Molinhas
Onde saltar à corda não é brincadeira
É nas Caldas das Taipas, pequena freguesia do concelho de Guimarães, que podemos encontrar cerca de 30% dos praticantes nacionais de rope skipping. O Molinhas é o clube que acolhe 70 atletas da modalidade vulgarmente conhecida como saltar à corda. Apesar da reduzida implementação, Portugal já garantiu resultados internacionais de relevo, entre os quais um 6º lugar no último Mundial. Existem vários tipos de prova, diversas cordas e uma complexidade que faz deste desporto muito mais do que uma brincadeira
JANEIRO DE 2026
É demasiado tarde para ainda haver algazarra na Escola Secundária de Caldas das Taipas. Restam poucas luzes acesas e o porteiro está ansioso por varrer toda a gente dos seus domínios. Aparentemente, dezenas de crianças quiseram ficar no recreio até anoitecer. De facto, podia ser um intervalo. A energia dentro daquele pavilhão também se encontra nos momentos de pausa entre aulas, mas esta vivacidade toda pertence ao Molinhas, o clube onde saltar à corda não é uma brincadeira.
A inquietude e os sorrisos quase fazem parecer o contrário, mas, por mais que também o seja, não se trata apenas de um divertimento. As dúvidas quanto à dimensão competitiva desvanecem-se assim que a coluna se põe a emitir sinais sonoros que marcam o início e o fim de séries de velocidade curtas e intensas. O chão azul do pavilhão transforma-se numa tecla de piano premida compulsivamente com os pés. Os atletas – não tenhamos medo da palavra – estão encarreirados frente a frente. Quando ouvem o apito, começam uma corrida contra o tempo sem saírem do mesmo lugar. O ambiente preenche-se com os tinidos da corda a raspar no solo. O tronco estabiliza, os pulsos fazem o fio de aço rodopiar e os pés fogem ao chão como se este escaldasse. Forma-se algo que se assemelha a uma nuvem de eletrões a mover-se como um martelo pneumático.
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Com a ajuda de uma coluna, os atletas aprimoram a velocidade
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Os rostos contraídos expõem um sofrimento aliviado quando termina o último segmento de esforço. O exercício deixa as bochechas de Carlota coradas. “A resistência é o que custa mais”, diz a ofegar. A fase do treino que menos gosta ficou reservada para o fim. Antes, esteve a aprimorar elementos gímnicos e saiu a executar o salto com mãos com maior rigor. É para que a camisola que traz presa dentro dos calções justos não entre em voos perturbadores. O cabelo está apanhado para o mesmo efeito. “A parte das acrobacias é a mais divertida.” Rompe a timidez para falar de algo que conhece. Tem 11 anos e pratica rope skipping desde os oito. “Na escola, sempre que me perguntam o que faço, ninguém sabe o que é. É um desporto muito diferente. Por mais que mostre uma coisa que, para mim, é super simples, para as outras pessoas, é tipo uauuuu.”
Rope skipping é exatamente o que a tradução indica: saltar à corda. Quem pratica este desporto de forma séria e organizada utiliza o termo inglês para se referir à modalidade que combina vertentes de velocidade, nas quais o objetivo é dar o maior número de saltos possível, e de freestyle, onde as acrobacias, a musicalidade e os manejos de corda são elementos levados à avaliação de um júri.
“Temos liberdade para explorar diferentes áreas. Os treinos nunca são iguais.” O louvor é feito por Paulo Lima. É alto e, ao falar com as mãos, parece um maestro a coordenar o próprio discurso. Paulo é um atleta mais experiente que também exerce funções como professor de Educação Física. De momento, por sentir “que é importante mostrar desportos diferentes” aos mais novos, encontra-se inserido num projeto de implementação da modalidade nas escolas (Jump4Fun) e, com 26 anos, viaja por Portugal para tentar pôr o país aos pulos. “O meu trabalho é, de manhã à noite, colocar a modalidade nas escolas primárias.”
Rope skipping é exatamente o que a tradução indica: saltar à corda. Quem pratica este desporto de forma séria e organizada utiliza o termo inglês para se referir à modalidade que combina vertentes de velocidade, nas quais o objetivo é dar o maior número de saltos possível, e de freestyle, onde as acrobacias, a musicalidade e os manejos de corda são elementos levados à avaliação de um júri.
