O banho de mar acalmava os nervos. Homens, mulheres e crianças, mergulhavam vestidos, sob o olhar atento do banheiro. O banho de sol entorpecia o corpo, vulgarizava a tez, e não era recomendado. No princípio do século XX a praia era um local de encontros, lazer e descanso. Ricos e pobres iam a banhos nas mesmas praias, mas não se cruzavam. O Expresso desafia os leitores a recuarem cem anos e viajarem de Norte a Sul do país por nove estâncias balneares mencionadas pelo guia “As Nossas Praias - Indicações gerais para uso de banhistas e turistas”, publicado pela Sociedade Propaganda de Portugal em 1918. Durante a leitura vai encontrar muitas palavras com alegadas gralhas. Optámos, simplesmente, por respeitar a ortografia utilizada por revistas e jornais do início do século XX que, tal como o guia “As Nossas Praias”, mostram que a língua também viaja no tempo

O banho de mar acalmava os nervos. Homens, mulheres e crianças, mergulhavam vestidos, sob o olhar atento do banheiro. O banho de sol entorpecia o corpo, vulgarizava a tez, e não era recomendado. No princípio do século XX a praia era um local de encontros, lazer e descanso. Ricos e pobres iam a banhos nas mesmas praias, mas não se cruzavam. O Expresso desafia os leitores a recuarem cem anos e viajarem de Norte a Sul do país por nove estâncias balneares mencionadas pelo guia “As Nossas Praias - Indicações gerais para uso de banhistas e turistas”, publicado pela Sociedade Propaganda de Portugal em 1918. Durante a leitura vai encontrar muitas palavras com alegadas gralhas. Optámos, simplesmente, por respeitar a ortografia utilizada por revistas e jornais do início do século XX que, tal como o guia “As Nossas Praias”, mostram que a língua também viaja no tempo

Cap. IPóvoa de Varzim

O mais lindo caravançará do Norte

“Nenhuma praia, ao norte de Portugal, oferece tantas comodidades à colónia banhista como esta. É aqui ponto de reunião das melhores famílias portuguesas e brasileiras. No tempo dos banhos a Póvoa de Varzim é uma pequena cidade onde se encontra tudo quanto é necessário à vida, assim como as mais variadas distrações para o espírito”, lê-se no número 1 da “Ilustração Nacional” que a 1 de junho de 1919 se apresentou ao público como uma “revista mensal de Literatura e Arte com informação ilustrada e correio noticioso entre Portugal e Brasil”.

Utilitária, a nova revista elaborou um guia de “casas recomendadas” que incluía chapelarias, barbearias, dentistas, bancos, picheleiros, hotéis e restaurantes – entre outras atividades – onde não poderiam faltar as moradas e nomes dos 14 banheiros que então operavam na praia, assegurando a sombra, o conforto, e o banho seguro dos veraneantes, bem como informação sobre o estabelecimento que alugava ou vendia guarda-sóis. A revista também incluiu os endereços e nomes de três balneários com banhos quentes para quem se dava mal com as águas frias do Atlântico. Os banhos quentes mais não eram do que a talassoterapia ‘avant la lettre’, utilizando potentes duches de jato ou banhos de tina com água vinda diretamente do mar, que podiam ser tomados no Balneário Póvoense, Casa Lusitania ou Casa Oceania.

FOTOMuseu Municipal da Póvoa de Varzim

Nesse clima de rescaldo do fim da I Guerra Mundial – onde morreram cerca de oito mil soldados portugueses – a “Ilustração Nacional” escolheu um cliché de Avelino de Barros [cliché era o nome utilizado para fotografia na época], onde mostrava a praia da Póvoa com as suas fileiras de barracas perpendiculares ao mar: “As horas, à beira do mar, durante o dia, passeando na avenida ou descansando debaixo dos toldos, passam maravilhosas; as noite, pelos cafés e concertos gratuitos, decorrem numa delícia”, fazendo esquecer as agruras de um verão marcado por uma greve ferroviária que se prolongou até final de setembro, perturbando a vida de muitos dos que se deslocavam a banhos. Recorde-se que o comboio era um transporte muito utilizado na deslocação das famílias para as longas temporadas que passavam na praia.

IMAGEM“Ilustração Nacional”, n.º1 / Museu Municipal da Póvoa do Varzim

A Póvoa foi uma das duas dezenas de praias mencionadas por Ramalho Ortigão no divertido e acutilante guia “As Praias de Portugal” que este jornalista e escritor publicou em 1876, referindo que “nenhuma outra praia” da dúzia que destacou na sua obra, tinha “tão variada concorrência”. Aqui havia lugar para a elite industrial de Guimarães, Fafe, Santo Tirso e Vila Nova de Famalicão, as famílias dos doutores do Minho e Trás-os-Montes, as divertidas famílias galegas com mulheres de olhos lânguidos e modos mais descontraídos do que as portuguesas. Em setembro chegavam as famílias dos lavradores com algo de seu, mas os homens só vinham depois das colheitas e das vindimas. Esta gente pudica no traje de banho gozava o lazer e os ares da grande estância balnear para convívio e distração. Como o mar fazia bem à saúde física e aos nervos, outubro era o mês dos “ceboleiros” — o povo dos campos, bem menos preocupado com o recato do corpo do que as elites dos meses anteriores.

FOTOMuseu Municipal da Póvoa de Varzim

A prova de que o guia de Ramalho teve impacto positivo na transformação da Póvoa numa grande e prestigiada estância balnear do início do século XX foi que, em 1914, Cândido Landolt chamou para título de um seu artigo a expressão “caravansará” que Ramalho utilizara para retratar a soberba praia do Norte, frequentada por “habitantes do Minho em uso de banho ou de ar do mar”. Nesse texto intitulado “O mais lindo caravançará do Norte de Verão”, Landolt não resistiu à tentação de afirmar o seu orgulho poveiro e reagir contra Ramalho Ortigão, proclamando ao mundo que já não eram “os enfezados, nem os raquíticos, nem os escrofulosos, nem os reumáticos, nem os faltos de forças, nem as pessoas nervosas que precisam abeirar-se do oceano pelo Verão e pelo Outono”.

