Em janeiro, um "comboio de tempestades" atravessou o centro do país. A Kristin foi a mais devastadora
Onde o vento ainda é aflição
Primeiro a Harry, depois a Ingrid, seguiu-se a Joseph, a destruidora Kristin, a Leonardo e, por fim, a Marta. Chamam-lhe "tempestade-mãe".
Em janeiro deste ano, atravessou Portugal, deixando um rasto de destruição. Leiria, Marinha Grande e Alcácer do Sal foram dos locais mais afetados.
Passaram seis meses e a reconstrução faz-se a um ritmo mais lento do que a urgência da vida
JULHO 2026
Na casa de Miguel Mesquita e Mariana Dimas, a água chegou à altura dos filhos. A mãe sabe-o porque foi riscando, ao longo dos anos, o crescimento dos miúdos na parede do quarto. Foi exatamente nessa marca que o rio Sado parou de subir. Um metro e meio de água, de 4 para 5 de fevereiro.
"Naquela noite, enquanto via a água a entrar-me lentamente pela casa, fumei um maço. E eu nem fumo."
Tem 33 anos e cresceu em Alcácer do Sal. Em criança, as cheias eram uma brincadeira. "Os miúdos todos da vila iam para a avenida apanhar lagostins. Era uma coisa pontual." Nada fazia antever o que aconteceu. "A água entrou por todo o lado: pelos esgotos, pelas portas, pelas janelas. Não tivemos tempo de tirar nada. A única coisa que se salvou foi a roupa, porque fomos lavando compulsivamente até o cheiro desaparecer."
Na manhã em que Alcácer ficou submersa, Miguel e Mariana esperavam, molhados até à cintura, que os bombeiros conseguissem resgatar os cães. Dentro de casa, já não havia praticamente nada para salvar.
Por aquelas ruas que há seis meses foram rio há agora mobílias apodrecidas à porta, entulho, andaimes e sinais a dizer “vende-se”. As janelas estão abertas, como se toda a cidade estivesse em limpezas de primavera. O calor de julho está a ajudar a secar as paredes.
Miguel, Mariana e os dois filhos vivem agora com os pais dela. Nunca tiveram acesso aos apoios destinados à reconstrução da habitação própria e permanente: o imóvel pertence, no papel, a uma sociedade. Seguiram-se meses de cartas, perguntas sem resposta, reclamações e silêncios, um braço de ferro com a peritagem que chegou à Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF). Só então a seguradora acabou por reconhecer ao casal uma indemnização que Miguel descreve como "justa". As obras estão finalmente prestes a começar. Seis meses depois, esta é uma história que se repete, em diferentes escalas, pelo país que ficou no caminho da Kristin.
Miguel Mesquita (esquerda) e Mariana Dimas (direita)
Miguel Mesquita (esquerda) e Mariana Dimas (direita)
As Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) receberam 35.908 candidaturas de apoio à reconstrução de habitações e, até à data, aprovaram mais de metade, num montante de €78 milhões já pago. Na região Centro, o território mais atingido, o ritmo da recuperação continua desigual: Há agora 100 Municípios que concluíram as suas avaliações a 100% e 127 Municípios que concluíram mais de 90% das avaliações, mas os mais afetados ainda acumulam milhares de candidaturas por decidir.
A primeira vítima
Harry, Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta: seis tempestades que deixaram para trás um país dividido entre aquilo que ainda pode ser recuperado e o que se perdeu para sempre.
Na madrugada de 28 de janeiro, Abid Shahzad saiu mais cedo da panificadora onde trabalhava, em Arruda dos Vinhos. Tinha ouvido falar da tempestade que se aproximava e quis antecipar-se. Como fazia todos os dias, entrou na carrinha da empresa em direção à estação ferroviária de Vila Franca de Xira. Apanharia dali o comboio para casa, na Amadora.
Nunca chegou à plataforma.
Pouco passava das três da manhã quando uma árvore caiu sobre a viatura, junto à bomba de gasolina de Povos. Morreu ali mesmo, a poucos quilómetros do fim da viagem.