“Temos liberdade para explorar diferentes áreas. Os treinos nunca são iguais.” O louvor é feito por Paulo Lima. É alto e, ao falar com as mãos, parece um maestro a coordenar o próprio discurso. Paulo é um atleta mais experiente que também exerce funções como professor de Educação Física. De momento, por sentir “que é importante mostrar desportos diferentes” aos mais novos, encontra-se inserido num projeto de implementação da modalidade nas escolas (Jump4Fun) e, com 26 anos, viaja por Portugal para tentar pôr o país aos pulos. “O meu trabalho é, de manhã à noite, colocar a modalidade nas escolas primárias.”
Quando chega a um estabelecimento de ensino pela primeira vez, Paulo encontra resistentes. “Os rapazes dizem logo que não querem saltar à corda, que é um desporto para meninas.” É até lhes dar a volta. “Sinto que, depois de lhes dizer que faço mortais com a corda, eles percebem a diferença do saltar à corda tradicional em relação ao rope skipping e ficam logo motivados. Por exemplo, saltar com duas cordas é uma coisa que os deixa loucos nas escolas. Pensam que é impossível, mas, depois de saltarem e verem que até é fácil, querem logo aprender mais coisas.”
Não foi preciso arrazoar muito com Rafael, que se deixou convencer facilmente ainda com sete anos. Tem a mesma idade de Carlota e igual dificuldade em explicar o que faz. "Da minha turma, só eu e outro colega é que estamos aqui. Os outros praticam futebol, dança e artes marciais. Não faço um desporto tradicional, é menos conhecido. Os outros fazem desportos que a maior parte das pessoas fazem. Sinto que sou diferente, porque não sou igual a todos os outros." É preciso ser reguila, requisito que recebemos indicação que Rafael cumpre, para escolher uma modalidade à revelia dos padrões.
O alarido no bem composto pavilhão fica à responsabilidade de dezenas de cabeças. Há quem repita a mesma manobra vezes sem conta e notam-se melhorias a cada tentativa mesmo nos casos em que a perfeição ainda está a alguns treinos de distância. É preciso coragem para que a firmeza do chão não amedronte as piruetas. As cordas são omnipresentes e envolvem cada movimento.
Quando chega a um estabelecimento de ensino pela primeira vez, Paulo encontra resistentes. “Os rapazes dizem logo que não querem saltar à corda, que é um desporto para meninas.” É até lhes dar a volta. “Sinto que, depois de lhes dizer que faço mortais com a corda, eles percebem a diferença do saltar à corda tradicional em relação ao rope skipping e ficam logo motivados. Por exemplo, saltar com duas cordas é uma coisa que os deixa loucos nas escolas. Pensam que é impossível, mas, depois de saltarem e verem que até é fácil, querem logo aprender mais coisas.”
Não foi preciso arrazoar muito com Rafael, que se deixou convencer facilmente ainda com sete anos. Tem a mesma idade de Carlota e igual dificuldade em explicar o que faz. "Da minha turma, só eu e outro colega é que estamos aqui. Os outros praticam futebol, dança e artes marciais. Não faço um desporto tradicional, é menos conhecido. Os outros fazem desportos que a maior parte das pessoas fazem. Sinto que sou diferente, porque não sou igual a todos os outros." É preciso ser reguila, requisito que recebemos indicação que Rafael cumpre, para escolher uma modalidade à revelia dos padrões.
O alarido no bem composto pavilhão fica à responsabilidade de dezenas de cabeças. Há quem repita a mesma manobra vezes sem conta e notam-se melhorias a cada tentativa mesmo nos casos em que a perfeição ainda está a alguns treinos de distância. É preciso coragem para que a firmeza do chão não amedronte as piruetas. As cordas são omnipresentes e envolvem cada movimento.
Há 1500 participantes de rope skipping ativos em Portugal
Há 250 atletas em competição
28% treinam no Molinhas, nas Caldas dasTaipas
Sandra Freitas, a presidente do Molinhas, contou com 70 atletas inscritos em 2024/25. Há crianças de quatro anos e adultos de 50. Não consegue precisar qual o rácio entre raparigas e rapazes, mas tem a certeza de que são elas que dominam. O Molinhas começou “a trabalhar de forma informal em 2009”, focando-se no desporto escolar. Oficialmente, explica a dirigente, foi fundado em 2015 para lidar com “aspetos burocráticos a que só os clubes conseguem dar resposta” e, desde aí, Caldas das Taipas, uma pequena freguesia do concelho de Guimarães, tornou-se na capital do rope skipping.
