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Uma aventura magnífica, uma visão desoladora. Há cinquenta anos a Humanidade pisava pela primeira vez um outro mundo que não a Terra. Tudo começou com um presidente que desafiou um país a fazer o que, na altura, era impossível. Mas será que em breve vamos estar a fazer selfies na Lua?

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Kennedy

Setembro de 1962. O presidente dos Estados Unidos reúne-se na Casa Branca com o administrador da NASA de então, James Webb. A discussão anda à volta do Espaço e, a dada altura, torna-se mesmo acalorada.

“Isto tem de ficar aqui bem claro. De outra forma não devíamos estar a gastar esta quantidade de dinheiro, porque eu não estou assim tão interessado no Espaço”, afirma John F. Kennedy.

A conversa é registada num gravador. “Isto” é colocar um homem na Lua. Por essa altura, Kennedy está a tentar convencer a NASA a cumprir esse plano até ao final da década, tal como ele tinha dito no Congresso um ano antes. Tem de ser uma prioridade absoluta. A Agência Espacial Norte-Americana não está totalmente convencida, e insiste com o jovem presidente que é preciso descobrir ainda muito sobre a Lua: como é que se vai chegar até lá?

Kennedy não está tão interessado no Espaço como em vencer os soviéticos. E afirma mesmo: “Estamos preparados para gastar quantidades razoáveis de dinheiro, mas estamos a falar de despesas brutais que destroem o nosso orçamento e as outras políticas internas. E a única justificação para isso, na minha opinião, é fazê-lo porque esperamos vencê-los e demonstrar que apesar de termos começado com um atraso de alguns anos, Meu Deus, conseguimos passá-los.”

O homem que mudou o jogo

Quando John F. Kennedy toma posse como 35º presidente dos Estados Unidos, o Espaço não é propriamente uma prioridade nos seus primeiros meses.

“Ele não estava assim tão interessado no Espaço. Não lhe tinha dedicado atenção no seu tempo enquanto Senador americano. E uma indicação da baixa prioridade que deu ao Espaço foi que entregou o assunto ao seu vice-presidente, Lyndon Johnson”, começa por afirmar John Logsdon, fundador do Space Policy Institute em Washington e autor do livro “John F. Kennedy and the Race to the Moon”.

“Uns meses depois de tomar posse, o administrador da Nasa foi ter com ele e disse-lhe que, para ter um bom programa espacial, precisavam de mais dinheiro, não eram competitivos com a União Soviética. Kennedy disse que ainda não tinha tomado uma decisão, e pediu-lhe para voltar após alguns meses, quando o próximo orçamento fosse feito.”

Até que um acontecimento veio mudar o jogo no tabuleiro. A 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin torna-se o primeiro homem a ir ao Espaço. Os soviéticos voltam a humilhar os americanos, depois de em 1957 já terem colocado o primeiro satélite em volta da Terra. Em plena Guerra Fria, o Sputnik deixou a nação em choque e com receio da nova ameaça que o inimigo poderia trazer do Espaço.

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Kennedy é forçado a agir. John Longsdon recorda que ”oito dias depois do voo de Gagarin, Kennedy escreveu um famoso memorando em que dizia: “encontrem-me um programa espacial que prometa resultados dramáticos e no qual possamos vencer. As palavras-chave são: Espaço, dramático, vencer. A resposta que teve de volta foi: ir à Lua. Kennedy não estava interessado na Lua, estava interessado em ser o primeiro. A razão pela qual a Lua foi escolhida foi porque era o primeiro grande acontecimento no Espaço onde os Estados Unidos ao menos tinham uma hipótese de serem os primeiros. Porque tanto os Estados Unidos como a União Soviética teriam de construir foguetões novos para o conseguir.”

Estava assim lançada a corrida à Lua, que durante anos iria opor os Estados Unidos à União Soviética.

A conquista da Lua

A conquista da Lua

A aventura espacial torna-se uma das grandes bandeiras do presidente americano. E atinge um dos seus momentos marcantes no discurso de Kennedy em ‘62 na Universidade de Rice, no Texas, quando Kennedy solta a já famosa frase: “Escolhemos ir à Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque são fáceis, mas porque são difíceis”.