O padeiro paquistanês tinha 45 anos e vivia em Portugal há três. Faltava-lhe apenas uma ida à Agência para a Integração Migrações e Asilo (AIMA) para conseguir a reunificação familiar. O plano era simples: trazer a mulher, Shaista, e os três filhos, Shees, Amina e Abrish.
Muhammad Shahbaz está agora sentado no restaurante que gere na Amadora. Espalha sobre a mesa os documentos do processo de imigração. Como se aqueles papéis fossem a única prova material de um futuro que existiu apenas no papel.
Ele é cunhado de Abid, foi quem recebeu a notícia da morte.
"O Paquistão é um país bom, mas é para quem tem dinheiro. E o Abid era agricultor, não tinha dinheiro. Cá em Portugal ganhava €1040 por mês. Só queria trazer a minha irmã e os meus três sobrinhos pequenos. Era o maior objetivo da vida dele."
Abid (à direita) com a mulher e os três filhos, no Paquistão
Abid (à direita) com a mulher e os três filhos, no Paquistão
Abid é a primeira vítima conhecida da tempestade Kristin. Não foi a última.
Primeiro, foi a força do vento que matou. Rogério Parente, o segurança do parque fotovoltaico da Fonte do Oleiro, em Leiria, que voou dentro do contentor onde estava a trabalhar; Ricardo Teodósio, de 38 anos, o pintor de Carvide, também em Leiria, que foi atingido pelo telhado da garagem que tentava segurar ao lado do pai, e Helda Muianga, a modelo de 28 anos cuja casa desabou.
Nos dias seguintes, foi a vontade de reenconstruir o que tinha sido destruído. Fernando Delgado, Rui Cerejo, José Alberto Quinteira, Joaquim Ferreira e José Encarnação Sousa subiram aos telhados para consertar a casa e pôr travão à chuva. Caíram lá de cima.
E a tempestade continuou a matar, camuflada na crise energética. Cláudia Lourenço, de 36 anos, e José Manuel Piedade, de 74, morreram intoxicados pelo fumo silencioso dos geradores de emergência. João Paulo Domingues, de 37 anos, foi eletrocutado quando tentava devolver a luz aos outros, ao serviço da e-Redes. As cheias sem precedentes arrastaram também as vidas de José Valter Canastreiro, 47 anos, Nuno Paixão, 63, e Janna Antonia Drienhuizen, 84.
Um mapa de ausências espalhadas pelo país que foi sendo ajustado ao ritmo das autópsias do Instituto de Medicina Legal e das investigações do Ministério Público, que ainda mantém oito inquéritos abertos e arquivou outros oito, entre os quais o de Valêncio Santos e Maria de Fátima Santos, o casal que foi encontrado em Soure depois da cheia, dentro do carro submerso pelas águas do Mondego.
Seis meses depois, o balanço oficial fixa-se em 20 mortos: 15 no local, registados pela Proteção Civil, e outros cinco em contexto hospitalar.
Gerir tostões, intervir em milhões
Seis meses depois do cataclismo, os autarcas de Leiria, Marinha Grande e Alcácer do Sal, algumas das localidades mais afetadas, partilham o mesmo diagnóstico: levam a fatura da reconstrução às costas. As câmaras acusam o cansaço de meio ano a trabalhar para concretizar os relatórios de danos e validar as candidaturas dos munícipes aos apoios para a habitação, tarefas que esgotaram as suas estruturas financeiras, materiais e humanas.
Gonçalo Lopes ainda hoje se descreve como o “presidente da Câmara Kristin”. O autarca de Leiria encara o PTRR (Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência) como uma “esperança”, mas não gostou que o programa de €22,6 mil milhões tivesse sido anunciado por Luís Montenegro em Lisboa, em março, longe das casas destelhadas, das florestas decepadas e da indústria arrasada: ”Foi mais do mesmo: Lisboa, Lisboa, Lisboa”. Agora, preocupa-o o compasso de espera pela operacionalização dos fundos, que ameaça arrastar-se no tempo, a um ritmo letárgico que colide frontalmente com a urgência da vida na região.
