Tour manager de António Zambujo, Tiago Cação pegou na bicicleta no passado verão para bater o recorde da nacional 2, ou seja 738 kms de Chaves a Faro em menos de 29 horas. Sob altas temperaturas e em grande esforço, esta podia ser uma simples história sobre pedais e licras, mas é sobre a vida, a morte, ideias obstinadas e até desgostos de amor

Texto Ana França Fotografia e vídeo Tiago Miranda

destino era o Hospital da Luz, em Lisboa. Naquele dia saiu de casa como saía sempre: uma mala de viagem na mão, os documentos mais importantes no bolso, já a ouvir música. O barulho dos rolamentos da mala no parquet da casa até à porta da rua traziam-lhe de volta algumas das melhores memórias da sua vida, mas naquele dia Tiago Cação não ia em direção ao aeroporto de Lisboa, não tinha bilhete para um dos muitos países que visitou mais do que uma vez nos últimos cinco anos para encontrar palcos onde António Zambujo pudesse brilhar. Hospital da Luz, era para lá que os olhos aterrorizados da sua médica o tinham mandado três dias antes. “Quando me disseram para levar mudas de roupa pensei que me iam cortar metade da língua e que ia ter de lá ficar a aprender a comer e a falar de novo.”

Andava há meses com uma ferida na língua que não sarava. Finalmente marcou uma consulta, não é fácil encaixar uma vida no calendário de um músico. “Abra a boca.” E Tiago esticou a língua à médica, que não disse nada durante um tempo. Depois também não. Tiago fechou a boca e ficou à espera. A angústia começava a crescer devagarinho, como a massa de um pão que se deixa a levedar. “Ela não disse nada, mas também não era preciso, bastava olhar para os olhos dela para um gajo ficar logo com a certeza de que o diagnóstico era o mais negro possível. Mandou-me imediatamente fazer uma biópsia.”

“Daqui a três semanas os resultados já devem estar prontos”, disse o médico que lhe cortou um pedaço de carne da língua para dentro de um frasco. Mais um profissional de saúde com expressão carregada. Mais do que um profissional de saúde com expressão carregada em menos de três dias nunca é bom sinal.

Durante todo o tempo em que teve a ferida, Tiago nunca disse a ninguém o que o desassossegava mas no fundo sabia, como toda a gente sabe, que não é normal uma ferida nunca cicatrizar. Finalmente decidiu contar à namorada e foi para a cama tentar esquecer aquele dia. Ao deitar-se, talvez entrasse na realidade em que queria estar e passasse a viver só aí. Os dias reais seriam os pesadelos e as horas a dormir seriam a vida a sério. Mas era impossível dormir. Foi impossível naquele dia, no dia a seguir e depois mais dois. “‘O que é que vou dizer à minha mãe? Como é que vou contar isto à minha mãe?’, só pensava nisto, no que dizer à minha mãe”, conta Tiago sentado à mesa de um restaurante de Marialva, uma das principais paragens da rota das aldeias históricas de Portugal, só mais uma das suas obsessões. Repete mais vezes a pergunta, como se estivesse a regressar ao seu quarto escuro em Sete Rios e à inútil posição horizontal das horas pequenas daquelas madrugadas. Como se ainda tivesse a pior das notícias para contar à mãe.

“A minha mãe é uma mulher que aos 55 anos decidiu emigrar para o Luxemburgo, deixar tudo. Como é que ia contar àquela mulher de força que isto tinha acontecido ao filho, depois de uma vida que já tinha sido tão dura? Como é que se conta uma coisa destas?”

Pensava nisto e não dormia. Era preciso maltratar o corpo.

Tiago Cação, road manager que quer bater o recorde de bicileta da estrada Nacional 2, em treinos na zona de Almeida

Tiago Cação nasceu em 1983, em Montemor-o-Novo de uma mulher cheia de força, cozinheira itinerante, invejada por todas as donas de casa dos arredores. “Os meus berços eram panelas grandes, cresci dentro de tachos.” Antes de abrirem o restaurante de família, a mãe fazia casamentos. “À quarta-feira ia para casa da noiva para começar a preparar tudo para as festas, que normalmente eram ao sábado. Nesses períodos as noivas contavam-lhe o que não contavam às mães, às irmãs, nunca aos maridos, e a minha mãe tornava-se a confidente delas, psicóloga itinerante também. Ao fim de uns anos tinha alguns 40 afilhados.”

Tiago foi fazendo o liceu sempre com um grande gosto pela leitura, pela música, pela fotografia. Quando chegou a altura de escolher um curso decidiu ir estudar para Coimbra e, “oficialmente”, é técnico de turismo. Mas o que queria mesmo fazer era tirar fotografias. Durante os tempos da faculdade foi construindo um portefólio que depois enviou para a Escola Superior de Fotografia de Nova Iorque. Ficou histérico quando foi aceite, mas era impossível pagar aquelas propinas. Conseguiu um pequeno empréstimo à educação, mas quando chegou a Nova Iorque reparou que aquela vida não era o que queria, que mesmo o dinheiro que trazia não daria nem para o primeiro trimestre e então partiu em viagem pela América do Sul.