Mas Kennedy não queria apenas que os Estados Unidos pusessem um Homem na Lua até ao final da década, ele queria também ter o proveito político desse feito. Mas em 1963 o apoio da opinião pública ao programa espacial estava a diminuir e Kennedy precisava de justificar aos americanos o dinheiro investido no programa Apollo.

Uma nova reunião na Casa Branca em setembro desse ano demonstra isso mesmo, de acordo com gravações audio disponibilizadas pela Biblioteca Presidencial John F. Kennedy. Desta vez os papéis invertem-se, e é o administrador da NASA que tem de convencer o presidente de que é prioritário continuar com o programa.

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“O Espaço neste momento perdeu muito do seu glamour”, afirma o presidente. “E não temos nada para mostrar nos próximos 14 meses. Vou para campanha eleitoral e não temos nada para mostrar para defender este programa”.

O projecto Mercúrio - que tinha posto o primeiro americano no espaço, Alan Sheppard - tinha tido o seu último voo tripulado em maio desse ano, e a próxima missão do programa Gemini - um programa preparativo do Apollo - só iria acontecer no final de 1964. Era um tempo parado.

Kennedy chega mesmo a perguntar a Webb se ainda acha que é uma boa ideia colocar um Homem na Lua. E a grande desilusão chega quando percebe que já não será ele o presidente dos Estados Unidos quando isso realmente acontecer.

— “Se eu for reeleito, não vamos à Lua nesse período, pois não?”
— “Não senhor, não vai”.

Kennedy pensa já como poderá suster apoio político para o programa Apollo no seu segundo mandato.E considera que uma das soluções pode ser a de dar ao projecto uma justificação militar, alegando que os voos tinham implicações na segurança nacional e na defesa dos Estados Unidos. “Isto parece-me muita massa para ir à Lua”, afirma o presidente no audio apanhado pelo gravador da Casa Branca. “As critícas vão continuar a não ser que arranjemos uma justificação militar para isto, e que não seja apenas uma questão de prestigio”.

Perante o rombo nos cofres da administração, John F. Kennedy chega mesmo a pensar numa missão conjunta entre os Estados Unidos e a União Soviética para ir à Lua. Dois dias depois desta reunião na Casa Branca, faz um discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas onde propõe a cooperação espacial.

“Num campo em que os Estados Unidos e a União Soviética têm uma capacidade especial, o campo do Espaço, há margem para nova cooperação. Para esforços conjuntos na regulação e exploração do Espaço. Eu incluo nestas possibilidades uma expedição conjunta à Lua.” E a 12 de Novembro, Kennedy instrui mesmo o administrador da NASA, James Webb, a preparar propostas específicas sobre uma missão conjunta para apresentar ao líder soviético, Nikita Kruchev.

O que se seguiria é um dos capítulos mais dramáticos da história dos Estados Unidos. Em Novembro de 1963, Kennedy está de visita ao Texas e no dia 22 iria fazer um discurso em Dallas em que voltaria a falar da corrida espacial. Mas nunca chegou a proferir esse discurso. A caravana presidencial atravessa o centro de Dallas quando o presidente dos Estados Unidos é atingido por tiros no pescoço e na cabeça. Morreria meia hora depois.

Quando Kennedy anunciou a meta de ir à Lua até ao final da década de 60 ninguém sabia nessa altura como ir, ou sequer como colocar os astronautas e a nave necessária no Espaço. E a resposta estava numa tecnologia que tinha começado a despontar na II Guerra Mundial.

Von Braun e o foguetão

Quando o motor parava, o silêncio era de morte.

Em 1944, as bombas alemãs V-1 ficaram conhecidas entre os ingleses como as “Buzz Bombs”, pelo barulho que faziam. As bombas voadoras revolucionaram o armamento durante a Guerra. O problema é que atacavam alvos indiscriminadamente: quando deixavam de fazer barulho era porque o combustível tinha acabado. Nesse momento havia um silêncio de alguns segundos, que era seguido por uma explosão.