A matemática do desastre é implacável: a Câmara reportou €193 milhões em danos infraestruturais e, até à data de fecho desta reportagem, tinha gasto €38 milhões e recebido €20,9 milhões do Estado (€11,2 milhões do Fundo de Emergência Municipal (FEM), €500 mil do Fundo Ambiental, €9,2 milhões para gestão florestal) e €6,5 milhões das seguradoras. Tudo somado, resulta num buraco de quase €10,6 milhões nas contas e no futuro financeiro da autarquia. “Estamos a gerir tostões e pedem-nos para intervir em milhões”, diz o autarca ao Expresso.
O apoio às autarquias “não se esgota nas verbas já transferidas”, diz o Ministério da Economia e Coesão Territorial. Os €11,2 milhões recebidos por Leiria através do FEM correspondem a um adiantamento para garantir liquidez imediata, argumenta o gabinete de Castro Almeida. O Executivo está a finalizar a abertura de novas candidaturas a este fundo, para enquadrar as despesas entretanto realizadas e avançar para uma fase mais estruturada da reconstrução.
Para os autarcas, contudo, a dispersão das verbas não resolve o problema imediato: as obras avançam, as faturas chegam e uma parte substancial do dinheiro continua por entrar.
"Não é só falta de dinheiro, é falta de contacto"
A presidente da Câmara de Alcácer diz que o Governo anda “a passo de caracol”. “Durante a tempestade, sentimo-nos apoiados pelos meios do Estado e, nessa altura, não poupei nos elogios. Mas, desde então, ficámos esquecidos. Temos €95 milhões de prejuízo e, até agora, chegaram apenas €2,7 milhões do Estado (€2,1 milhões do Ministério do Ambiente e cerca de €600 mil do FEM). Não é só a falta de dinheiro, é a falta de contacto. Parece que, se estivermos calados, o Governo não se lembra de que passámos por isto”, diz Clarisse Campos, autarca socialista.
Nos últimos seis meses, os funcionários da Câmara não pararam. “Ficámos sem farmácias. Foram as unidades de saúde, com ajuda do pessoal da Câmara, que andaram a distribuir medicamentos pela população. Só agora é que estamos a voltar às rotinas, como a limpeza dos espaços verdes”, diz a presidente.
O Governo sabe que “há situações concretas que devem ser corrigidas" e volta aos números: “Eles não sustentam a ideia de ausência de resposta ou de paralisação da reconstrução."
De acordo com os dados disponibilizados pelo ministério, 100 municípios concluíram a avaliação de todas as candidaturas e 127 ultrapassaram os 90%, sendo Leiria e Marinha Grande as principais exceções devido ao volume excecional de pedidos.
Nesta tabela interativa, pode consultar todos os apoios que o Estado já pagou até à data de fecho desta reportagem.
Stress pós-traumático
Basta o vento levantar-se para que milhares de pessoas regressem, por instantes, à madrugada de 28 de janeiro. “Antigamente era ignorado, hoje, representa aflição”, diz Gonçalo Lopes. “Isso é algo que vai acontecer ainda durante algum tempo na vivência das pessoas.”
A escassos quilómetros, na Marinha Grande, do topo à base da estrutura de recursos humanos, há uma equipa em “stress pós-traumático” que ainda não descansou: “Tenho chefes de divisão a trabalhar sem folgas desde 28 de janeiro. Os funcionários estiveram na rua a apoiar as populações e a viver o seu sofrimento, muitos deles com as casas também afetadas. Estou agora a tratar, junto da Estrutura de Missão, de arranjar apoio psicológico para todos os que precisarem. Já se começa a refletir no dia a dia de cada um de nós”, diz o presidente da autarquia, Paulo Vicente.
“Caiu-nos em cima esta incumbência, sem qualquer auscultação.” O autarca do segundo município com maior número de candidaturas apresentadas a seguir a Leiria teve de formar um gabinete especial com dez postos de trabalho para rever candidaturas e fazer relatórios de prejuízos. Até agora, a autarquia gastou €7,9 milhões e recebeu €6,5 milhões (€3,9 milhões do FEM, €940 mil do Fundo Ambiental e €1,7 milhões para gestão florestal). A montanha dos prejuízos mede €166 milhões.
