Portugal Distante

Um quinto do país faz mais de 50 km para ir ao cinema

Em metade das freguesias o tempo de deslocação para o cinema, cineteatro ou teatro mais próximo é superior a 40 minutos e há já quatro distritos sem exibição comercial e regular de cinema. Este é o terceiro de quatro trabalhos sobre as desigualdades no acesso a serviços básicos, feitos numa parceria entre o Expresso e o NOVA Cidade — Urban Analytics Lab, da NOVA IMS

JANEIRO 2026

Quando se mudou para Odemira, Sílvia das Fadas percebeu que o cinema não fazia parte da vida das pessoas. Muitas nunca tinham sequer visto um filme fora da televisão. Face à pouca oferta de programação cinematográfica no concelho, decidiu criar um cinema móvel a que deu o nome de Fulgor. Criado há quatro anos, chegou a funcio­nar em Odemira, Ferreira do Alentejo e Mértola — “da orla à raia”, diz a realizadora e investigadora. Mas, apesar da vontade de estender a programação a outros lugares do Baixo Alentejo, a falta de equipamento e de “apoio financeiro adequado” reduziu as sessões mensais apenas à aldeia de São Luís, em Odemira.

“Nos últimos quatro anos, Odemira passou a ter bastante oferta cultural e uma tessitura artística e cultural florescente. No entanto, existe pouca oferta de programação cinematográfica, concentrada no Cineteatro Camacho Costa, pouco diversificada e pouco estimulante”, afirma Sílvia das Fadas, criticando a falta de apoio. “Sem dúvida que o Estado tem falhado. Tanto os apoios da Direção-Geral das Artes como os do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) são insuficientes e as prioridades questionáveis. Dá-se mais importância a festivais que agreguem um grande número de pessoas num curto espaço de tempo do que a uma programação continuada que escuta ativamente as comunidades.”

Embora já tenha sido pior, o acesso à cultura ainda é desigual no território. Num quinto dos concelhos do continente (59 de 278), a população tem de fazer, em média, mais de 25 km até ao cinema, cineteatro ou teatro mais próximo. Ir ver um filme obriga a fazer mais de 50 km, ida e volta e em metade das freguesias a população leva, em média, mais de 40 minutos para ir e vir do cinema.

Os distritos de Viseu, Bragança, Vila Real, Guarda e Évora têm a pior situação. Há três — Beja, Portalegre e Bragança — que já não têm exibição comercial e diversificada de cinema. Esta semana, também o da Guarda passa a ter uma oferta muito limitada, com o encerramento de quatro salas. Todos estes distritos dependem apenas de cineteatros, com um papel relevante mas oferta mais curta, o que levou o Governo a criar um grupo de trabalho para avaliar o problema.

Estas são algumas das conclusões da análise de acessibilidade a serviços feita numa parceria entre o Expresso e o NOVA Cidade — Urban Analytics Lab, da NOVA IMS. Partindo da geolocalização dos recintos de cinema registados no ICA e dos espaços da Rede de Teatros e Cineteatros, foi calculada a distância e o tempo de viagem mais curto desde o ponto central de cada freguesia até ao espaço mais próximo, avaliando-se a distância e o tempo médio para cada concelho.

DESLOCAÇÃO ATÉ AO CINEMA, CINETEATRO OU TEATRO MAIS PRÓXIMO

TEMPO MÉDIO EM MINUTOS, POR FREGUESIA
Passe o cursor sobre o mapa para explorar os dados

Fonte: Expresso e NOVA Cidade - Urban Analytics Lab/NOVA IMS (Candela Sol Pelliza, Bruno Jardim, André Barriguinha e Miguel de Castro Neto) com dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) e da Rede de Teatros e Cineteatros da Direção-Geral das Artes (DGArtes) e dados do ArcGIS Online da ESRI (cálculo das rotas)

DEPENDENTE DO MERCADO

José Soares Neves, diretor do Observatório Português das Atividades Culturais (OPAC), frisa que ainda “persistem” desigualdades no acesso à cultura, acompanhando as assimetrias do país — litoral/interior, norte/sul, urbano/rural —, mas têm vindo a ser corrigidas. “Se recuarmos ao último terço do século passado, o panorama era de enorme desigualdade territorial e quase total desadequação dos equipamentos em lotação, serviços e recursos humanos.”

Segundo o “Atlas Artístico e Cultural de Portugal”, publicado pelo OPAC em 2024, a cobertura das redes de bibliotecas, cineteatros, museus, arquivos ou espaços de arte contemporânea é “muito” significativa. “Mas também se identificam bolsas do território que merecem atenção no sentido da correção das desigualdades”, nota.