Mas em setembro de 1944, a muito mais sofisticada V-2 fazia a sua estreia nos ataques a Londres. Era alimentada por um poderoso motor que a fazia subir até 80km da superfície da Terra, e usava uma tecnologia de direcionamento nunca antes vista. Era já um pequeno foguetão.

O principal responsável pelo programa alemão das “bombas voadoras” era um cientista chamado Wernher von Braun. Com o final da Grande Guerra, Estados Unidos e União Soviética disputaram os cérebros alemães, mas os americanos souberam passar a perna aos soviéticos.

“Tanto os Aliados como os soviéticos sabiam que os alemães estavam muito à frente tecnologicamente. Um dos planos quando invadissem a Alemanha e entrassem em Berlim era capturar estes cientistas. Reza a história que von Braun já tinha acordos secretos com os americanos. Tinha-se refugiado com outros colaboradores numa casa no campo e foi lá que os americanos o prenderam com o intuito de o levar para os Estados Unidos.”

Von Braun acabaria por chegar ao Texas em setembro de 1945. E quando estava a preparar a construção das bombas voadoras, o seu pensamento já não estava propriamente só no inimigo, mas muito mais além. “A V-2 era lançada como um foguetão. E conta-se que von Braun já dizia: ‘Bem, estamos a pensar a coisa para o lado errado’. Ele já estava a pensar em ir para o Espaço”.

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O cientista alemão acabou assim por ser a chave que fez a diferença na corrida ao Espaço, recorda John Logsdon, fundador do Space Policy Institute de Washinton. “Von Braun disse à Casa Branca, a Lyndon Johnson: ‘Se entrarem numa corrida pelo foguetão vão ganhar, porque me têm a mim. Ele não era um homem muito modesto… Mas, no final, ele estava certo.”

Mas o seu papel não esteve apenas no desenvolvimento científico. Na década de 50, von Braun contribuiu como ninguém para a formação do imaginário colectivo da conquista do Espaço e da ida do homem à Lua.

Richard Jurek, autor do livro “Marketing the Moon: The Selling of the Apollo Lunar Program", recorda que “Von Braun escrevia artigos, fazia aparições públicas na televisão e em programas de rádio. E também ajudou a Disney. Não apenas em filmes e programas de televisão, mas também ajudando a lançar a Disneyland, na Califórnia, que tinha um sítio chamado 'Tomorrowland', com um foguetão no centro.”

Em 1955, a Disney estreou vários episódios sobre a exploração espacial que contavam com as explicações técnicas de Wernher von Braun. Como este episódio “Man and the Moon”, estreado a 28 de dezembro de 1955:

Von Braun já imaginava um foguetão poderoso, que iria colocar naves e tripulações em órbita por várias fases.

O foguetão Saturno V iria ser constituído por vários módulos, como peças de Lego, cada uma delas responsável por uma fase diferente na ascensão da nave até ser finalmente colocada em órbita da Terra, e em seguida a caminho da Lua.

Foguetão Saturno V

Foguetão Saturno V

Passados 50 anos, o mundo nunca mais teve um foguetão tão poderoso como o Saturno V. “Era capaz de pôr 140 toneladas de carga útil em torno da Terra, naquilo que se chamam as órbitas baixas. E hoje em dia não temos nenhum foguetão capaz de fazer isso”, explica Rui Agostinho, diretor do Observatório Astronómico de Lisboa. “Desde o Programa Apollo nunca mais houve um foguetão capaz disso. Se formos ver o foguetão mais potente que a Humanidade tem nos dias de hoje é a Space X, com o Falcon Heavy, que está a meter 60 toneladas em órbita. Nem chega a metade do Saturno.”

Tirando o foguetão - um problema que os soviéticos nunca conseguiram verdadeiramente resolver e que os levou, em última instância, a perder a corrida ao Espaço — a União Soviética tinha sido primeira em tudo: colocou o primeiro satélite no espaço, o primeiro homem em órbita da Terra, a primeira sonda da Lua, e mesmo a primeira mulher no Espaço — Valentina Tereshkova, a 6 de junho de 1963, na nave Vostok 6. Por curiosidade, a primeira mulher americana a ir ao espaço foi apenas 20 anos depois, em junho de 1983.