FOTOMuseu Municipal da Póvoa de Varzim
FOTOMuseu Municipal da Póvoa de Varzim
FOTOMuseu Municipal da Póvoa de Varzim
FOTOMuseu Municipal da Póvoa de Varzim
FOTOMuseu Municipal da Póvoa de Varzim

O que Landolt esqueceu na sua condição de poveiro beliscado no orgulho, foram os elogios de Ramalho às caraterísticas físicas da população local, e a importância que este relevante autor da língua portuguesa dava aos banhos hidroterápicos e ao ar do mar na recuperação da saúde, relatando, nomeadamente, o caso da sua própria filha.

Voltando ao verão de 1919, e à praia que tinha festivais noturnos, música nos jardins às quintas-feiras e domingos, concertos permanentes no luxuoso Café Chinez, teatro, velódromo e inesquecíveis bailes na Assembleia Povoense, lembramos que o guia da Sociedade Portuguesa de Propaganda recomendava nada menos do que seis hotéis e quatro hospedarias, para não falar nas casas alugadas à temporada. Era o esplendor do verão na terra onde nasceu Eça de Queiroz.

Cap. IIGranja

Formosa, sumptuosa e luxuosa

O atento e empenhado jornalista e escritor Ramalho Ortigão não poderia adivinhar que a bela praia da Granja – distinto local de veraneio da elite do Norte – haveria de ser escolhido para a fundação do Partido Progressista, poucos meses depois da Livraria Universal do Porto, propriedade da Magalhães & Moniz Editores, ter dado à estampa o guia “As Praias de Portugal” de sua autoria, reeditado em 2014 pela Quetzal Editores. O Pacto da Granja foi firmado a 7 de setembro de 1876, na estação balnear que lhe deu o nome, entre os dirigentes do Partido Histórico e do Partido Reformista, que depositaram em Anselmo Braamcamp a liderança do novo partido que se extinguiu com a Implantação da República. Ao longo deste trabalho veremos como política e banhos se cruzam mais do que uma vez…

FOTOColecção da família Maria Amélia Ribeiro

Se no final do século XIX, o amigo e professor de Eça descrevia a Granja como “uma povoação diamante, uma estação bijou, uma praia de algibeira”, quatro décadas e uma mudança de regime depois, o guia publicado pela Sociedade Portuguesa de Propaganda refere-a como “um trecho da Suissa destacado para o litoral português, povoado de chalets, qual deles mais pitoresco e interessante, cheia de frondosas matas de resinosos e aromaticos pinheiraes, situada entre jardins e canteiros de viçosas plantas floridas, com um aspecto geral de suntuosa vila inglesa, socegada e tranquila, muito diversamente do aspecto que apresentam as outras praias do nosso litoral”. Se o atento leitor está a pensar que acabámos de cometer uma série de graves erros ortográficos, descanse, que não são lapsos nem gralhas. Optámos simplesmente por manter a grafia da época - nesta e noutras transcrições - mostrando que a escrita mais não é do que uma convenção acordada, e que a língua é dinâmica.

FOTOColecção da família Maria Amélia Ribeiro

Nesta praia “límpida, aberta, clara e de uma grande extensão (...) que bem pode chamar-se de luxo, só ali vão fazer a estação balnear as famílias de certos haveres do Porto e de Lisboa”; alguns deles são proprietários dos requintados chalets onde prevalece a “nota do estrangeirismo, quando é certo que no nosso estilo próprio, na velha e tão comoda e carateristica casa portuguesa, tão lindas coisas se poderiam fazer”, lembrava o guia de 1918. A publicação elogia o serviço do Grande Hotel, então dirigido pelo ex-jornalista Jaime Bramão, e a “Assembleia da Granja, excelente ponto de reunião e centro de diversões”.

Tinham passado 40 anos desde que Ramalho enaltecera o charme da Granja, escrevendo que “ao chegar tem a gente vontade de a examinar ao microscópio; ao partir apetece levá-la, entre as camisas, como um sachet”; a estância balnear manteve-se fiel ao projeto do médico José Frutuoso Ayres, proprietário da quinta a partir da qual se desenvolveu.

FOTOColecção da família Maria Amélia Ribeiro
FOTOColecção da família Maria Amélia Ribeiro

Na primeira foto que em cima apresentamos, de 1925 está o estudante de Medicina Baltazar Ribeiro (o jovem de gravata), que viria a ser médico na Granja. Baltazar era irmão da deslumbrante Maria Amélia (sentada de vestido curto preto na foto do grupo junto ao barco), que haveria de casar com o janota de gravata, Teófilo (Macedo) de sua graça por ser afilhado de Teófilo Braga, o nosso segundo Presidente da República. E foi na Granja que Sophia de Mello Breyner passou as férias de infância, gravando o encanto dessas memórias em muito do que escreveu.

Curiosa é a polémica que estala em 1927 e que envolve esta estância balnear no espaço que o já desaparecido diário “Comércio do Porto” reservava às cartas dos leitores. No dia 27 de setembro, alguém que se assina Felix de Arcozello responde à leitora D. Tareca que dias antes publicara uma carta em que afirmava “a Granja está moribunda”. Indignado, Felix de Arcozello, afirmava que a “Granja mantém ainda as suas tradições de elegância” e adianta que a praia “voltará a ser a Granja antiga, pacata e aristocrática”, logo que seja construído um novo hotel. Felix sugere que D. Tareca tem uma identidade duvidosa e acusa-a de torcer por Vila do Conde. Desta rivalidade entre praias vizinhas do Porto, dá-nos notícia a monografia “A Granja de Todos os Tempos”, publicada em 1973, da autoria do engenheiro António Paes de Sande e Castro, homem que se apaixonou pela estância ‘bijou’.