Dois meses depois estava de volta ao restaurante da mãe, o mestre Zé, que transformou no seu próprio laboratório artístico. “Estávamos em plena crise, não tinha dinheiro para ir ver concertos, então comecei a tentar levar pessoas lá, primeiramente para que eu mesmo as pudesse ver. Levei lá muita gente, gente que hoje conhecemos bem, Luísa Sobral, por exemplo, Noiserv, Samuel Úria, JP Simões, mas também pessoas menos conhecidas, poetas que liam os seus poemas, fazia tertúlias, discussões políticas, criei até uma revista, a Pantagruélica, que chegou a ter gente a escrever do Vietname sobre comida e viagens.” A revista tinha como símbolo um choco, “por ser um animal que lança tinta”.

A vida de Tiago passaria sempre pelas artes. Um dia ouviu na rádio uma música de António Zambujo e teve a certeza de estar a ouvir um tesouro que dali a pouco seria nacional. Decidiu que tinha de o levar à Tocha. Naquele dia o músico estava em Beja e Tiago só tinha dinheiro para a gasolina de uma viagem de ida. Foi a Beja, convenceu Zambujo a ir tocar ao restaurante e, já de regresso, ali nos primeiros quilómetros antes de Lisboa, chamou a assistência e fingiu avaria. “Fui bater de porta em porta na Tocha a dizer às pessoas para irem ao restaurante que tinham mesmo de o ir ouvir. Encheu totalmente e ficou toda a gente maravilhada. Pouco depois começámos a trabalhar juntos.”

Pedalar, pedalar, pedalar

Sem conseguir dormir, à espera de um diagnóstico que carecia apenas de confirmação, Tiago começou a sofrer de tudo. O psicológico tomou o leme ao físico - e é sempre o caso, também nos momentos menos maus, como Tiago haveria de descobrir muito mais tarde. Dores de cabeça, visão turva, dores no corpo, letargia-relâmpago.

Ficava na cama de olhos abertos horas e horas, levantava-se, bebia água, bebia café, começava a tentar trabalhar, fazer contactos, marcar concertos, discutir orçamentos, responder às inúmeras solicitações de pessoas que queriam o seu artista a tocar perto delas, mas as letras misturavam-se no ecrã como se este fosse uma espécie de projetor para o rebuliço que ia dentro da sua cabeça.

Pensou em correr para ver se se cansava, mas foi proibido pelo médico dadas as oito cirurgias que tinha feito aos joelhos na juventude, quando jogava futebol todos os dias. Pensou então na bicicleta, que também cansa mas sem o impacto nos ossos que a corrida provoca. Pegou em José Miguel Conde, clarinetista de Zambujo, e foi até Chaves de autocarro, pensando fazer a Estrada Nacional número 2, a quimérica N2.

A 12 de fevereiro de 2018 começou a primeira tentativa de fazer a N2, mas nessa altura Tiago pouco sabia sobre ciclismo. Os dois amigos levavam as bicicletas carregadas de coisas, em duas bolsas laterais gigantes como aquelas que se amarram às grandes motas tipo Harley. Só que as bicicletas não têm um motor para carregar as mercadorias e a N2 não é sempre a direito.

Saíram de Chaves às 05h. Chegaram a Faro quase seis dias depois.

“Essa viagem foi espetacular, sem pressão nenhuma, parávamos em restaurantes perdidos no meio do nada, decidíamos onde dormir só quando estávamos cansados, sem qualquer planeamento”, conta Tiago. O ritmo foi traçado pela vontade de se cansar o mais possível e nisso nunca falhou: “Não pensei em nada, foi só andar, olhar com atenção para o nosso país, lindo mas morto, isolado, as pessoas como que parte de um país estrangeiro, escudadas pelas montanhas do rebuliço das cidades. Lembro-me de pensar que não era justo tanta beleza tão escondida das rotas turísticas”. Começou a ideia de se fazer fotografar próximo de pontos turísticos desconhecidos para a maioria dos portugueses e ainda mais para os estrangeiros que estão a chegar com cada vez mais frequência ao nosso país. “Em Lisboa e no Porto as pessoas queixam-se da quantidade de turistas e diz-se, erradamente, que Portugal está cheio de turistas, mas não é verdade. Vi aquelas zonas mortas, dentro do gelo de fevereiro, desertas, e fico feliz de estarmos agora a despertar para o interior.”

José Conde explica que “aquilo foi organizado em cima do joelho, dois dias antes ou assim”. “Na verdade estávamos no Cais do Sodré, bebemos umas cervejas e combinámos. Depois ninguém queria dar parte fraca e fomos. Foi uma forma de celebrar a vida por antecipação, fosse qual fosse a notícia que o Tiago poderia receber da médica.” Destaca, acima de todas as outras coisas que conseguiram com a viagem - “superação física”, “grande camaradagem”, “autoanálise”, “paz” -, o contacto com um Portugal “incrivelmente hospitaleiro de ponta a ponta”. Conde ficou impressionado. “Perto de Pedrógão Grande ficámos numa aldeia quase sem ninguém. Uma senhora velhinha, já com poucos dentes e com uma clareira cheia de cabras das quais ela cuidava sozinha no meio do nada, deixou-nos lá ficar.”