O Governo reconhece os constrangimentos, mas bate-se pela sua decisão de deixar nas mãos das câmaras: “Foi a correta, por assentar na proximidade ao território”. Sustenta que a centralização teria atrasado ainda mais a resposta e recorda que mobilizou cerca de 700 arquitetos e engenheiros para apoiar os municípios, estrutura que “já analisou mais de 11 mil candidaturas”.
O presidente da Marinha Grande ainda hoje está a lidar com as consequências de um início turbulento, em que a plataforma que o Estado disponibilizou permitia que os munícipes se candidatassem aos apoios sem informações cruciais, como IBAN e número da apólice do seguro, criando uma montanha de pedidos sem condições para validação.
Seis meses depois, ainda há 250 em “esclarecimento pelos requerentes” na Marinha Grande.
Apesar das críticas ao ritmo da resposta do Estado, há uma ideia em que todos convergem: a reconstrução não deve servir apenas para repor o que a tempestade levou. É o que Clarisse Campos quer fazer com a Biblioteca Municipal de Alcácer, cujo primeiro andar foi inundado, com o Museu Pedro Nunes e com o edifício dos serviços técnicos, que deverá dar lugar a um balcão único de atendimento para serviços municipais. O presidente de Leiria diz que não acaba o mandato “sem deixar as escolas feitas” e quer que, mais do que reerguidas, Marrazes e Maceira “fiquem preparadas para o futuro”.
Gonçalo Lopes acredita que a Kristin “ainda poderá vir a ser a tempestade mãe” de um novo país, mais resiliente, mais preparado, “com berço em Leiria”.
Campeã três dias depois da Kristin
Camila Santos lembra-se dos gatos a miar, dos grunhidos do seu pequeno porco e dos pais a segurarem as janelas da marquise. Na noite de 28 de janeiro, a tempestade “Kristin” quase lhe levou as aspirações. Aconteceu exatamente três dias antes da 24ª Final Nacional do Triatlo Técnico Jovem, para a qual a atleta de 13 anos se havia preparado durante o ano inteiro. “Fiquei desesperada. Em minha casa, as coisas não estavam bem e eu só pensava no triatlo.”
Tinha a melhor marca de todos os altetas apurados, mas, do dia para a noite, ficou sem luz, sem telecomunicações, com o telhado danificado e os pais desorientados. Foi a partir do Hospital de Leiria, onde havia geradores e sistemas Starlink (internet via Stralink), que a família conseguiu finalmente fazer uma curta chamada para o presidente da Associação Distrital de Atletismo de Leiria e confirmar o local exato da prova em Braga.
Deixaram a casa destelhada para trás, rumaram em direção a norte e passaram a noite no primeiro hotel bracarense que lhes apareceu. O esforço valeu. Camila sagrou-se campeã nacional de triatlo sub-14 feminino, com 1745 pontos. Fez a melhor marca no lançamento do peso, 10,24m, no salto em comprimento, 4,81m, e completou os 60 metros em 8,53 segundos. “Disse a mim mesma que não havia problema se corresse mal e isso foi libertador”, diz Camila.
Por esta altura, a recém campeã nacional ainda não tinha percebido muito bem que o seu clube, o Juventude Vidigalense, uma referência no atletismo nacional, tinha sido completamente arrasado. A sede fica localizada no Estádio de Leiria.
Os painéis da cobertura voaram com o vento, caíram no chão, rasgaram o tartã e deixaram a estrutura das bancadas exposta à intempérie. A água estragou equipamentos de ginásio e fisioterapia, máquinas de ultrassons, registos em papel, taças e prémios. Ao lado do estádio, também o Centro Nacional de Lançamentos, onde os atletas treinam, ficou completamente submerso pelas águas do rio Lis, que atravessa a cidade.
Autênticos nómadas
“É o fim do clube.” Foram as palavras que saíram da boca de Netaniel Lopes, 43 anos, quando chegou ao seu local de trabalho. “De um lado, o estádio todo partido, do outro, o centro de lançamentos submerso, com o edifício e as carrinhas debaixo de água. Na altura, confesso, fui-me abaixo. Não consegui ver uma saída possível. Ficámos todos assim”, diz o treinador, responsável pela secção de formação do clube, a mais prejudicada pela tempestade.