Mulheres à beira-mar

Confundido os seus cabelos com os cabelos
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e
tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu
branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longa-
mente a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de ser tão verde.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cap. IIIEspinho

Afamada e concorrida

As rivalidades entre terras vizinhas são conhecidas e Ramalho Ortigão descreveu com muito humor os despiques que existiam entre os veraneantes que frequentavam Espinho e os que preferiam a Granja – duas estações balneares servidas pelo comboio e separadas por meia dúzia de quilómetros. O relato de Ramalho apresenta-nos Espinho como a praia “mais estimada por aqueles que a frequentam. Os banhistas de Espinho tomam-se todos por este sítio de uma espécie de exaltação patriótica, exclusiva e intransigente. Não admitem o paralelo da sua praia com qualquer outra, e consideram os que tomam banho noutras regiões do globo como adversários, quase como inimigos. Por mais de uma vez encontrei no caminho-de-ferro do Porto, dentro do mesmo compartimento, uma família de Espinho e uma da Granja, e fiz então uma ideia do aspecto que deviam ter, postas cara a cara, a família Cappuletti e a família Montecchi. Os homens não se encaram. As senhoras não se examinam senão com um olhar oblíquo e de baixo para cima, desde o bico do pé ao contorno do ombro. As próprias crianças de Espinho voltam as costas às crianças da Granja e, se estas lhes falam, metem o dedo no nariz (...)”, escreveu Ramalho no guia que publicou em 1876.

Quatro décadas mais tarde – e de acordo com as informações do guia de 1918 – Espinho era uma estância cosmopolita, “iluminada a luz elétrica”, estando “ligada ao Porto pelo telefone da rede geral desta cidade”, o que a transformava numa das praias “mais afamadas e concorridas de todo o Norte do país, sendo considerada de primeira ordem”. Tinha também “muitos edifícios elegantes e confortáveis, bons hotéis, teatros, cinematógrafos, casinos, cafés (alguns luxuosíssimos)”, de acordo com a publicação da Sociedade Propaganda de Portugal.

FOTOColecção Carlos Morais Gaio / Museu Municipal de Espinho

Uma publicação do Museu Municipal de Espinho, da autoria de Armando Barge, fala-nos da importância da “praia lúdica”. Para além de muitos portugueses das várias Beiras, “em finais de junho e durante todo o mês de julho chegavam à praia os turistas espanhóis e nela permaneciam até finais de agosto. O início da ligação ferroviária entre Portugal e Espanha fez aumentar a procura turística entre os cidadãos dos dois países e ligou Portugal ao resto da Europa. A abertura do ramal de Cáceres e o início da linha direta entre Lisboa e Madrid intensificaram o “turismo coletivo” entre as duas nações. Cidades como Salamanca, Cáceres, Medina del Campo, Badajoz, Cidade Real, Madrid, Plasencia, Toledo e Sevilha ficaram mais próximas das praias portuguesas. Muitas vezes a imprensa questionava-se se estava no «coração da Espanha» ou na «estância balnear de que Portugal se orgulhava». Em todos os locais de Espinho quase só se ouvia falar espanhol: na praia, nas lojas, cafés, praças e ruas, tudo «arranhava» castelhano. Da colónia espanhola faziam parte não só as mais distintas e nobres famílias, como também a pequena e média burguesia e os lavradores abastados”, informa o texto de Armando Barge.

Os meses ditavam a estratificação social. As famílias mais abastadas – portuguesas e espanholas – frequentavam a estância nos meses de julho, agosto e setembro, privilegiando o banho matinal, o ar do mar e fruindo a diversão que incluía a frequência dos salões da Assembleia Recreativa, onde “não faltavam as ‘soirées’ e os ‘cotillons'”. Feitas as colheitas e as vindimas, outubro era o mês da população rural [existia uma escala de estratificação entre remediados confortáveis que eram proprietários e remediados que não eram proprietários], que precisava de respirar o ar do mar e tomar banhos para se preparar para o duro inverno que se aproximava, apesar de nessa época não existir o direito a 30 dias férias pagas [surge depois da II Guerra Mundial].

FOTOColecção Carlos Morais Gaio / Museu Municipal de Espinho

As viagens eram longas e difíceis e as famílias deslocavam-se com muita bagagem que incluía tachos, pratos, talheres, lençóis e atoalhados para quem alugava casa para a temporada. Havia sempre quem – conforme a bolsa – preferisse o hotel ou a pensão. O guia de 1918 assinala a existência de oito hotéis nesse ano, dizendo ainda que o Hotel Bragança era o “mais antigo da praia”.

Ninguém ia a banhos para se bronzear; a pele queimada era sinal de duro trabalho braçal: “O chamado banho de sol, para além de ser considerado prejudicial ao corpo humano, era visto pela burguesia como um fator de ociosidade e decadência de costumes. Em contrapartida, o banho frio significava austeridade e disciplina”, lembra Armando Barge.

Muito poucos sabiam nadar e “a figura do banheiro era uma garantia de segurança para os veraneantes que se deslocavam para as estâncias balneares. Os vilegiaturistas contratavam com os banheiros um número determinado de banhos, trabalho árduo se tivermos em conta que num só dia um banheiro podia dar mais de duzentos banhos. A capitania do Porto de Aveiro ordenava a matrícula dos banheiros, sendo-lhes exigido aptidões de natação e o pagamento de uma licença”, escreveu Armando Barge.