Mas também há a parte triste. “Passámos por zonas da N2 em que só havia placas a dizer ‘vende-se’, povoações inteiras à venda mas os portugueses são incríveis, de norte a sul, sempre a oferecer comida, sempre dispostos a falar. Muitas vezes a provação física chegava a limites que já não conseguimos aguentar, então parávamos numa tasca qualquer, aquelas que parecem garagens, e ficávamos a beber e a falar”, conta José Conde. Logo na primeira etapa, de Chaves a Vila Real, aconteceu um episódio assim. “Parámos para almoçar, prosseguimos para um whisky e fomos da mesa para a cama, mas isso também é totalmente parte da viagem, estar só a conhecer pessoas, pratos regionais, bebidas caseiras.”

O telemóvel de Tiago foi quase sempre em modo voo, só com as músicas já descarregadas para não precisarem de internet para tocar, ou então sem rede nas zonas mais isoladas. A chamada da médica com os resultados da biópsia bateu contra esse isolamento voluntário e, sem voicemail ativo, Tiago não ouviu a informação que talvez pudesse ser a resolução precoce do seu sofrimento. Continuou a pedalar e a sofrer com a certeza de que teria más notícias para dar à mãe mas, a partir de um determinado momento, que chegou sem anúncio, tudo se dissolveu em dor física. “A partir de um ponto deixas de pensar no que quer que seja, só queres fazer mais e mais quilómetros, pedalar, pedalar, pedalar, para poderes chegar à meta daquele dia e dormir, sair de cima da bicicleta passou a ser a minha única urgência, o meu único objetivo.” Aqueles pedais conseguiram o que nenhum soporífero tinha conseguido: pôr Tiago a dormir sem pensar que precisava de dormir. Dormir sem pensar no processo que é adormecer um corpo martirizado por uma tragédia que ainda pode ser. “A dor, o cansaço, a exaustão são maiores do que as preocupações, por muito sérias que sejam as preocupações”, descreve em retrospetiva.

Lisboa é uma pilha de prédios cinzentos quando Tiago regressa. Tem de ir à médica buscar os resultados. “Chego lá e ela só me diz: ‘Meta betadine nisso’ e manda-me embora”, conta Tiago a rir-se. Afinal não tinha uma notícia má para contar à mãe. Mete-se em digressão com a banda, está de regresso à vida que conhece, à vida leve. Quando uma pessoa descobre que afinal não está mal de saúde até parece que outros problemas vão embora junto com aquele que na verdade nunca existiu mas a nossa mente fez existir com a certeza que o medo normalmente confere às coisas que são só hipóteses.

Quando Tiago regressa da digressão de um mês encontra uma casa esvaziada da segunda presença que teve durante anos. “Ficou só um par de chinelos, só uma toalha, só uma escova de dentes, só um de cada coisa. Tudo em ‘individuais’”, diz Tiago para explicar que a sua namorada o tinha deixado. “A vida sempre na estrada tem destas coisas, conheço poucos que não tenham histórias com este tipo de finais tristes. Se houver garotos é mais fácil, assim nem tanto”, acrescenta. “É ser gestor de digressões deste tipo tem coisas maravilhosas mas tens de estar sempre em cima de todos os detalhes, todos os pormenores que podem correr mal e então deixas de estar lá para os amigos. Ser ‘tour manager’ é não estar tantas vezes nos jantares de amigos que eles deixam de te dizer quando há jantares; é não ter férias a sério, é falhar aos queridos”.

“Voltei a não conseguir dormir, parecia que estava a reviver tudo.” Já sabia o que tinha de fazer. Pegou na bicicleta e meteu-se à estrada. Desta vez conseguiu em três dias. Chega a Faro, atira-se para o chão e começa a chorar. Um senhor que ia a passar pergunta-lhe se é por ter conseguido. “É lá agora, homem, eu estou é a chorar porque ela me deixou.” Sem entender, o homem deixa Tiago em paz, deitado no quilómetro 738, nos paralelos do passeio onde termina a N2.

Ainda houve uma terceira vez, em outubro de 2018, mas Tiago diz que essa “só quer esquecer”. Fez a viagem com dois preparadores físicos e com Paulo Vaz Henriques, fotógrafo do primeiro-ministro, sob um calor muito pouco comum e que as previsões meteorológicas também não conseguiram prever. Perto de Mértola começou a cuspir sangue, não queria desistir, então mais sangue. Teve de parar.

O nascimento de “Máquina”

“‘Tás aí?”
“Sim, máquina?”
“Não te percas!”
“Não, máquina!”

Telmo deu a Tiago a sua parte do walkie-talkie e de lá veio de imediato o aviso: o percurso é para seguir como está no papel, que isto é treino a sério. A ideia é voltar a tentar fazer os 738 quilómetros de Chaves a Faro antes do fim do verão e Telmo tem de estar atento aos tempos, às inclinações do terreno, aos quilómetros percorridos por hora e numa hora. “Shalom”, diz-nos Telmo. E logo a seguir: “Salam Alaikum”. Ele explica: “É que estás com uma mala com uma fotografia de Telavive, em Israel, onde eu adorava ir. Só que nunca se pode saber só um lado das histórias, por isso aprendi um pouco de hebraico e um pouco de árabe”. Telmo Domingos tem 23 anos de vida e cinco de carreira militar. Foi ele que levou Tiago e o seu coração partido ao fim da N2 na segunda vez. É a primeira pessoa a falar da força mental de Tiago: o “máquina”, cognome que há de substituir o nome de Tiago durante os dois dias de treino, não se refere à forma física deste obstinado ainda que amador ciclista mas sim “à força da sua dedicação”. É que em forma Tiago não está, nem nunca esteve desde que parou de jogar futebol: o que o torna rápido não é o corpo seco, quase esquelético, dos ciclistas que querem pesar o menos possível em cima dos pedais, nem a caixa toráxica de um nadador. Tiago fuma bastante, come como se fosse vindimar e o gosto pela boémia, o emprego que se passa quase sempre de noite, puxam bem pelo copo que ele nunca negou - e também não é por estar a tentar correr a N2 quase sem pausas que vai parar de o apreciar.