Seis meses depois, ainda se contam os estragos. Atletas, treinadores e dirigentes apanharam o que sobrou e, com os restos das antigas quatro gaiolas de lançamento, conseguiram improvisar duas muito tortas. Para já, serve. Novas podem custar até €40.000. “O luto rapidamente se transformou em ação”, conta Netaniel. Os pesos, dardos, martelos e equipamento de ginásio oxidaram com a água, mas ainda se usam. Dos colchões de saltos verticais, sobraram apenas os bocados que ficaram pendurados em arbustos e enterrados na lama.
No estádio, só o som das marteladas interrompe os gritos e gargalhadas dos escalões mais novos que já lá voltaram a treinar. Vêm lá de cima, da cobertura, que começou entretanto a ser substituída. Ao todo, confirma Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria, a reabilitação irá ficar pelos €4,5 milhões e a autarquia ainda não sabe quanto deste valor será coberto pelo seguro. Vai fazendo o que pode. Os balneários, onde ainda chove, e os baldes espalhados pelos corredores contrastam com salas onde já cheira a tinta fresca.
“Somos um clube que vive essencialmente das mensalidades dos atletas. A primeira coisa em que pensei foi que eles iriam embora, mas não foram. É uma coisa que ainda hoje me emociona”, conta o presidente do Juventude Vidigalense, Nuno Cordeiro. Não só permaneceram, como foram a chave para a recuperação: durante seis meses, guardaram em suas casas e garagens os equipamentos que resistiram, emprestaram e doaram ao clube o que foi preciso, fizeram angariações de fundos e treinaram onde calhou.
“Fomos autênticos nómadas. Preparámo-nos para as provas em parques de estacionamento, nas bancadas do estádio, na rua, em frente à CUF, nas pistas das Caldas da Rainha, Marinha Grande, Pombal, Alpiarça e Jamor”, diz Camila, que encontrou na adversidade uma vantagem competitiva. “Talvez treinar em sítios muito diferentes, com vários treinadores, me tenha feito crescer mais um bocadinho.” Fez mesmo: depois da Final Nacional do Triatlo Jovem, foi aos Açores, em abril, ganhar também o Torneio Nacional Atleta Completo, com 3377 pontos. “É estranho, mas o ano da Kristin está a ser também o meu ano.”
130 anos de história soterrados pelo Mondego
Quando o dique lateral do Mondego colapsou, a 11 de fevereiro, arrastando consigo um troço da Autoestrada A1, o rio enterrou os viveiros Moreira da Silva com o equivalente a 16 piscinas olímpicas de areia. Meio ano depois, aqueles seis hectares continuam sepultados e cada dia que passa sem que as máquinas avancem com o desassoreamento é um prego no caixão de uma empresa familiar centenária que já chegou a faturar €7 milhões por ano e que agora vê o seu futuro refém da lentidão burocrática.
“Não consigo imaginar um cenário pior”, diz Albano Moreira da Silva, o engenheiro de 35 anos que assumiu o negócio de plantas e árvores ornamentais, com 23 funcionários, que o pai deixou desamparado depois de adoecer. O agora CEO queixa-se da demora na tomada de decisão sobre os trabalhos de desassoreamento, que acabaram por ficar a cargo da ABBM (Associação de Beneficiários do Baixo Mondego). Seis meses depois, ainda não há máquinas no terreno.
Papel e prazos
Sob o manto de silêncio que cobre os campos, corre uma intrincada maratona de papel e prazos. A ABBM explica que só a 8 de abril, dia em que a comitiva de António José Seguro pisava Coimbra no âmbito da Presidência Aberta, o Governo publicou a portaria que criava o oxigénio financeiro para os trabalhos no Mondego. Até ali, sem a tinta fresca da lei a dar garantias, era impossível para a estrutura da ABBM, “sem recursos técnicos, humanos e operacionais”, lançar tratores à terra.