FOTOColecção Carlos Morais Gaio / Museu Municipal de Espinho

As barracas de madeira eram utilizadas para os banhistas mudarem de roupa. “Não se podia conceber uma praia de qualidade sem a organização do seu espaço com a montagem e aluguer de barracas e toldos, serviço bem desempenhado pelos banheiros de Espinho, os quais, na opinião de um cronista espanhol, podiam competir com os melhores da Península Ibérica”. Oriundos de famílias de pescadores e devido aos serviços humanitários prestados no salvamento de pessoas em risco de afogamento, “muitos banheiros foram condecorados por mérito, filantropia e generosidade”, escreve Barge.

Para além de garantirem a segurança do banho de mar, os banheiros faziam pequenos serviços que incluía o transporte de malas, por exemplo. Esta realidade é comum a todas as praias no final do século XIX e primeiras décadas do século XX.

Cap. IVFigueira da Foz

A Biarritz Portuguesa

No final da I Guerra Mundial, a propaganda – termo então em voga para a atual publicidade – apresentava a Figueira da Foz como a praia mais próxima de Madrid, muito frequentada por espanhóis e considerada “uma das maiores e principais da península”.

A inauguração do último troço da Linha da Beira Alta, em 1882, foi decisiva para assegurar a ligação ferroviária ao país vizinho e facilitar a morosa ligação a Coimbra, que em 1876 – ano em que Ramalho Ortigão publicou “As Praias de Portugal” – era assegurada por uma pitoresca e incómoda carreira diária da diligência. “Quer o viajante chegue a Coimbra às 3 e meia horas da tarde, quer chegue às 4 horas da manhã, tem de esperar até às 6 horas da manhã ou até às 2 e meia da tarde para poder seguir viagem para a Figueira na diligência que gasta seis horas” para percorrer os 45 quilómetros que separam as duas cidades, e cobra “1$000 réis por cada lugar”.

Ramalho não gostava de Coimbra, ou pelo menos não gostava de boa parte da sua população, e reflete isso na crónica que fez sobre a vizinha estância balnear. “O viajante sente ao entrar na Figueira, no tempo dos banhos, uma impressão semelhante à que se experimenta penetrando nos gerais da Universidade em dia lectivo. É a impressão do lente, do pedagogo, da aula. Tem-se uma espécie de terror mesclado de tédio. Há uma atmosfera especial de pedanteria, de vigor e de troça. Aspira-se vagamente o cheiro dos sapatos e das velhas batinas gordurosas na aula quente e fechada”.

Irónico e mordaz, o autor que escreveu “As Farpas”, em co-autoria com Eça de Queirós, gasta metade da crónica a discorrer sobre o “chinfrim e maneiras esbandalhadas” das gentes de Coimbra, para concluir que a “Figueira participa do caráter que tem Coimbra, um pouco para pior, porque os estudantes que frequentam a Figueira são ordinariamente os piores, os mais broncos, os que não saem de Coimbra (...)”.

A única certeza que temos é que os espanhóis ignoraram o sarcástico arraso de Ramalho, porque a Figueira era uma estância balnear com condições ímpares. A construção do chamado Bairro Novo na zona oeste da povoação, criado no final do século XIX para servir a elite cosmopolita que vinha a banhos, foi decisiva para cimentar a fama da boa qualidade da praia.

Em 1918, o guia da Sociedade Propaganda de Portugal informava que “nos meses de verão, de junho a setembro, e mesmo em outubro ainda, a animação que apresenta é deveras empolgante. As suas ruas, as avenidas da beira-mar e os terraços dos seus cafés e casinos” fazem lembrar os “boulevards franceses ao cair da tarde”. Os banhistas tinham uma vida intensa, passando as manhãs nas praias, as “tardes nos concertos e as noites nas diversas representações e bailes dos casinos” – como o Grande Casino Peninsular, “um dos mais amplos do país e mesmo da península”, o Casino Mondego, mais modesto, o Casino Espanhol, que como o nome indica era mais frequentado por espanhóis, e o Casino Oceano.

Cafés, teatros, o Coliseu cuja arena acolhia espetáculos de toureio e garraiadas dos estudantes de Coimbra, contribuíam para a animação bem como passeios pelos arredores, piqueniques e burricadas. Ninguém era esquecido naquilo que então se consideravam diversões, havendo o Tennis Club para os amantes da modalidade e casas de tolerância [casas de alterne] para os veraneantes do sexo masculino, que às mulheres era imposto o devido recato.

Uma publicação do museu local lembra-nos que no final do século XIX esta extensa praia – com mar mais calmo que as anteriores – chegou a ser conhecida como a Biarritz Portuguesa. Humberto Lima, que ali levava os quatros filhos a banhos na década de 30 do século passado, pagava “mil ondas” ao banheiro para assegurar a segurança das crianças.

À semelhança do que acontecia na Póvoa de Varzim e em Espinho, a origem social dos banhistas mudava ao longo da estação balnear. Julho era o mês escolhido pela população dos arredores da Figueira, agosto e setembro por escritores, políticos, e pelas famílias abastadas de Coimbra, Lisboa, Viseu e outras zonas do interior, bem como pelas espanholas. Os chamados ‘banhistas de alforje’ vinham em outubro e nas primeiras semanas de novembro, depois de terminarem as colheitas nas Beiras ou no Alto Alentejo, consoante a zona geográfica a que pertenciam.