Apesar da atenção prestada pelos municípios do inte­rior e de fronteira, é sobretudo nestes que se encontram as maiores disparidades no acesso, vinca o investigador. “As distâncias a percorrer são muito importantes em casos como Bragança e Idanha-a-Nova, ao passo que a inexistência destes equipamentos são relevantes em Barrancos e Vinhais.”

No que toca ao cinema, sentem-se os impactos negativos da sua deslocação para a esfera doméstica. “E ao nível da exibição o cinema tem grande intervenção dos privados e menor do Estado. Está, portanto, dependente do mercado”, explica. Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) revelam que a despesa dos municípios com cinema é menos de 1% dos gastos com atividades culturais e criativas em 2024, o que para o investigador é uma “chamada de atenção para a necessidade de um programa do Governo que vise incentivar maior intervenção local neste domínio”.

Ainda assim, conforme o ICA, o número de pequenos recintos com cinema regular cresceu 66% entre 2016 e 2025 e também aumentou de 106 para 142 a quantidade de municípios com exibição. “Uma análise mais fina permite concluir que foi entre as grandes empresas, como a NOS Cinemas, Cineplace, UCI, NLC – Cinema City e Socorama, que se verificaram as maiores alterações, principalmente ao nível do número de salas, com um decréscimo de 10,9%”, acrescenta o instituto. 

 O ICA garante estar a acompanhar a evolução da situação da exibição cinematográfica em Portugal, assim como os seus efeitos “para as assimetrias regionais” na oferta cultural. “A nossa convicção é de que a solução terá de envolver não só o Estado central, através da administração indireta do ICA, mas também os poderes locais.” O grupo de trabalho criado este ano pelo Ministério da Cultura “encontra-se a recolher contributos junto de diferentes agentes do setor”, para promover uma “reflexão alargada e fundamentada que sustente futuras propostas de ação”, afirma o instituto.

Todo o interior está abandonado. E o resultado está cada vez mais à vista
ANTÓNIO JOSÉ DE BRITO

Registando menos de 30 sessões de cinema em outubro, o Alto e o Baixo Alentejo são as regiões com menos espectadores por habitante. Porém, a par da Beira Baixa, são as que têm maiores despesas municipais per capita com atividades culturais. E esse é um dos pontos frisados pelo presidente da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Baixo Alentejo, António José de Brito, afastando a ideia de que a região tenha um acesso frágil à cultura. “Temos uma programação com bastante qualidade. Concelhos como Beja, Castro Verde, Mértola, Odemira e Serpa têm agendas muito sólidas e com uma regularidade bastante interessante. E o facto de não haver exibição de cinema regular na cidade de Beja não quer dizer que isso aconteça no resto da região”, referindo os cineteatros em 11 concelhos.

Para o responsável, o problema está na “vergonhosa” e “inaceitável” falta de acessibilidades. “A cidade de Beja não tem ligação por autoestrada e a ferrovia é muito má. São problemas que há muito tempo deviam estar resolvidos, mas, por falta de força política e menosprezo de quem nos governa, chegámos a um ponto muito complexo”, critica, admitindo uma espiral de despovoamento. “Sucede há décadas consecutivas porque todo o interior está abandonado. Os ‘poderes de Lisboa’ não querem saber do interior do país e o resultado está cada vez mais à vista.”

Em Trás-os-Montes passa-se o mesmo. “Tudo se resume a oferta e procura. Se o público não tem ferramentas para valorizar a oferta cultural, os responsáveis desistem, porque se considera investimento perdido. As estruturas públicas não têm pessoas que entendam a importância da oferta cultural numa comunidade ou região”, argumenta Diogo Martins, da Indieror, associação cultural criada em Chaves e dedicada à região. “Os esforços de Governos centrais não têm sido muito felizes. O investimento na cultura tem sido mais escasso, a falta de valorização da mesma torna-se mais óbvia e continua a favorecer-se ciclos de programação repetitivos e com pouca relevância para os territórios em que se inserem.”

Os grandes centros urbanos, em parte pelo tipo de público que têm, conseguem dispor de maior oferta. “Existe também maior investimento na cultura e nas infraestruturas, e os agentes culturais estão mais capazes para conseguir justificar investimento e conseguir apoios”, detalha Diogo Martins. “O outro lado do espectro é o do ‘resto do país’ que luta para conseguir uma resposta estruturada nessa oferta cultural.” 

Há assim uma “minoria” com “oferta cultural estruturada, pensada e preocupada com o seu público”, enquanto o resto do país está “praticamente sem oferta, mas com grandes concertos no verão ou épocas festivas”, acrescenta. “A verdade é que os grandes promotores de oferta cultural pelo país continuam a ser os municípios. Os apoios nacionais são poucos, não dão para todos e têm pouco contexto dos territórios e da diversidade.”