Tiago está ao telefone a tratar de um problema que surgiu com um concerto agendado para dali a dias, isto enquanto sobe as terras de Faia Brava.

Apesar de não estar sempre em cima de uma bicicleta enquanto trabalha, a sua rotina não deixa de ser cheia de curvas inesperadamente apertadas, como quando afinal cancelaram aquele voo interno previsto entre os dois concertos marcados na Colômbia e é preciso alugar uma carrinha a 12 horas do concerto para guiar até um sítio que fica a 15 ou 16 de distância. O trabalho de um tour manager, diz Tiago, “é basicamente tudo”. O que é tudo? “Um dia normal em estrada é chegar ao local do concerto, verificar se as exigências técnicas são cumpridas, se os camarins estão como foram pedidos, criar uma boa relação com o promotor e técnicos residentes. Fazer com que os horários sejam cumpridos, para que à chegada da banda esteja tudo ok para o teste de som. Verificar se o restaurante não se atrasa, se é perto, se tem estacionamento, se é logisticamente mais fácil ir a pé, etc. Verificar o palco depois de jantar, meter os músicos em palco, estar atento ao concerto, aos técnicos e ao público. Depois do concerto garantir que nada fica para trás. Nem material, nem objectos pessoais, nada…”. Tudo é tudo o que envolve uma digressão, “dos técnicos de luzes à impressão da lista que músicas que vão tocar. “Num concerto”, continua Tiago, “estão envolvidas algumas 40 pessoas, do artista aos promotores, os músicos que acompanham, o pessoal que monta o palco e testa os instrumentos, os agentes de segurança da banda e os do recinto, toda a gente tem de saber o que fazer e ninguém se pode chatear ou o espectáculo vai sofrer”.

Gerir digressões de um artista conhecido em todo o lado é “como aterrar num país estrangeiro todos os dias e tentar organizar a vida como se soubesses como é que se vive lá”. É preciso estar atento aos “humores”, aos “problemas dos quais não se falam”, ser “confidente e amigo” mas nunca tomando partidos, “independentemente do que ouças”. As viagens são longas e o bom ambiente é um bem que vai rareando. Reabastecer os músicos de confiança e aliviar as tensões também faz parte do “contrato”.

Telmo, dentro do carro de apoio, conta o que se vai passando, à medida que olha a aplicação de geolocalização e contagem de quilómetros que equipa a bicicleta de Tiago e cujas leituras são enviadas para o seu telefone: “Já subiu sete quilómetros e nem notou. Vai quase a 15 quilómetros por hora numa subida, uma máquina”. Paramos quando Tiago acaba o telefonema. Reforça-se a água com electrólitos e a corrida continua.

A carrinha de apoio de Telmo vai quase sempre paralela ao percurso da bicicleta. São duas da tarde, faz calor neste março.

“Esta hora é uma merda”, diz Tiago.
“Não é nada, é a hora dos rijos. Se fosse fácil estavam cá outros”, diz Telmo pela janela.

Mas é só para lhe dar força porque, ao olhar pelo retrovisor, vê Tiago numa subida acentuada a suar e com uma expressão de puro sofrimento, a pedalar de pé. O rosto de Telmo é só preocupação:

““‘Bora máquina, ‘bora! Vamos embora!”, grita pelo vidro.
“Quantos quilómetros faltam desta subida?”, berra Tiago de volta.
“Só três, máquina”, responde Telmo, que pára a carrinha e sai para o empurrar com as duas mãos nas costas.
“Faltam cinco, mas se lhe disser ele pára já para fumar um cigarro”, diz-nos quando volta à carrinha.

Passamos por uma terra chamada Juízo, em Pinhel, e logo se desenrola uma conversa à volta das vantagens de não se ter nenhum, que é o caso de Tiago. “Trinta por centro é físico e o resto é mental”, diz Telmo. “Setenta por cento é juízo, ou falta dele, não sei.”

De Marialva a Castelo Rodrigo são 46 quilómetros, 30 deles a subir. Telmo pára de novo e despeja uma garrafa de água em cima de Tiago, que grita obscenidades: “Vou ficar mais pesado, pá, que carago!”, é o que se pode reproduzir do vernáculo.

As montanhas perpetuam-se no horizonte, como um tecido engelhado. Parece que se despenham no céu, em vez de no mar, como é mais normal. Há campos de alfazemas e mimosas por todo o lado. Na camisola preta de Tiago aparecem linhas de suor, concretizadas em sal do corpo, parecem um electrocardiograma.

Perguntamos a um senhor na rua se vamos bem para a Sertã:

“É sempre a subir até lá acima e depois sempre a descer até lá abaixo.”
“Mas não é sempre assim? Não é essa a definição do ciclismo, da vida até?”, pergunta Tiago.