O bolo financeiro de €4,5 milhões do PEPAC (Plano Estratégico Agrícola Comum) foi aprovado a 6 de junho. Uma verba à qual a associação se candidatou em contrarelógio, em apenas uma semana, e que não vai servir só para desassorear, mas para remendar uma colossal cicatriz de 12.000 hectares que rasgou canais, valas e caminhos por todo o aproveitamento hidroagrícola do Mondego. Na mesma candidatura, a ABBM incluiu ainda uma pensão de sobrevivência para os produtores, uma compensação pela perda de rendimento de quem tem a terra soterrada.
A vitória burocrática da aprovação dos fundos ainda não se traduziu no ronco dos motores. O processo está agora enredado na "fase de preparação das peças escritas", o purgatório administrativo onde se desenham os cadernos de encargos indispensáveis para lançar um concurso público. A engenharia institucional está ganha no papel, mas, no terreno, os viveiros de Albano continuam sob a praia deserta.
A esperança de salvar a próxima campanha não lhe devolveu as noites de sono: “Ao contrário dos campos abertos que dominam a região, os nossos viveiros albergam uma complexa engenharia oculta para a produção de plantas ornamentais em vaso”. O engenheiro explica que escondida sob o manto de sedimentos deixado pelo Mondego está uma vasta rede de condutas de rega pressurizadas e ramificadas e perfis de canteiro em V, desenhados especificamente para a drenagem e nutrição das plantas.
“Se o caderno de encargos da adjudicação for fechado sem incluir especificações técnicas detalhadas para esta parcela, o futuro dessa infraestrutura ficará à mercê da boa vontade do empreiteiro”, explica Albano. As retroescavadoras tradicionais correm o risco de estraçalhar o que resta do sistema de rega, desferindo o golpe de misericórdia nos viveiros.
O que resta dos viveiros Moreira da Silva sobrevive agora no estaleiro onde antes a empresa guardava as máquinas
O que resta dos viveiros Moreira da Silva sobrevive agora no estaleiro onde antes a empresa guardava as máquinas
O desassoreamento cirúrgico daquele terreno é o primeiro dominó de uma complexa engrenagem financeira de investimentos públicos. Sem terrenos limpos, Albano não pode ir buscar o fundo de um milhão de euros do IFIC e do PEPAC 431, e, sem esse milhão, a empresa colapsa, deitando a perder outros fundos estruturais que serviriam para reerguer a economia da região.
O presidente da Associação dos Agricultores do Vale do Mondego fala numa realidade tranversal a muitos produtores lesados: “Estamos todos preocupados com esta campanha”, desabafa João Monteiro Grilo. Para além da tempestade, o contexto internacional, com a guerra no Irão, que faz variar os preços dos fatores de produção, como os fertilizantes e os combustíveis, lança os agricultores do Mondego numa cascata de problemas.
A Mata que já não existe mas que ainda pode arder
Se Manuel Vitória e Carlos Martinho juntassem as décadas de experiência, a soma dava mais de meio século. A equipa da Câmara da Marinha Grande que ausculta a Mata Nacional já apanhou de tudo na floresta: fogueiras, garotos a atirarem pinhas a arder um ao outro, incendiários em flagrante e vestigios de todo o tipo de rituais do oculto e bruxarias. O que nunca tinham visto era uma floresta inteira desaparecer: “86% da Mata Nacional de Leiria desapareceu nos fogos de 2017. O resto foi agora levado pela Kristin. Sobram os pinheiros com seis ou sete anos, por serem mais pequenos. Não é sensacionalista dizer que já não existe Pinhal de Leiria, é factual”, diz Manuel.
Começam a ronda no Parque de Merendas da Portela, um dos sítios mais queridos da Mata Nacional. Seis meses depois, a rede viária está praticamente desimpedida. Já se pode circular pela grande desolação. Um trabalho hercúleo que foi feito em conjunto pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que tutela aquela floresta, e a Câmara Municipal. “Nós ajudamo-los a eles e eles ajudam-nos a nós. É uma relação cimentada pelo trauma. Há hoje um diálogo profícuo de parte a parte, mas nem sempre foi assim”, diz Paulo Vicente, presidente da Câmara da Marinha Grande.