FOTOArquivo fotográfico Municipal da Figueira da Foz

Mais do que o sol e a areia, o que contava era a saúde que o ar do mar garantia. Se estivesse muito frio, os Banhos do Paúl, “propriedade do médico Pereira das Neves”, ofereciam “banhos quentes de imersão, salgados, sulfurosos, alcalinos, arsenicais, gelatinoses, duches frios, quentes e ‘escosseza’, de crivo ou de colar”, como recorda a informação sobre o tema do Museu Municipal da Figueira. Um bálsamo para quem não gostava de areia ou das águas batidas do oceano que faziam gelar os artelhos.

Cap. VNazaré

A praia dos milagres

A praia onde agora surfam os melhores do mundo era a preferida pelos ribatejanos de vários estratos sociais: primeiro vinham os ‘senhoritos’, ou seja as famílias com posses – grandes proprietários, comerciantes, e gente com estudos – enquanto que os que trabalhavam a terra, os ‘palecos’ como eram designados pelos locais, chegavam no outono, feitas as colheitas e vindimas. Setembro era o mês preferido pelos ‘senhoritos’ – termo local para definir os banhistas com melhor apresentação – talvez por coincidir com as festas da terra. “A concorrencia à praia da Nazaret, sobretudo no mês de setembro, costuma ser enorme, chegando, por vezes, a armarem-se 500 barracas em todo aquele espaçoso areal”, informa o guia “As Nossas Praias” publicado pela Sociedade Propaganda de Portugal, em 1918.

Além de ser considerada uma das “boas praias do país” era “a que maior número de agrupamentos de barracos de banhos possue, contando-se por dezenas o numero dos seus banheiros” refere o citado guia. O banheiro tinha a nobre função de garantir a segurança de banhistas que raramente sabiam nadar. Muitos deles eram pescadores que tinham este biscate durante a época balnear, cujos serviços eram utilizados por ‘senhoritos’ e ‘palecos’.

FOTOÁlvaro Laborinho - Colecção Museu Dr. Joaquim Manso / DRCC

"Após a alvorada, durante o mês de setembro, a praia da Nazaré enchia-se de “palecos” de colete, chapéu preto, em combinação ou pijama, com calças arregaçadas e saias levantadas, agarrados a um banheiro-pescador, que lhes “dava banho”, olhando pela sua segurança no mar. Molhando-se apenas até à cintura ou rolando na força das ondas carregadas de areia, para alguns a “hora do banho” era um mero divertimento, para outros “era uma autêntica peregrinação porque lhes era dada a oportunidade de exporem os seus corpos com os seus males aos 'milagres' da água salgada”, escreveu Armando Salles Macatrão, na obra “Expressões da Nazareth”.

A expressão ‘palecos’ surgiu para designar os camponeses que, após as vindimas, vinham com trouxas e cestos de palha passar férias à Nazaré. Com o passar do tempo, os locais, por graça, ainda podem chamar ‘palecos’ aos que nasceram fora da Nazaré. A história desta praia está associada à ideia do milagre que salvou D. Fuas Roupinho da morte certa a 14 de setembro de 1182. Ramalho Ortigão recupera-o em “As Praias de Portugal” e relata a cura de uma religiosa a 27 de setembro de 1611, embora admitisse que, no século XIX, a ciência considerasse que a mulher padecia de uma crise histérica.

A ideia de milagre atravessou séculos, bem como a devoção à Virgem da Nazaré. Em 1918, o já citado guia refere as “deslumbrantes festas desde 8 a 15 de setembro, quando a época balnear se encontra no seu auge, festas que costumam atrair alguns milhares de forasteiros”. Certo é que o mar e a fé marcaram a vida da população da Nazaré.

FOTOÁlvaro Laborinho - Colecção Museu Dr. Joaquim Manso / DRCC
FOTOÁlvaro Laborinho - Colecção Museu Dr. Joaquim Manso / DRCC
FOTOÁlvaro Laborinho - Colecção Museu Dr. Joaquim Manso / DRCC
FOTOÁlvaro Laborinho - Colecção Museu Dr. Joaquim Manso / DRCC
FOTOÁlvaro Laborinho - Colecção Museu Dr. Joaquim Manso / DRCC

Numa espécie de crença que pode prevenir o destino, as mulheres aguardavam na praia o regresso dos homens que tinham partido para a pesca, fosse verão ou fosse inverno. O uso de muitas saias vem da necessidade de abrigo e proteção do frio, sendo que a que ficava por cima, a última a ser vestida, era muitas vezes levantada para abrigar ombros e cabeça.

A intensidade desta espera sofrida talvez tenha contribuído para a realização de dois dos filmes de Leitão de Barros: “Nazaré, Praia de Pescadores”, em 1919, e “Maria do Mar” no ano seguinte. Um século passado sobre a publicação do guia da Sociedade Propaganda de Portugal já não existe o Hotel Central da viúva Costa, mas a Nazaré continua a ser hospitaleira, para quem ali vai ver as ondas.

Cap. VIPraia das Maçãs

A praia do elétrico e do atentado

Nesta nossa ‘viagem’ de Norte para Sul pelas estâncias balneares dos nossos antepassados, a Praia das Maçãs é a primeira que Ramalho Ortigão não referiu em 1876, mas mereceu menção no guia que a Sociedade Propaganda de Portugal publicou 38 anos depois.

A inauguração do elétrico que ligava Sintra à praia em 1905 [em 1904 foi inaugurado o troço Sintra-Colares], a construção do Hotel Royal Belle-Vue em 1908, do premiado arquiteto Miguel Ventura Terra, e um atentado abortado contra o primeiro-ministro Afonso Costa em outubro de 1913, deram visibilidade ao local escolhido pelo autor da música do Hino Nacional para construir uma residência de verão para a sua família.

FOTOCâmara Municipal de Sintra / Arquivo Municipal

A casa que Alfredo Keil mandou construir ainda existe, e foi uma das primeiras a abrilhantar a Vila Nova da Praia das Maçãs, complementando assim os planos do empresário Eugénio Levy para esta estância balnear, que já tinha uma ligação rápida e quase direta a Lisboa.