BIBLIOTECAS E JORNAIS

A análise de acessibilidade estendeu-se também às bibliotecas públicas em território continental, segundo os dados da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas e incluindo todos os espaços existentes nos municípios aderentes. Existem apenas quatro concelhos - Aljezur, Terras de Bouro, Marvão e Vila Viçosa - que não têm nenhuma biblioteca pública.

O nível de proximidade é muito díspar em território nacional, sem padrões claros, dependendo da existência de uma ou mais bibliotecas em cada município e do facto de estarem ou não concentradas na sede do concelho. Em 480 freguesias, a população tem de fazer 30 km (ida e volta) para ir a uma biblioteca e a 84 freguesias esse tempo sobe para uma hora.

DESLOCAÇÃO ATÉ À BIBLIOTECA MAIS PRÓXIMA

TEMPO MÉDIO EM MINUTOS, POR FREGUESIA
Passe o cursor sobre o mapa para explorar os dados

Fonte: Expresso e NOVA Cidade/NOVA IMS (Candela Sol Pelliza, Bruno Jardim, André Barriguinha e Miguel de Castro Neto) com dados da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP) da Direção-Geral dos Livros, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e dados do ArcGIS Online da ESRI (cálculo das rotas)

Continua a haver pessoas que nunca foram ao cinema e há um longo caminho para que saibam que o cinema também lhes pertence
SÍLVIA DAS FADAS

Outro dos temas que preocupam o interior é a distribuição de jornais depois de a Vasp ter anunciado que está a reequacionar as rotas dos distritos de Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança deixou o interior em choque. “Não aceitamos que esta ‘metade do país’, permanentemente esquecida e deixada para trás, também deixe de ter o direito básico a estar informada e a ler jornais em papel”, diz António José de Brito.

“Para a imprensa regional seria uma ‘quase sentença de morte’, num país onde não há nem nunca houve uma política séria de incentivo à publicação, leitura e sustentabilidade dos jornais regionais. Está em causa ter todo o interior sem imprensa nas bancas.”

Em Odemira, o público das sessões de cinema mantém-se assíduo. “Continua a haver pessoas que nunca foram ao cinema e há um longo caminho para que saibam que o cinema também lhes pertence”, resume a cineasta. “Há quem tenha visto filmes projetados em película pela primeira vez no Cinema Fulgor e testemunhar esse espanto é muito bonito.”

REPORTAGEM

Onde é que eu já não vi este filme?

No último verão, as contas do Instituto do Cinema e do Audiovisual ficaram a zeros no que diz respeito à exibição de filmes em Bragança, Portalegre e Beja

Poderia ser um bom título para o filme que está a ser exibido no interior do país, em exclusividade: “Não há cinema no paraí­so.” Poderia, caso houvesse salas onde a projeção ainda fosse viável. Já não as há. No pico do último verão, as contas do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) ficaram a zeros quanto ao reporte da exibição de cinema em distritos como Bragança, Portalegre ou Beja.

Nas vésperas do Natal, na tentativa de rebobinar a película, a ministra da Cultura anunciou a criação de um grupo de trabalho destinado a encontrar “medidas para atenuar as desigualdades regio­nais no acesso ao cinema”. Mas o pano já tinha descido sobre grande parte das salas com atividade cinematográfica regular e diversificada. Situadas longe das grandes cidades.

É o caso do Cinema Melius. A 1 de agosto, a última sala de cinema no sector privado até então existente no distrito de Beja fechou portas. Não resistiu à concorrência do streaming. Nem ao monopólio da distribuição centrado no maior importador do sector em Portugal, a NOS Lusomundo Cinemas. E muito menos ao “apertar do cerco” promovido pela Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC), lastima Mário Barradas.

A mesma instituição que, segundo a ministra Margarida Balseiro Lopes, vai liderar o “grupo de trabalho” que está a ser formado para “identificar as causas” e “preparar medidas concretas” para travar o avanço do deserto cinematográfico do interior, foi aquela que deu a “estocada final” no Cinema Melius. “Teríamos de gastar ali cerca de 80 ou 90 mil euros, num novo soalho, plateia, alarmes”, contabiliza Mário Barradas: “Eles [a IGAC] até podem ter razão, mas num negócio que já é em si um filme de terror... torna-se inviável. Pronto, acabou, com muita pena minha.”