Mas apesar de não lhes ser permitido na altura serem astronautas, as mulheres foram absolutamente fundamentais para a ida do Homem à Lua e para o sucesso do programa Apollo nos Estados Unidos.

As mulheres de Apollo

A coisa começou como uma brincadeira. “Eles estavam preocupados que aquela pilha gigantesca de papel me caísse em cima, mas eu até achei piada”, recordaria mais tarde Margaret em entrevista ao jornal britânico Guardian.

Aquelas folhas intermináveis tinham um dos primeiros códigos de programação alguma vez escrito. E não era um software qualquer: aquele iria pôr o Homem na Lua pela primeira vez.

A torre de papel ficava da altura de Margaret Hamilton, a mulher que na década de 60 liderou uma equipa de 350 investigadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que desenvolveu o software que iria seguir a bordo da Apollo 11. É uma das mulheres que foram decisivas para o sucesso da histórica missão, num mundo que, naquela altura, ainda era maioritariamente dominado por homens.

Licenciada em Matemática, conseguiu o trabalho depois do marido ter visto um anúncio do MIT num jornal a pedir pessoas para desenvolver o programa que ia colocar o homem na Lua pela primeira vez. Naquele tempo ainda ninguém falava em software, nem sequer existia a expressão “engenheiro informático”.

“Aquele software tinha de funcionar à primeira. Não havia uma segunda oportunidade”, recorda Hamilton hoje com 82 anos. O comum dos mortais pode ver a Apollo 11 como a primeira vez que um homem pisou a Lua. Mas um engenheiro informático também vê o momento como a primeira vez que um software operou no satélite da Terra. Só que, para isso acontecer, precisava de um computador revolucionário. E que teve de ser construído de raiz.

Um contrato de uma página para a Lua

Olhe para o telemóvel que tem consigo, e com o qual até pode estar a ler este artigo. Pare por uns segundos para pensar nesta ideia: o seu telemóvel é provavelmente um milhão de vezes mais poderoso que o computador que aterrou o Homem na Lua há 50 anos. Mas como é que isso foi possível?

Depois do presidente Kennedy lançar o repto, em maio de 1961, de colocar um homem na Lua até ao final década, um dos grandes problemas era como navegar uma nave desde a Terra até à Lua. E foi assim que o primeiro contrato da NASA com vista ao programa Apollo foi celebrado com o MIT — o Instituto de Tecnologia de Massachusetts — e com o seu Laboratório de Instrumentação.

Dava Newman, atualmente professora do programa Apollo do MIT, ocupou o cargo de vice-administradora da NASA durante dois anos e recorda muitas vezes esse contrato. “O que eu gosto mais acerca dele é que tem apenas uma página. Quando estava na NASA provocava-os e dizia: este é o objectivo, contratos de uma página. Nós fomos à Lua com um contrato de uma página com o MIT! Para que é que temos agora estes contratos gigantescos de milhares de páginas?!”

Em 1961, o então administrador da NASA, James Webb, teve uma reunião em agosto com Charles Draper, diretor do Departamento de Aeronáutica e Astronáutica. Perguntou-lhe se era possível desenvolver tecnicamente durante aquela década um sistema de navegação para levar o homem à Lua. Draper respondeu afirmativamente, mas Webb desconfiou:

— “Como é que sei que você está a dizer a verdade?”
— “Eu próprio vou na nave e testo o equipamento.”

Draper nunca iria à Lua, embora tenha chegado mesmo a oferecer-se à NASA formalmente. “Se eu puser a minha vida em jogo nisto, não pode haver maior motivação possível”, diria. E o computador que o MIT iria desenvolver desempenhou um papel fundamental na missão.

Numa época em que os primeiros computadores começavam a aparecer e ocupavam literalmente salas inteiras, o “Apollo Guidance Computer” foi o primeiro computador digital portátil construído. Ocupava um espaço equivalente a uma caixa de sapatos, e, para conseguir essa portabilidade, o MIT arriscou nos circuitos integrados, predecessores dos actuais microchips. Era uma tecnologia recente, que nem sequer tinha chegado ao mercado.