A inauguração do curioso elétrico tem sido celebrada nos dois últimos verões num espetáculo da companhia de teatro Éter, dirigida por Filomena Oliveira, na Casa do Elétrico, em Sintra. A peça apresenta-nos Keil, Eça e Bulhão Pato numa divertida ficção que inclui figuras da agricultura saloia e o célebre (vinho) Ramisco de Colares. Uma das funções do elétrico era assegurar a viagem das pipas e tonéis do vinho produzido nas areias de Colares - com o seu inconfundível e apreciado travo acre - das adegas Visconde Salreu e regional de Colares até à sede de concelho.

O guia de 1918 explica-nos que a praia deve o seu nome ao facto de “ter ali a sua foz o ribeiro das Maçãs”, e lembra que “já existiu, em lugar sobremodo pitoresco, sobre um rochedo enorme, mesmo à beira mar, um magnífico hotel. Era, porém, cedo demais para se manter, e teve de fechar a breve trecho, visto que a concorrência de hospedes não era a suficiente para cobrir as respectivas despesas de exploração” [do Hotel Belle-Vue].

Nesse ano em que os portugueses contavam os mortos e perdas da participação nacional na Grande Guerra, os banhistas “estacionavam pelos hotéis de Cintra e Colares, fazendo todos os dias o seu passeio matutino [de elétrico] para irem tomar o seu banho e virem depois almoçar com redobrado apetite”.

FOTOCâmara Municipal de Sintra / Arquivo Municipal

A praia tinha “dois agrupamentos de barracas para banhos, o de Afonso Lopes e o de João Cláudio; na freguezia há médico permanente e nada menos de três farmacias”, informa o guia de 1918, destacando também os seguintes locais de refeição: “Bijou da Praia, de Rafael Sarnadas; Restaurante Camarão, de J. Camarão (...) e o Restaurante da Varzea, de Bernardino Pinheiro”.

O edifício onde funcionou o hotel Hotel Royal Belle-Vue sofreu um incêndio em 1921. A bomba de picota que os bombeiros possuíam foi transportada numa vagoneta atrelada ao elétrico, que também levou os homens, “num tempo considerado recorde – 25 minutos” [cf.obras completas de José Alfredo da Costa Azevedo], mas só se salvaram as paredes.

Cap. VIIEstoril

Praia chic, graciosa e atraente

“Os diversos Estoris” formavam no “seu conjunto, e pondo de parte as suas divisões meramente administrativas, como que um grande jardim, recheado de explendidas vivendas, verdadeiros palacios, casinos e hoteis magnificos, rivalizando com o que de melhor se encontra nas grandes praias do estrangeiro, achando-se canalizada para todas essas habitações e hoteis a explendida agua de Val de Cavalos”. Um verdadeiro luxo, porque, em 1918, ter água encanada em casa, era um sinal de bem-estar e um privilégio a que poucos tinham acesso.

O guia da Sociedade Propaganda de Portugal arrisca vaticinar o futuro desta praia de clima ameno, águas tranquilas: “Dentro de alguns anos, o Estoril ou mais propriamente os Estoris achar-se-hão completamente transformados, graças à iniciativa inteligente e arrojada de uma empresa que não se poupará a despesas e a esforços para realizar ali uma obra grandiosa sob todos os aspectos, o que virá exercer uma influencia enorme, pode mesmo dizer-se que decisiva, sobre a industria do turismo entre nós, com as consequentes vantagens, sobretudo economicas, que dessa industria em toda a parte resultam”.

FOTOArquivo Histórico Municipal de Cascais

A Grande Guerra talvez tenha atrasado o ambicioso plano de Fausto de Figueiredo para o Estoril. Mas não foi suficiente para o travar e a brutal inflação desses anos não impediu a “colocação solene da primeira pedra do casino e das novas termas do Estoril, obra da responsabilidade da Societé des Travaux Publiques et Privés de Paris, sob a direcção técnica do arquitecto Henri Martinet, na presença dos chefes de Estado e do Governo e de alguns ministros”, no dia 16 de janeiro de 1916, quando toda a Europa vivia dias sangrentos e a Alemanha estava prestes a declarar guerra ao nosso país.

Os trabalhos foram interrompidos nove dias depois, informa a brochura “O Estoril e as Origens do Turismo em Portugal”, editada pela Câmara Municipal de Cascais. “A súbita interrupção dos trabalhos origina motins, face ao elevado número de trabalhadores dispensados, que incluiu o despedimento dos arquitetos estrangeiros”.

Terminado o conflito, o guia da Sociedade Propaganda de Portugal, refere as praias dos “diversos Estoris” – S. João, Santo António e Monte – como sendo comuns e “muito bem sortidas de barracas para os banhistas, sendo digna de vêr-se a animação de todas elas, principalmente da parte da manhã, quando a concorrência é deveras extraordinária em todas elas”.

FOTOArquivo Histórico Municipal de Cascais

Enquanto Ramalho Ortigão aconselhava os lisboetas a madrugarem para se deslumbrarem com a beleza da viagem de vapor que os poderia levar até Cascais – praia tão apreciada pela família real – o guia de 1918 apresentava o Monte Estoril como povoação “bem delineada e bem cuidada”, onde não faltam “instituições de recreio e diversões - Club Internacional e o Casino Português”. Quem ali se quisesse hospedar poderia escolher entre o Grande Hotel Mont’Estoril, o Grande Hotel de Italie, o Hotel de Paris e o Hotel Miramar, ou o Hotel Savoie em S. João do Estoril.

