exercer, que conseguiu emprego.

E mede as desigualdades com destreza: “Se você estiver na Maia e começar a ter um enfarte do miocárdio, a VMER põe-se lá em 7 minutos. Se for aqui em Freixo, demora uma hora. Se não podemos ter acesso a um centro especializado, então o Estado teria de ter não um helicóptero, mas dez”, defende. “Isto é o interior do interior”, resume o coordenador. “É o mesmo país, pagam-se os mesmos impostos, mas não se tem os mesmos direitos.”

Nota Metodológica

Análise de acessibilidade em Portugal continental, considerando a distância (km) e o tempo (minutos) de condução desde o ponto central de cada freguesia até ao serviço de urgência do SNS mais próximo — considerando Urgências Polivalentes (SUP) ou Médico-Cirúrgicas (SUMC) e Urgências Obstétricas de forma separada — com dados do serviço de rotas do ArcGIS Online da ESRI e extensão Network Analysis. Para os municípios, os dados das freguesias foram agregados, obtendo valores médios de distância (km) e deslocação de carro (minutos). Na análise, foram tidas em conta 42 Urgências Polivalentes ou Médico-Cirúrgicas (excluída a da Unidade Hospitalar de Mirandela por ter a Urgência Cirúrgica encerrada) e 39 Urgências Obstétricas (excluídas as que têm só Ginecologia)

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CRÉDITOS

Textos Joana Ascensão e Raquel Albuquerque
Infografia Cátia Barros com Sofia Miguel Rosa
Análise de Dados NOVA Cidade - Urban Analytics Lab
Fotografia Fernando Veludo/ N Factos
Webdevelopment Cátia Barros
Webdesign Tiago Pereira Santos
Coordenação Isabel Leiria, Marta Gonçalves e Rita Ferreira
Direção João Vieira Pereira

Expresso 2026