O senhor sorri e faz que sim com a cabeça. De certo passou um pedaço do seu dia a pensar naquilo depois de Tiago zarpar quase a 40 à hora pela pequena descida que antecede a subida que antecede a descida que fica antes da Sertã.

“As direções do senhor são a definição do que eu ando aqui a fazer”, diz-nos quando paramos, numa sombra, por volta das 17h.

Estamos perto de Almeida, a fronteira de Vilar Formoso fica a sul, a 14,5 quilómetros. É um sítio por onde se entra por uma porta medieval, feita de pedra e com um brasão tão antigo que mesmo sendo ele também feito de pedra já não se distingue. Foi corroído pelo tempo como tantas aldeias históricas em Portugal. Este treino tem um outro objetivo, além do óbvio. Tiago quer mostrar, através de fotografias que vai colocando no Instagram, estes sítios antigos, muitos, como Reguengos, no Alentejo, por onde Tiago também já andou. As ruas são estreitas e as casas ou são brancas, luzidias de tão fresca parece a pintura, ou são de pedras escuras: pelas ranhuras onde elas não assentam umas nas outras escorre musgo amarelo.

Na estrada até Penamacor, no distrito de Castelo Branco, surgem dos dois lados enormes árvores que se cruzam por cima das faixas de rodagem para dar sombra. Está um dia de calor brando e seguimos de janela aberta, com António Zambujo a cantar dores universais:

“Atravessei o oceano sem o teu amor de guia
Só o tempo no meu bolso e o vento que me seguia”

É sobre amor, mas também pode ser sobre tentativa e falhanço, perseverança, luta, superação.

“Procurei a terra firme em cada onda que subia,
o sol cegava meus olhos, toda a noite eu te perdia
Lá dentro no pensamento virou tudo nostalgia
Água, sal e sofrimento porque tu não me querias...mais”

Num truque antigo utilizado pelos ciclistas profissionais, Tiago “cola-se” à carrinha, e o cone de ar projeta-o para os 60 quilómetros por hora, “um rebuçadinho para a média”, diz Telmo. Numa descida à saída de Penamacor, Tiago passa por um semáforo de controlo de velocidade a mais de 50 e fecha-o para o resto dos carros que vêm atrás dele, incluindo a nossa carrinha.

Entre Aranhas e Medelim andamos perdidos de Tiago. Ligamos e ele não atende. Aranhas, uma aldeia também no distrito de Castelo Branco, é um amontoado de pequenas casas de pedra com sardinheiras a pingar das varandas. Nos telhados retos há pequenas parreiras entrelaçadas em paus de madeira, que por sua vez suportam uma estrutura de arames assim colocados para que elas cresçam por ali acima e formem um manto de sombra.

A carrinha quase não passa na Rua do Espírito Santo, as casas vão ficando cada vez mais perto umas das outras, as escadas só de um lado levam às portas que não ficam perto do chão, mas numa espécie de primeiro andar. Telmo faz marcha atrás e volta para o largo. Metemo-nos a caminho de Medelim, sabemos que Tiago não pode estar longe, mas por algum motivo a geolocalização deixou de funcionar, talvez o aparelho de captação de coordenadas tenha ficado sem bateria. Medelim não é muito diferente de Aranhas. Há um café central, uma fonte antiquíssima no centro, ou um poço com um sino por cima e folhas de videira esculpidas em ferro pintado a verde. A igreja da Rua da Misericórdia tem um campanário em pedra de onde pende um sino ferrugento. Ao lado da entrada principal da igreja há uma porta de madeira inchada onde se lê “Casa Mortuária”. Mais à frente, na Rua da Ladeira, que é bastante mais larga do que as outras, há uma casa com tantas parreiras à frente que as folhas de verde claro vivo parecem jorrar de dentro das janelas. Tiago há de andar algures na N332, é preciso saber onde. É ele que liga. “Estive a comer uma belas laranjas com umas senhoras em Aranhas, mas já estou de regresso ao percurso, vou mandar a localização.”

Encontramos Tiago e paramos para uma sandes de presunto e dois cigarros. Tiago prepara-se para a subida até Monsanto. Começa a subir e nota-se nele um esforço que até aqui não parecia existir. Aproximamo-nos, ele está a suar e com um ar de irritação impossível de disfarçar: “Deixem-me ir em silêncio”.

Está habituado a não paralisar perante o que parece impossível de resolver. Não conta pormenores mas diz que já caíram palcos, pessoas quase morreram “durante o meu turno, entre aspas, não podes entrar em pânico, e eu não entrei”. Mas, acrescenta, “não sou o maior da aldeia toda, cada pessoa é uma peça essencial da enorme máquina que é a carreira de um artista com reconhecimento planetário”.

A última subida da tarde leva-nos a uma planície cheia de espigas de milho, linhas de sobreiros e pinheiros mais ao longe que interrompem o manto de céu cor-de-rosa com as suas copas. Ao começar a pôr-se, o sol lança os seus raios furiosos e incandescentes, como se lutasse contra a rotação da terra, como se esbracejasse para não se afogar.