A inauguração do primeiro troço da linha ferroviária em 1889 facilitou o acesso aos ‘Estoris’ e a todas as outras praias da Costa do Sol. De registar que esta linha ferroviária foi a primeira a ser eletrificada, em 1926, dois anos antes de ser inaugurada a estação Cais do Sodré, com projeto de Pardal Monteiro.

FOTOArquivo Histórico Municipal de Cascais

Além do ar e dos banhos do mar, os ‘Estoris’ tinham excelentes estâncias termais para oferecer aos banhistas: Estoril e Banhos da Poça.

A década de 20 do século passado foi decisiva para consolidar o projeto de desenvolvimento da zona, culminando com a inauguração do Palace Hotel em agosto de 1930.

No mês seguinte, o Estoril passaria a ter uma ligação direta de comboio a Paris, já que a gare ferroviária local passou a ser a estação terminal do comboio Sud-Expresso. Nascia assim o “Estoril moderno, chic, grandioso, atraente”, que o guia da Sociedade Propaganda de Portugal vaticinara anos antes. O progresso e a internacionalização marcariam os anos seguintes, caracterizados pela frequência de visitantes de hábitos modernos e arrojados que incluíam a prática de surf e outros desportos.

FOTOArquivo Histórico Municipal de Cascais

Anos mais tarde, a II Guerra Mundial, transformaria o Estoril numa zona segura para algumas cabeças coroadas e judeus em fuga de uma Europa assombrada pelo terror.

Cap. VIIISines

Terra de Vasco da Gama

Ao contrário do Estoril – e das outras praias que ‘visitámos’ até aqui – Sines era mal servida de transportes. A baía de águas límpidas e tranquilas, onde as crianças podiam tomar banho sem auxílio do banheiro, era frequentada por pessoas do Alto Alentejo. Há cem anos, a estação de comboio mais próxima ficava no Poceirão a 105 quilómetros de distância, o que demovia qualquer veraneante oriundo do Norte do rio Tejo de fazer uma incursão à bela Sines onde nasceu Vasco da Gama.

A hotelaria oferecia serviço de qualidade “regular”, mas estava longe de ser de “primeira ordem”, como nos informa o guia da Sociedade Propaganda Portugal que, na costa alentejana, só referiu duas praias, dando, no entanto, grande destaque a Sines por ali existir uma ermida fundada ou reconstruída por Vasco da Gama, e ter sido o porto de partida para o exílio de D. Miguel, em 1834.

Quatro décadas antes, quando Ramalho Ortigão publicou “As Praias Portugal”, as estâncias a Sul do Tejo nem sequer foram referidas, atestando a existência de um país a duas velocidades de desenvolvimento e povoamento.

FOTOArquivo Municipal de Sines / Colecção Fotográfica

Sines foi também a terra onde nasceu – em 1859 – a escritora Cláudia de Campos, autora do "Ensaio de Psicologia Feminina", onde analisa Charlotte Brontë, Condessa de Lafayette, Baronesa de Staël, Josephin. Num texto publicado no único número da revista “India” - por ocasião do quarto centenário da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia por Vasco da Gama - Cláudia saiu em defesa do progresso da sua terra. “O que falta a Sines para vir a ser uma das primeiras estações balneares, é uma fácil e rapida communicação com as principais cidades do reino. Logo que os governos mandem construir, como tão urgente se torna, o projectado ramal do caminho de ferro até lá, e que S. Thiago de Cacem, cabeça de concelho, se digne, em troca das enormes que d’ella recebe e que absorve em seu exclusivo proveito, fazer, como lhe cumpre, a estrada para a praia e outros pequenos melhoramentos, Sines tem certo o seu futuro engrandecimento”, porque “como porto de mar, é superior a Cascaes, ao Espinho, à Ericeira, e a tantas outras villas maritimas de nomeada. É superior, tambem, como paizagem, ao Estoril, possuindo todos os elementos para se tornar um ponto escolhido, uma especie de Dieppe, de Arcachon, de Scarborough”.

Filha de uma família abastada, Cláudia “teve uma educação exigente num colégio inglês em Lisboa”, lê-se num trabalho publicado pelo Expresso em 2016, ano em que a Biblioteca Nacional evocou esta escritora.

FOTOColecção Rita Magalhães Barros

A banhista e as crianças na foto acima são familiares de Claúdia de Campos. A escritora teve uma filha aos 18 anos. “Anos mais tarde separou-se judicialmente do marido. É após essa separação que se dedica à publicação de obras literárias. A viver em Lisboa, priva com a mais alta sociedade da altura, frequenta a Academia de Ciências de Lisboa e os Salões Literários do Casino”.

“Elle”, uma das obras desta mulher arrojada, inovadora e feminista, gerou uma enorme polémica; o livro fala de locais e personagens que tudo têm a ver com os anos em que a autora viveu em Sines, ainda que lhes tenha atribuído nomes diferentes. No entanto, tudo indica que Luís Guedes foi inspirado no pai de Cláudia, Francisco António de Campos, que Cléo seja a própria Cláudia, e o Padre Mateus fosse o Padre Maia. “O dr. Macedo era, segundo o historiador Arnaldo Soledade, Francisco Luís Lopes, autor de "Breve Notícia de Sines" - de acordo com informação disponível no site da Câmara de Sines sobre esta mulher precursora.

Cap. IXPraia da Rocha

Onde o clima é mais doce

Desengane-se quem pensa que os turistas descobriram o reino dos Algarves na década de 60 do século passado. Há muito que os algarvios sabiam que o turismo era um filão que poderia contribuir para o desenvolvimento daquela província banhada pelo braço mais sereno do oceano Atlântico. Em 1914, a Câmara de Vila Real de Santo António sancionou em ata o aproveitamento nos meses de verão da escola primária de Monte Gordo para surpreendentes fins turísticos. E a verdade é que nem o mais ousado empreendedor local dos nossos dias se lembraria de reutilizar o edifício da escola como casino nos meses de verão, apesar de ter sido nessa pequena escola que o Casino Peninsular funcionou durante alguns anos, dando resposta às necessidades dos veraneantes algarvios, alentejanos e espanhóis, que frequentavam as areias locais.