Décadas mais tarde, Neil Armstrong recordaria desta forma o computador que seguia a bordo da Apollo 11, e que o ajudou a fazer a histórica aterragem na Lua. “Hoje em dia para os nerds dos computadores são necessários gigas. Não não tínhamos gigas, ou sequer megas… O computador da Apollo tinha 32 kilobytes de memória fixa e 2 kilobytes de memória temporária. Era isto… Sem monitor, sem ícones. E o teclado era de zero a dez, com teclas 'read', 'clear' e 'enter' e mais duas ou três. Não tínhamos gráficos, não tínhamos monitores. Nos seus melhores dias o processador não chegava a 1 MegaHertz. Portanto era lento, e fraco... mas levou-nos lá!”

Isso fez com que o desafio de Margaret Hamilton e da sua equipa de programadores fosse monumental, recorda Dava Newman. “Naquela altura tiveram de inventar tudo de raiz. Era preciso ser excelente em programação, porque era necessário pôr tanta informação em tão poucos bits, não havia muita capacidade computacional. Isso é algo que hoje em dia tomamos como garantido. Mas reparem que estávamos no início dos computadores. E conseguem imaginar tudo o que implica para termos a certeza que chegamos mesmo até à Lua? Podia ter corrido mal de muitas maneiras, e apenas algumas em que podíamos acertar na trajectória.”

Uma das funções do computador era calcular a rota correta para a Lua, ajudado pelas medidas tiradas pelos astronautas com recurso a um sextante, um instrumento de referenciação posicional não muito diferente daquele usado pelos navegadores portugueses no século XVI. Depois, o computador comunicava também com vários outros componentes físicos da nave, com a qual estabelecia uma interface. Os astronautas comunicavam com o computador usando o DSKY (diminutivo de “Display and Keyboard). Inseriam códigos númericos e recebiam respostas de volta.

Em 1963, o MIT estava a consumir cerca de 60 por cento da produção de circuitos integrados dos Estados Unidos. Richard Jurek, autor do livro “Marketing the Moon”, explica mesmo que “Não é coincidência que a INTEL tenha sido criada a meio dos anos 60 para produzir microchips na Califórnia para alimentar a procura crescente da indústria espacial nesse período. Muita dela motivada pelo investimento governamental em sítios como o MIT, a Lockheed, North American Aviation, o programa militar de mísseis que se tornou num programa pacífico como parte dos programas Apollo, da Gemini e Mercúrio.”

Ainda assim, estávamos num tempo em que a perceção geral era de desconfiança nos computadores, porque os que existiam ainda não eram fiáveis. E Dava Newman recorda que, por trás das máquinas estavam as pessoas, que fizeram a diferença naquela altura na NASA, nomeadamente um grupo de mulheres. “Primeiro é importante saber que os ‘computadores’ eram pessoas. O poder computacional vinha das pessoas. E temos a história conhecida das mulheres afro-americanas que trabalhavam na NASA em Langley. Há toda uma equipa feminina, em especial no pós-II Guerra Mundial, que foi fundamental por causa dos avanços que trouxe.”

A matemática para chegar à Lua

Katherine foi um prodígio desde criança. Tinha um dom especial para os números. Entrou para a Universidade aos 15 anos, e aos 18 já tinha duas licenciaturas em Matemática e Francês.

Depois de interromper o sonho de uma carreira académica para ser mãe, em meados dos anos 50, é contratada pela agência que precedeu a NASA. Era um tempo em que os computadores ainda estavam por aparecer, e em que a expressão “computador” era aplicada às pessoas e não às máquinas.

Quando em 1961 os Estados Unidos colocaram o primeiro homem no Espaço, Alan Sheppard, Katherine Johnson voluntariou-se para calcular manualmente a trajectória do voo e o sítio exacto onde a cápsula que transportava o astronauta deveria cair no oceano. “Se ela garante que os cálculos estão certo, então estou pronto para ir”, diria na altura Sheppard. Oito anos mais tarde, já usaria as capacidades dos novos computadores para calcular igualmente a trajectória do voo de Apollo 11 até à Lua.