Tiago veste um corta-vento e põe a sua balaclava de tecido polar. Vamos descer a pique e, lá em baixo no vale, o termómetro chega a marcar menos 10 graus do que aqui. Uma banana, um cigarro, água e “vamos lá aproveitar a inclinação descendente”.

Um bom dia para bater um recorde

Voltamos ao quilómetro zero da N2, onde Tiago já esteve três vezes, esta é quarta. Entre a segunda e a terceira tentativas, descobriu que havia alguém que detinha o recorde desta estrada em bicicleta: 29 horas de Chaves a Faro, 27 delas a pedalar. Desde o fim de 2018, quando, no Alentejo, pensou que ia morrer em cima da bicicleta, até este dia 17 de agosto, Tiago desenvolveu a obsessão de ultrapassar David Maltez, um ciclista profissional de Cuba, no Alentejo, que em 2016 conseguiu as tais 29 horas. Uma obsessão saudável até porque foi logo falar com Maltez no Facebook para o informar e lhe pedir conselhos.

São 4h30 e toda a gente precisa de café. Andámos às voltas em Chaves com Hugo João, que está disposto a abrir o seu bar no centro histórico para nos servir um. Mostra alguma surpresa quando lhe dizemos o que nos traz a Chaves tão cedo, até porque “isto da N2 não era uma moda de todo até há coisa de ano e meio”. Na rotunda onde fica plantado o marco do quilómetro zero há uma loja com “merchandising oficial” da marca em que a N2 se tornou, mas também “só abriu em julho”. De qualquer forma, diz Hugo João, “é ótimo que cada vez mais gente venha visitar as terras ao longo desta estrada porque estão longe dos centros urbanos e por isso ainda estão preservadas algumas tradições e hábitos antigos”.

Quando paramos perto do café do Hugo, Tiago liga e diz que tem uma cafeteira à nossa espera. Quando lá chegamos está fumegante, apoiada mesmo em cima do marco do quilómetro zero.

Totalmente equipado, t-shirt de spandex respirável com bolsos laterais, bermuda de licra acolchoada com gel 3D de malha de secagem rápida, meias com microfibra de compressão muscular, sapatilhas com encaixe de pedal fluorescentes e de velcro ajustável, Tiago está encostado ao marco a fumar cigarros. A equipa, José Júlio, um amigo da Figueira da Foz que vai tomar conta da contagem de tempo e quilómetros, e Hugo Jacinto, sócio de uma loja de material para ciclismo e ele mesmo praticante da modalidade há anos, estão com a namorada de Tiago, Sílvia, a arranjar tudo na carrinha. Há dezenas de caixas de gel energético, pós de todo o tipo, creatina, proteína, isotónico, barras energéticas, bisnagas com concentrado de hidratos de carbono, sprays e cremes de massagem, garrafões de água, várias mudas de roupa, frutos secos, sandes de presunto, bananas, tupperwares de massa com batata doce, ovos cozidos, bolachas integrais com sementes.

O dia começa frio mas rapidamente Tiago se apercebe que as previsões meteorológicas estavam erradas. Vamos apanhar mais de 30 graus, o que é um calor imenso para quem não está habituado a pedalar nestas temperaturas. Paramos em Vila Real, na estação de serviço onde Tiago queria parar mas ele seguiu sempre, para não perder tempo.

“Quando entramos nas ondulações do Peso da Régua, a viagem fica mais fácil porque, ao olharmos a paisagem, esquecemos o esforço”, diz Tiago. Vamos passando por curvas de verde que parecem derramar-se para cima do alcatrão e estreitar o caminho. Paramos numa tasca em Penude para cumprimentar a dona Lurdes Pinto, acolhedora oficial nas desaventuranças de Tiago. Antes da curva ao quilómetro 100 vimos duas placas de cimento com letras a branco: Matança fica para a esquerda, Forca para a direita.

Tiago encostado ao marco a fumar cigarros

Em fevereiro do ano passado, quando fez este caminho com José Conde debaixo de neve, vento e chuva oblíqua, foi a dona Lurdes que os pôs em frente à sua salamandra, que lhes deu vinho e comida farta. Agora está de bata sem mangas a guardar os seus melões biológicos, dispostos numa banca mesmo à beira da estrada. Lá dentro há água fresca e muita sombra, a tasca é praticamente um buraco no meio da serra, como que tornado fresco por estar dentro da sua humidade. Tiago passa sempre aqui, é a quarta vez. Em menos de dois anos, muito mudou ao longo desta estrada. “Menina, ainda bem que eles passam aqui e agora passam mais todos os anos. É bom isto voltar a ser ponto de passagem. É que isto esteve tudo morto muito tempo e isto volta a morrer se as pessoas não vêm cá.” Do tecto caem presuntos, há frascos com frutos secos colados uns aos outros com mel de rosmaninho para vender.

As vinhas estão cheias de folhas verde-claro, são linhas e linhas paralelas ao longo dos socalcos, parece que a fúria de um expressionista abstrato passou por aqui e rasgou estes traços verdes com os seus óleos. Ao longe veem-se torres eléctricas, enormes espantalhos de aço a guardar vigia.

Há uma passagem de “Para Sempre”, de Vergílio Ferreira, que parece feita para ilustrar o momento de um atleta extenuado a refrescar-se: “Uma paz natural desce-me com a água e tudo em mim alastra de abandono feliz. Estendo mesmo as mãos, rodo-as à água corrente e sinto que há sede a morrer na minha pele, na frescura viva da pele. E é assim como se já satisfeita a sede eu tivesse ainda vontade de a ter para o prazer de a não ter. A vida está tão cheia de milagre”.