FOTOMuseu de Portimão

Um ano depois, realizou-se o I Congresso Regional Algarvio, entre 3 e 7 de setembro, na Praia da Rocha, conhecida pela beleza natural e pelo clima ameno. A flor de amendoeira foi utilizada como símbolo gráfico do evento, que escolheu a revista regional “Alma Nova” para órgão oficial de divulgação deste importante encontro algarvio. O programa era extenso e variado, incluía uma exposição de produtos da região, campeonato de ténis, baile, concertos na Avenida e no Casino da Rocha. Na véspera do início dos trabalhos houve “regatas e festas no rio, iluminação e concerto musical”, lê-se num artigo alusivo à celebração do centenário publicado no jornal “Sul”.

A iniciativa contou com o apoio da Sociedade Propaganda de Portugal e foi presidida pelo escritor Tomás Cabreira, que contou com o apoio de personalidades da região como Pádua Franco (secretário-geral), Mateus Moreno, Cândido Marrecas, António Teixeira Bicker, Guerreiro Júnior, Julião Quintinha e António Magalhães Barros.

A título de curiosidade, recordamos que o juiz Alberto Magalhães Barros - irmão de António, o industrial conserveiro e agricultor que montou um “pavilhão mourisco” com produtos locais para abrilhantar o I Congresso de Turismo do Algarve – casou com Dilara Campos de Ornelas, filha do casamento da escritora feminista de Sines, Cláudia de Campos. com Joaquim de Ornelas; Dilara e o marido nunca viveram no Algarve e instalaram-se em Lisboa.

FOTOMuseu de Portimão

António Júdice Magalhães Barros, o cunhado de Dilara de Campos Ornelas, que vivia no Algarve, era um homem de gosto requintado. No início do século XX mandou construir um dos chalets mais elegantes da Praia da Rocha para residência de verão da sua família. Situada no topo da falésia, a bonita vila de N.ª Senhora das Dores foi inaugurada em 1918 na “então chamada Praia de Santa Catarina” que mais não é do que a atual Praia da Rocha. A morte precoce da mulher do industrial algarvio António Magalhães de Barros, em 1924, ditou o abandono da residência de praia da família. “Em 1934, Henrique Bívar de Vasconcelos, dono de uma pensão no centro de Portimão” arrendou o chalet, transformando-o em hotel. Os primeiros hóspedes do Hotel Bela Vista foram espanhóis abastados que fugiram da Guerra Civil que devastou o país vizinho (1936-1939), “entre os quais o clã Feu, industriais de conservas do Sul de Espanha que mais tarde se fixaram em Portimão. Em boa verdade, nos aposentos do hotel pernoitavam desde políticos republicanos até à realeza”, lê-se no blogue Turismo do Algarve. O hotel ainda existe, foi recuperado e é seguramente um dos mais antigos da zona.

FOTOMuseu de Portimão

A foto acima é muito posterior à primeira edição do guia publicado pela Sociedade Propaganda de Portugal em 1918, que selecionou seis praias do Algarve entre as 50 do território continental. E diz-nos que a Rocha poderia ter rivalizado com a Côte d’Azur se esta bela praia tivesse sido ligada a “Monchique por uma linha elétrica” – como estava previsto – e tivesse sido construída a então falada “avenida marginal, que, sobre as falesias, ha-de ir até Alvor, vila assaz pitoresca, situada sobre uma colina sobranceira ao Oceano”.

A obra terminava informando os leitores que “temos de tudo e do melhor que ha lá por fora". Ou não fosse a Sociedade Propaganda de Portugal – fundada a 28 de fevereiro de 1906 – uma organização privada destinada a promover “o desenvolvimento intelectual, moral e material do país e, principalmente, esforçar-se por que ele seja visitado e amado por nacionais e estrangeiros”.

A equipa do Expresso espera que tenha feito uma boa viagem ao tempo em que os nossos antepassados desconfiavam da exposição solar, mas apreciavam o embalo do ar do mar e o lazer nalgumas das mais belas e antigas praias de Portugal.

Créditos

Texto e pesquisaManuela Goucha Soares ImagensMuseu Municipal da Póvoa de Varzim, Coleção da família de Maria Amélia Ribeiro, Coleção Carlos Morais Gaio / Museu Municipal de Espinho, Arquivo Fotográfico Municipal da Figueira da Foz, Álvaro Laborinho. Col. Museu Dr. Joaquim Manso / DRCC, Câmara Municipal de Sintra / Arquivo Municipal, Arquivo Histórico Municipal de Cascais, Arquivo Municipal de Sines, coleção Rita Magalhães Barros, Museu de Portimão Web DesignJoão Melancia e Tiago Pereira Santos Web DeveloperMaria Romero Coordenação editorialJoana Beleza DireçãoJoão Vieira Pereira AgradecimentosAna Costa, Armando Barge, Carlos Osório, Deolinda Carneiro, Dóris Santos, Emília Limede, Filomena Oliveira, Gisela Gameiro, Isabel Aguiar Branco, Isabel Lousada, Isilda Lopes, Joana Gonçalves, Joana Lopes, Madalena Guerreiro, Maria Jordão, Manuela Fonseca, Pedro Branco, Rita Barros, Sandra Patrício e Sílvia Dias O poema "Mulheres à Beira-Mar" de Sophia de Mello Breyner Andresen foi publicado em"Antologia" editado pelo Círculo de Poesia Moraes Editores em 1975
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