Em Portugal, existem 250 praticantes no quadro competitivo principal, ou seja, um só clube pesa 28%. Por agora, o local de maior implementação da modalidade são as escolas. Aí, o número de participantes ativos atinge os 1500. Aliás, Sandra Freitas e Ângelo Santos, treinador do Molinhas, trabalham ambos como professores na Escola Secundária de Caldas das Taipas e por lá fazem muito do recrutamento.
Foi assim que João Vieira (ou Xavi, como também o tratam) acabou pescado. É dos elementos com mais experiência no rope skipping. Aliás, traz vestida uma camisola da seleção que estreou numa das competições internacionais em que representou Portugal. O saltador de 24 anos divide o fim de tarde em duas fases. Começa por corrigir e dar dicas aos grupos em que se divide o treino dos mais novos. Depois, quando a miudagem deixa o pavilhão, faz o próprio treino junto de colegas capazes de acompanhar a complexidade do seu desempenho.
No verão de 2025, Portugal conseguiu a quarta melhor marca na final de Double Dutch Speed 1X30, na cidade japonesa de Kawasaki. Esta prova é realizada por três atletas. Dois, os chamados roladores, avivam o movimento giratório de duas cordas e, ao meio, o outro alterna entre o pé esquerdo e o pé direito durante meio minuto. João Vieira foi a figura central da prestação que também contou com os contributos de João Rodrigues e David Silva.
“É uma prova de velocidade. O árbitro vai contar apenas o pé direito. São 30 segundos e eu tenho que fazer o maior número de saltos possível”, explica João Vieira. A equipa conseguiu um resultado de 120 saltos, o que, em termos de classificação oficial, correspondeu a um sexto lugar ainda que Coreia do Sul, Austrália e Estados Unidos tenham obtido o mesmo registo (122) numa categoria em que o Japão (126) ficou em segundo lugar e Hong Kong (127) venceu.
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João Vieira foi um dos responsáveis pelo melhor resultado internacional de Portugal
João Vieira foi um dos responsáveis pelo melhor resultado internacional de Portugal
João Rodrigues e David Silva também fizeram parte do momento histórico
João Rodrigues e David Silva também fizeram parte do momento histórico
Desde que o Mundial é uma competição de seleções e não de clubes, este é o melhor resultado de sempre de Portugal e de um atleta do Molinhas. “Em termos nacionais, ganhámos tudo o que há para ganhar. Internacionalmente, temos campeões europeus a nível individual e por equipas. Em Double Dutch Speed 4X30, já batemos o nosso próprio recorde três vezes. Em 2024, viemos do Europeu com dez medalhas em todos os escalões”, destaca a curadoria de resultados feita por Sandra Freitas.
A maior especialidade do Molinhas é a velocidade. Nesta família, seguindo a lista de eventos disputados nos Campeonatos do Mundo, enquadram-se as provas de Single Rope Speed Relay 4x30 (uma só corda), Single Rope Double-Under Relay (a corda dá duas voltas por salto), Single Rope Speed 1x30, Single Rope Speed Endurance 1x180, Single Rope Triple Unders (a corda dá três voltas por salto), Double Dutch Speed Relay 4x30 (duas cordas) e Double Dutch Speed Sprint 1x60.
No freestyle, incluem-se o Single Rope Individual Freestyle (apresentação realizada por um elemento com uma corda), o Single Rope Team Freestyle (quatro elementos, cada um com a sua corda), o Double Dutch Pair Freestyle (quatro elementos - dois manejadores e dois saltadores - com duas cordas) o Double Dutch Single Freestyle (três elementos - dois manejadores e um saltador - com duas cordas), o Wheel Freestyle (dois elementos com duas cordas manejadas por ambos) e o Single Rope Pair Freestyle (dois elementos, cada um com a sua corda).