Carlos Martinho (esquerda) e Manuel Vitória (direita)
Carlos Martinho (esquerda) e Manuel Vitória (direita)
Acabou o mandato em 2017, logo após os incêndios desse ano, e foi reeleito em outubro de 2025, pouco antes da tempestade. Depois do vento e da chuva, a preocupação agora é o fogo: “Dois terços do território da Marinha Grande são floresta e uma parte dessa floresta é a Mata Nacional, que as pessoas acham que é no concelho de Leiria, mas não é.” Tem sido essa a missão da estrutura da Proteção Civil municipal. GNR, bombeiros e guardas florestais estão juntos na tentativa de parar aquilo que parece ser inevitável: desde abril, já se registaram pelo menos três focos de incêndio que Carlos e Manuel acham “suspeitos”.
O coordenador da Proteção Civil municipal, Pedro Borges, fala em cenários de grande dificuldade: “Focos completamente afastados da estrada. Um deles foi atendido por uma equipa que, para lá chegar, teve de desbravar caminho com motosserra. Na eventualidade, será muito difícil, senão mesmo impossível, combater o fogo assim”.
Antes, vigiavam uma floresta. Agora, vigiam entulho
O ritmo dos trabalhos enfrenta o estrangulamento da escassa capacidade operacional do mercado privado. As empresas madeireiras locais estão saturadas e sem meios humanos ou mecânicos suficientes para absorver o volume histórico de árvores adultas derrubadas pela tempestade Kristin.
A limpeza e gestão das Matas Nacionais são da responsabilidade do ICNF, que conseguiu despachar, nos últimos seis meses, 340 hectares de madeira partida ou tombada, dos 542 que pôs no mercado, uma operação que priorizou a faixa de interface com habitações e parques de campismo da Marinha Grande, mas que esbarra num mercado privado estrangulado por um volume histórico de árvores adultas derrubadas.
A madeira tombada vai aparecendo empilhada um pouco por toda a região afetada
A madeira tombada vai aparecendo empilhada um pouco por toda a região afetada
A restante área florestal privada fica a cargo dos proprietários. A autarquia deu-lhes duas possibilidades: quem comunicou ao ICNF, até 1 de junho, a intenção de proceder à limpeza dos terrenos pode receber um incentivo financeiro entre €1000 e €1500 por hectare, consoante o grau de danos. Já nos casos em que essa comunicação não foi feita, o município poderá avançar diretamente com as ações de limpeza e remoção, no âmbito da OIGP (Operação Integrada de Gestão da Paisagem).
Para isso, é preciso dinheiro. O Estado fez um orçamento global para cada um dos municípios de acordo com a área impactada. A Marinha Grande recebeu uma fatia de €2.8 milhões, valor que, pelas contas da autarquia, vai ficar aquem em cerca de um milhão de euros. “Vamos ter de definir prioridades, porque não temos dinheiro para fazer tudo. Provavelmente, vai sair do nosso bolso. Felizmente, ainda não tivemos nenhum incêndio. Mas não andamos descansados”, diz Paulo Vicente.
Manuel e Carlos seguem para um dia a dia atípico: “Fazemos o mesmo que sempre fizemos, a diferença é que antes vigiávamos uma floresta e agora vigiamos entulho florestal”.
Já não cheira a rio dentro da casa de Miguel e Mariana. É o primeiro sinal de mudança. Camila está a preparar-se a última jornada da época e só pensa na subida de escalão no próximo ano. Albano continua com um campo de areia, não sabe como vai ser a próxima colheita. Manuel Vitória e Carlos Martinho percorrem todos os dias uma floresta que desapareceu, esperando que não seja o fogo a reclamar o que o vento deixou para trás.
Por ali, espera-se apenas que a próxima tempestade não volte a encontrar o mesmo país.
CRÉDITOS
Texto Rúben Tiago Pereira
Vídeo Rúben Tiago Pereira, Tiago Pereira Santos e Arquivo SIC
Drone Tiago Pereira Santos e 4K Fly
Foto Nuno Botelho e Tiago Miranda
Tratamento e visualização de dados Cátia Barros
Grafismo animado Carlos Paes
Webdevelopment João Melancia
Webdesign Tiago Pereira Santos
Coordenação Marta Gonçalves
Direção João Vieira Pereira
Expresso 2026