Ricardo Zambujo

Ricardo Zambujo

Nem mesmo a atuação de “Os 4 Fantásticos”, da Marvel Studios, o último filme projetado no Cinema Melius, salvou a sala de Mário Barradas. Ao fim de 28 anos a passar cinema em Beja, o cinéfilo regressou à sua terra natal, Vidigueira, onde a família iniciou o “negócio” do cinema. “Foi um tio-avô meu, que era chapeleiro, que construiu o Cine-Teatro Lusitano-Vidigueira, em 1943. Depois, o meu pai ficou com aquilo e passou-me o bichinho. E foi assim que a coisa chegou até aqui.” Hoje, também essa sala está encerrada. Há negociações com a autarquia para reabri-la. Há 14 anos.

Era essa a idade que Carlos Gertrudes tinha quando se lembrou de escrever uma carta a George Lucas, o criador de “Star Wars” ou “Indiana Jones”, a pedir-lhe emprego na indústria do cinema. “Coisas de moço pequeno”, recorda o atual projecionista do Teatro Municipal Pax Julia. “O mais engraçado é que tive resposta. Ainda lá tenho a carta com indicações de leitura na área do cinema, cursos e formações que poderia frequentar no futuro. É inacreditável.”

ADEUS, PRINCESA

“Inacreditável” é a palavra que Carlos Gertrudes também guarda para classificar o “fraco investimento na promoção do cinema no Alentejo”. Projecionista formado no exército, Gertrudes foi o primeiro operador de máquinas do agora extinto Cinema Melius: “Sempre que fecha uma sala ficamos todos a perder... muito.”

Opinião que é partilhada por Bruno Ferreira. Para este “ativista cultural por Beja e pelo Alentejo”, como se autodefine, “isto é aniquilar, sufocar, asfixiar e matar cultural e vivencialmente uma região. Como é possível toda uma população ser votada a esta marginalidade? É tristíssimo e é dramático”, acusa o humorista que deu voz a diferentes personagens do programa “Contra Informação”. E que ficou conhecido por, entre outros, ter dobrado para português personagens como Olaf (“Frozen”), Peter Parker (“Homem-Aranha”) ou Skipper, o líder dos pinguins no filme “Madagáscar”.

A ligação à sétima arte começou em Beja, em 1992, com uma “discreta participação” em “Adeus Princesa”, longa-metragem de Jorge Paixão da Costa, baseada no romance da recentemente falecida Clara Pinto Correia. Grande parte da ação passa-se no Pax Julia, onde hoje a exibição cinematográfica é residual.

RAIVA

Como ocasional é a projeção de cinema em todo o vasto território do distrito de Beja. E sempre em salas municipais de âmbito cultural genérico. “A secundarização do cinema nos programas culturais é uma realidade.” Quem o afirma é Hugo Bentes. Ator natural de Serpa, figura incontornável na filmografia de Sérgio Tréfaut, Prémio Sophia para melhor ator principal pela participação no filme “Raiva”, Bentes teme que a “situação do cinema no Alentejo e em todo o interior de Portugal possa não ser apenas uma crise passageira. O cinema pode mesmo estar a morrer nestas regiões”.

Helena Inverno, cineasta premiada e artista multidisciplinar, vai mais longe ao afirmar que “o pouco cinema, e a cultura em geral, que agora passa no Alentejo é por iniciativa das autarquias. E o que elas exibem são os blockbusters de Hollywood. Estão a formatar as nossas crianças com a cultura americana. Estão a criar uma monocultura dentro da cultura. E quando isso acontece, as nossas crianças não vão conseguir desenvolver perceções e as nuances da sua própria cultura e do território onde estão. Sim, estamos a dar-lhes um imaginário que não é o delas. E esse imaginário, normalmente, é o imaginário da indústria da guerra. O cinema também tem esse poder”.

Nota Metodológica

Análise de acessibilidade em Portugal continental, considerando a distância (km) e o tempo (minutos) de condução desde o ponto central de cada freguesia até ao cinema, cineteatro ou teatro e até à biblioteca mais próxima (em análises separadas), com dados do serviço de rotas do ArcGIS Online da ESRI e extensão Network Analysis. Para os municípios, os dados das freguesias foram agregados, obtendo valores médios de distância (km) e deslocação de carro (minutos).

+ Portugal Distante

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CRÉDITOS

Textos Paulo Barriga e Raquel Albuquerque
Infografia Cátia Barros com Sofia Miguel Rosa
Análise de Dados NOVA Cidade - Urban Analytics Lab
Foto Ricardo Zambujo
Webdevelopment Cátia Barros
Webdesign Tiago Pereira Santos
Coordenação Isabel Leiria, Marta Gonçalves e Rita Ferreira
Direção João Vieira Pereira

Expresso 2026