Dentro da carrinha a gestão é apertada. Vão falando dos tempos de Tiago, até agora estão “impecáveis”. Começámos há pelo menos cinco horas, Tiago não tem qualquer dor mas continua a pedir gel, água com coisas energéticas dentro, barras de potência, massagens mais à frente. “Anda mais é para a frente, orca!”, grita Hugo, um fanático da bicicleta que está aqui meio como preparador físico meio como arremessador de ofensas pouco graves que irritem Tiago “o mínimo necessário”. Estamos a 538 quilómetros de Faro, só 200 percorridos, e Hugo pergunta como se perguntasse quem joga no domingo: ‘Queres desistir?’. Tiago não diz nada, continua a comer. Antes de se meter na bicicleta para continuar, diz a Hugo: “Fiquei chateado com a aquela pergunta, meu. Claro que não vou desistir, está tudo a correr assim tão mal?”. Hugo diz que não, claro que não, mas já lá colocou a semente da raiva nas pernas de Tiago.

Em Tondela há uma paragem não planeada. Estão 32 graus e Tiago tem de parar debaixo de umas árvores. Come esparguete com batata doce, um ovo cozido, tomate cherry, frutos secos e água. Paramos mais de 30 minutos, o que atrasa a média de Tiago, nesta altura já uma hora acima do previsto. Perto de Penacova o carro de apoio perde-se do seu ciclista. Anda uma hora às voltas perto da barragem da Aguieira. Tiago lá continuou sozinho. Apanhamo-lo já a beber café. Fuma mais dois cigarros e segue.

Na subida para Poaires, e daí para Góis, cada segundo tem a espessura de uma tragédia. A subida é um remoer de músculos que se veem através dos calções justos. Trabalham como aquelas estruturas que sugam petróleo dos desertos do Texas. A subida de Poiares para Picha também é difícil, Tiago quase vai abaixo. Paramos em Góis, um pouco à frente dele, para o ver subir a montanha. “Isto é que se chama subir na vida, meu Deus”, diz ele a olhar para a imensidão fagulhenta da serra que acabou de subir.

Demorou quase meia hora a fazer seis quilómetros. Paramos num café para descansar, trocar de roupa e comer uma sandes de presunto com batatas fritas lá dentro.

Estamos no quilómetro 293 e fazemos as contas de cabeça que Tiago também já está a fazer mas não diz. A 22 quilómetros percorridos por cada hora (média até aqui) Tiago terá apenas percorrido 638 ao fim do tempo que estabeleceu para o recorde. Ficariam a faltar 100 quilómetros, mais ou menos quatro horas.

A noite começa a cair, são 20h30 e há um pó cor-de-rosa por cima das montanhas. As nuvens parecem feitas de fumo denso e as cinco eólicas que despontam ao fundo vão criando redemoinhos nesse fumo.

Hugo é a segunda pessoa a falar da força mental de Tiago. “Não perderia o meu tempo com miúdos, ele não treinou o suficiente, nem nas condições ideais, não come bem, fuma, mas tem uma cabeça e uma maturidade que lhe permitem compensar algumas dessas coisas, outras, claro, não.”

Tiago não tem nenhum motor de combustão acoplado à sua bicicleta, mas está a subir Vila de Rei, uma montanha que é praticamente uma parede, como quem se agarra a um lençol para ver a amada. O asfalto é como uma quantidade imensa de pele que tem de se percorrer para conhecer. Tiago já está sempre em esforço, antes de Abrantes as subidas são desumanizantes, perde-se alguma racionalidade porque o cansaço é impossível, o corpo faz coisas sozinho, há espasmos e os músculos solidificam sem razão.

“Em que pensas, Tiago?”
“Em dormir”, responde de cima da bicicleta.
“É assim sempre? Corre-se para acabar apenas?”
“Sim, só para terminar o sofrimento, mais nada.”

Quando fala é para pedir ajuda: bananas, magnesona, brufen, vitaminas, efervescências várias. De resto Tiago vai no seu ritmo, abandonado porque pensa que é melhor assim? Ou porque pensa que não vai conseguir e não quer dizer?

Durante meio ano, Tiago Cação subiu e desceu centenas de vezes Monsanto, em Lisboa, foi da capital à Figueira da Foz, subiu e desceu a Serra da Boa Viagem, nos dias de folga Alentejo. Ele tem de saber que já não é possível quebrar o recorde. Se calhar já deixou de ser importante no subconsciente e essa certeza chegou como uma agulha fininha que ao início se teme mas cujo líquido analgésico melhora quase imediatamente o nosso estado de saúde.

Já passava das 02h de 18 de agosto quando nos sentamos em frente ao Rio Tejo, na zona de Abrantes, num parque normalmente fechado a estas horas. Já está frio de novo e Sílvia, que passou todo o tempo a morder os lábios e a olhar para a estrada por cima do descanso de cabeça do condutor para poder ver Tiago, está a massajar as pernas do namorado, que garante não sentir dor, só sono. À nossa espera está Alberto Lopes, dono de várias propriedades e prioridades também, como sejam a de obrigar a beber e a comer todos os amigos que por ali passam. À espera da comitiva está um queijo da serra, dezenas de fatias de presunto e uma garrafa magnum de vinho tinto reserva.