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No rope skipping, há duas famílias de provas: velocidade e freestyle. Cada competição tem material apropriado
No rope skipping, há duas famílias de provas: velocidade e freestyle. Cada competição tem material apropriado
Em paralelo com o Campeonato do Mundo, decorre um evento com identidade própria chamado Double Dutch Contest que procura dar evidência ao Double Dutch Speed 1X30 - prova em que João Vieira, João Rodrigues e David Silva se destacaram no Japão - e ao Double Dutch Pair Freestyle.
O tamanho e o material das cordas varia. Nas provas individuais, as cordas de velocidade são todas de aço. No freestyle, a opção recai sobre cordas de vinil munidas de punhos mais robustos. Quanto à vertente coletiva do Double Dutch, seja na velocidade ou no freestyle, utilizam-se cordas com missangas.
Os tipos de prova aos quais os atletas se entregam só são definidos a partir do escalão sénior. “Até lá, procuramos que eles experimentem tudo”, explica Ângelo Santos. Paulo Lima traça o mapa de países que se impõem mundialmente: “Na China, há escolas de formação, quase como no futebol. É um desporto muito antigo lá. Na parte do freestyle, destacam-se Bélgica, Austrália e Estados Unidos. São aqueles que, visualmente, dão mais espetáculo. Por exemplo, a Bélgica, que é um país tão pequeno quanto Portugal, tem quase 300 clubes de rope skipping.”
A coluna gagueja no início da música. A faixa de Bad Bunny não consegue avançar além do primeiro verso. “Si te quieres divertir…”, escuta-se várias vezes antes de alguém carregar no botão de pausa que dá ao grupo silêncio para discutir que movimentos se encaixam melhor no ritmo. Se as acrobacias não se adequarem, volta-se atrás e testam-se outras.
A sonoridade de “NUEVAYoL” cobre uma coreografia que está a ser ensaiada para uma prova de Double Dutch Freestyle. Os dois fios de missangas andam de mão em mão. O elemento que se recria no abrigo das cordas vai alternando. João Vieira e Paulo Lima fazem parte do trio que também inclui outra peça.
Gabriel Ferreira, de 27 anos, usufrui do protagonismo com um salto que culmina numa aterragem em espargata: “Saltar à corda, toda a gente consegue saltar. Acaba por ser uma brincadeira tradicional. Até os nossos avós saltavam à corda. É um pouco estranho quando explicamos o que é, para nós, saltar à corda. A parte mais divertida é ver a reação das pessoas quando fazemos mortais ou acrobacias dentro das cordas.”
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Em paralelo com o Campeonato do Mundo, decorre um evento com identidade própria chamado Double Dutch Contest que procura dar evidência ao Double Dutch Speed 1X30 - prova em que João Vieira, João Rodrigues e David Silva se destacaram no Japão - e ao Double Dutch Pair Freestyle.
O tamanho e o material das cordas varia. Nas provas individuais, as cordas de velocidade são todas de aço. No freestyle, a opção recai sobre cordas de vinil munidas de punhos mais robustos. Quanto à vertente coletiva do Double Dutch, seja na velocidade ou no freestyle, utilizam-se cordas com missangas.
Os tipos de prova aos quais os atletas se entregam só são definidos a partir do escalão sénior. “Até lá, procuramos que eles experimentem tudo”, explica Ângelo Santos. Paulo Lima traça o mapa de países que se impõem mundialmente: “Na China, há escolas de formação, quase como no futebol. É um desporto muito antigo lá. Na parte do freestyle, destacam-se Bélgica, Austrália e Estados Unidos. São aqueles que, visualmente, dão mais espetáculo. Por exemplo, a Bélgica, que é um país tão pequeno quanto Portugal, tem quase 300 clubes de rope skipping.”
A coluna gagueja no início da música. A faixa de Bad Bunny não consegue avançar além do primeiro verso. “Si te quieres divertir…”, escuta-se várias vezes antes de alguém carregar no botão de pausa que dá ao grupo silêncio para discutir que movimentos se encaixam melhor no ritmo. Se as acrobacias não se adequarem, volta-se atrás e testam-se outras.
A sonoridade de “NUEVAYoL” cobre uma coreografia que está a ser ensaiada para uma prova de Double Dutch Freestyle. Os dois fios de missangas andam de mão em mão. O elemento que se recria no abrigo das cordas vai alternando. João Vieira e Paulo Lima fazem parte do trio que também inclui outra peça.
Gabriel Ferreira, de 27 anos, usufrui do protagonismo com um salto que culmina numa aterragem em espargata: “Saltar à corda, toda a gente consegue saltar. Acaba por ser uma brincadeira tradicional. Até os nossos avós saltavam à corda. É um pouco estranho quando explicamos o que é, para nós, saltar à corda. A parte mais divertida é ver a reação das pessoas quando fazemos mortais ou acrobacias dentro das cordas.”
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Gabriel Ferreira diverte-se com a reação das pessoas às acrobacias que faz dentro das cordas
Gabriel Ferreira diverte-se com a reação das pessoas às acrobacias que faz dentro das cordas
A ductilidade de Gabriel Ferreira já correu o mundo junto dos companheiros saltadores. As principais valências de cada um são geridas tendo em vista “o melhor resultado possível” . Ele explica: “Já nos conhecemos há mais de 10 anos e sabemos quais são os pontos fortes de cada um de nós. Se há uma pessoa que é mais resistente, então vai saltar. As outras pessoas, por terem mais força de braços, acabam por rodar para elas.”
Em Portugal, não existem profissionais de rope skipping. João Vieira trabalha numa serralharia apesar de ter estudado comunicação multimédia. As despesas relacionadas com a participação em competições internacionais saem “quase sempre” do bolso dos atletas, lamenta. “Já cheguei a ir a um campeonato nos Estados Unidos em que tive de pagar quase a totalidade da despesa da viagem.” Não é preciso ir buscar experiências muito antigas. Até mesmo para os Campeonatos do Mundo do Japão realizou-se um crowdfunding para suavizar os gastos.
Paulo Lima diz que “quem salta por gosto, não cansa”. Só que, para lá do esforço que é lidar com lesões nos joelhos, costas e tornozelos, é preciso fazer o sacrifício de arranjar dinheiro para as deslocações ao estrangeiro. Os apoios autárquicos e de pequenos patrocinadores não chegam para atenuar os custos. Assim, no Molinhas não há apenas atletas. Também existem organizadores de concertos, vendedores de calendários, participantes em certames. “No final, se não chegar, o dinheiro acaba por ter de sair do nosso bolso”, diz João Vieira.
Sandra Freitas preferia não ter de “pedinchar” nem de viver “sempre de migalhas”. “Faz parte dos objetivos que um atleta nosso não tenha de pagar para ir a uma competição internacional representar o país.” As ambições da dirigente esbarram na atómica dimensão do rope skipping que ainda não se estabeleceu como federação, organismo que “permitiria aceder ao Estatuto de Atleta de Alta Competição, negociar horários para treinarem ou para que pudessem faltar à época de exames”.
Mesmo em fases de menor intensidade, João, Gabriel e Paulo não deixam de investir duas horas à segunda, à quarta, à sexta e ao sábado na afinação de capacidades. Dois meses antes das maiores competições, treinam duas vezes por dia durante toda a semana. Podem passar até seis horas por dia a saltar à corda.
“Lá fora, eles treinam o ano inteiro assim.” Ângelo Santos acredita que o número de horas de treino “faz toda a diferença”. Devido às atividades curriculares e profissionais dos saltadores, no Molinhas não é possível replicar o que se faz nos “espaços profissionais” existentes nos países com mais relevância na modalidade. “Se tivéssemos essas condições, podíamos ainda chegar mais longe.”
O próximo objetivo do Molinhas é subir ao pódio no Mundial. “É a nossa maior motivação”, aponta Gabriel Ferreira. “É para isso que nós trabalhamos.” O pequeno Rafael assiste a alguns momentos do treino dos colegas mais velhos. Será também capaz de executar as mesmas acrobacias? “Algumas coisas”, responde confiante nas capacidades que, em muito menos tempo de prática, adquiriu. “Daqui a cinco anos, imagino-me no Europeu.” Tal como os seus exemplos, quer andar às voltas pelo mundo.
CRÉDITOS
Texto Francisco Martins
Fotos Rui Duarte Silva
Vídeo José Cedovim Pinto
Webdesign Tiago Pereira Santos
Animação gráfica Carlos Paes
Apoio web Cátia Barros
Coordenação Diogo Pombo, Lídia Paralta Gomes e Marta Gonçalves
Direção João Vieira Pereira
Expresso 2026