Tiago levou um dia Zambujo a jantar ao restaurante de Alberto e a meio do jantar disse que tinha feito desaparecer um dos muitos presuntos que estão por lá pendurados e que Alberto tinha de descobrir qual. “Andou maluco à procura, mas eu não tinha tirado qualquer presunto”, conta Tiago.

Tiago come e bebe como se estivesse no rescaldo de um qualquer concerto mas faltam 330 quilómetros para o fim do tormento, pelo menos 12 horas de pedalada. Alberto vai falando da renovação da parte velha da cidade, onde por volta da 1h30 encontramos a custo uma farmácia para comprar magnesona. Algumas casas têm tábuas sobre as janelas, outras têm-nas escancaradas, as cortinas de renda amareladas e esfaceladas como bandeiras expostas aos elementos na proa de um navio anos e anos. O entulho amontoa-se nos baldios, precipita-se de dentro das portas como um vómito de abandono. As ruas não estão iluminadas e ouvem-se os lobos uivar. Alberto garante que o interesse na zona está a aumentar. “Eu mesmo renovei umas propriedades que tinha e tenho bastante procura turística, a julgar pelas médias da zona.” Concorda, como toda a gente parece concordar, que é preciso encontrar forma de mostrar estas zonas interiores às pessoas que chegam às grandes cidades, até porque em Portugal nada é assim tão longe.

Seguimos caminho. Com a luz do telemóvel lemos na carrinha a descrição que Tiago já tinha escrito para esta etapa, de Abrantes a Montemor-o-Novo: “Etapa mais chata. Muito trabalho de carro para recuperar tempo. Não me deixar adormecer. Hidratação, géis, café, gritos. É a partir daqui que vou começar a querer desistir. Dores nas costas, nos braços, assado. Trocar de calções, se necessário de sapatos”.

As luzes do carro vão iluminando as ruas escuras do Ribatejo, emolduradas de sobreiros que parecem homens enormes com calças castanhas e sobretudos de fazenda cinzenta por cima, que é a cortiça. Parecem velhotes pachorrentos que se arrastam pelas bermas atentos a tudo, mesmo sem parecer. Estão atentos a Tiago, que vai cheio de sono, como todos dentro da carrinha. Hugo andava a pensar desde o jantar em Picha na pergunta que havíamos feito sobre as motivações deste tipo de atletas, não profissionais, que metem coisas na cabeça, coisas que violentam o corpo. “Olha, é uma droga como outra qualquer, são pancas, obsessões, todos temos, mas estas são de superação pessoal, doem mas não te matam, a menos que faças tudo como um radical e aqui ninguém está para isso. No ciclismo o objetivo é o próprio percurso.”

A 11 quilómetros de Ponte de Sor, com exatamente 400 percorridos, Tiago faz um desvio que o leva à berma. Endireita a bicicleta mas poucos metros depois faz outro.

Dá uma guinada à esquerda, pela frente da carrinha que vai um pouco atrás, e enfia-se numa pequena área de gravilha, que os carros normalmente utilizam para as inversões de marcha. A carrinha entra logo a seguir a ele e trava a fundo. Hugo sai do lugar do condutor muito assustado:

“Que foi, Cação?”
“Eh, pá, preciso de dormir 20 minutos.”

Tiago abre a parte de trás da carrinha, tira um daqueles colchões desdobráveis do campismo e deita-se por cima da gravilha, sem qualquer cobertor. Está a tremer mas já adormeceu, adormeceu muito antes de Hugo e Sílvia o conseguirem cobrir e descalçar, tudo isto foi feito quando Tiago já ressonava.

Hugo olha para a fita do tempo e nota que Tiago ainda não tinha descansado a sério. Já leva 17 horas a pedalar. Marcam-se nos despertadores 20 minutos de sono. “É normal, é preciso dormir para fazer coisas tão violentas. Ele vai acordar, eu dou-lhe um recuperador, que faz milagres, e ele segue caminho.” Hugo está recostado na cadeira, aproveita também ele para dormir e depois continuar a conduzir.

Passam 20 minutos e Hugo vai tentar acordar Tiago, que dorme com Sílvia ao seu lado, deitada no chão. Passam 30 minutos. Aos 40 minutos Hugo vai acordar Tiago, que se levanta trôpego e volta a sentar-se. Calça os sapatos, mete a balaclava, pega no recuperador milagroso e bebe-o todo de uma vez. Mas falta-lhe paciência para esperar que o milagre lhe entre na corrente sanguínea. “Vamos dormir, fica para a próxima”.

Está zonzo, a voz rouca. Levanta-se lentamente, Hugo desmonta a bicicleta num instante e arruma-a na mala do carro enquanto Tiago se senta no banco da frente com um casaco vestido e a cabeça encostada ao vidro do lado do passageiro. Começa imediatamente a pensar em nomes de ex-ciclistas que possa contratar para voltar a tentar superar-se a si mesmo e já tem uma lista mental a ser escrita. Frustração “não, não sinto”. Há orgulho “nos tempos que consegui sem uma preparação de profissional” e por isso a certeza que “da próxima vez é que é”.


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