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A cientista espacial é a mais conhecida de um grupo de afro-americanas que trabalharam no centro de pesquisa da NASA em Langley. As suas histórias foram retratadas no filme “Hidden Figures”, de 2016. Johnson ainda é viva, e completou recentemente cem anos.

Na década de 60, Katherine colaborou com os engenheiros da NASA para calcular a hora e a rota precisa do lançamento das missões Apollo até à Lua.

Para se ter uma ideia simples de como tudo funciona, chegar à Lua é como a caça ao pato: não se aponta para onde ele está quando se dispara, mas para o sítio onde ele vai estar quando a bala lá chegar. O mesmo se aplica à órbita da Lua. Escolher o momento certo envolve muito cálculo e muita matemática.

“Quando chegarmos à órbita da Lua é bom que a Lua esteja lá. Porque, se não estiver, a nave vai em frente… Portanto tem de ser lançada num dia específico, a uma determinada hora”, começa por explicar Rui Agostinho, professor do departamento de Física da Universidade de Lisboa e diretor do Observatório Astronómico de Lisboa. “Para além disso, o combustível que vai a bordo não permite muita margem de manobra. Não podemos chegar a meio caminho e de repente dizer: olha, a Lua afinal está longe, vira aí à esquerda para nos podermos aproximar. Não dá. Portanto todos estes cálculos têm de ser feitos de antemão. E a NASA inicialmente não tinha essas soluções analíticas. E é uma dessas mulheres que diz: vamos fazer o cálculo por aproximação númerica, usando o método de Doyler.”

Portanto há uma série de etapas que têm de acontecer até podermos chegar à Apollo 11.Para que a missão seja bem sucedida, é preciso identificar o momento e a posição certa em que a nave tem de sair da órbita da Terra, e da mesma forma em que terá de sair da órbita da Lua para poder regressar em segurança.

Trajectória

Trajectória

Lua

Lua

A viagem pode demorar mais ou menos tempo, consoante a fase da Lua naquele momento. “A órbita da Lua não é uma circunferência. Ela aproxima-se e afasta-se da Terra. É uma excentricidade que varia entre os 4 e os 7 por cento. Portanto, ou se apanha a Lua mais próxima ou mais afastada. Quer dizer que a viagem demora mais horas ou menos horas consoante isso. Aliás, a viagem de regresso da Apollo 11 foi na casa dos dois dias e tal, enquanto que a de ida foi de três dias. E isso exige muito cálculo das órbitas todas.”

Muita da matemática que foi feita na altura por Katherine Johnson e outros especialistas de Langley teve de ser feita de raiz. E não passa apenas pelo momento do lançamento, mas por todos os pormenores da viagem. “É preciso calcular tudo: a força feita pelos motores, durante quantos segundos é que aquilo trabalha, em que direcção é que realinha a trajectória...Vão entrar na Lua em que posição relativa à Lua? Em que altura vai acontecer a travagem? Isso tem de ser tudo calculado de antemão. E isso naquela altura não era fácil. Hoje já é diferente, porque há muitas coisas pré-calculadas e os sistemas informáticos são rápidos.”

A única mulher na sala de controlo

Se olharmos para as fotografias e vídeos da sala de controlo de missão da NASA nos anos 60 aquilo que vemos é uma amálgama indiferenciada de rostos masculinos, camisas brancas bem aprumadas e gravatas.

Mas no meio de todos eles estava Poppy Northcutt.

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Northcutt também se licenciou em matemática e trabalhou inicialmente como “computer”. Fez cálculos para o programa Gemini — que antecedeu o Apollo — mas o interesse pelas questões espaciais levou-a a especializar-se.

Acabou por subir a engenheira e trabalhar na manobra de regresso dos astronautas à Terra. Foi a responsável por calcular a trajectória que traria os astronautas da Apollo 8 para casa, naquela que seria a primeira missão tripulada a ir à Lua em dezembro de 1968. E trabalharia também na histórica missão Apollo 11 para trazer os astronautas em segurança de volta à Terra.

Com apenas 25 anos (hoje com 75), era a única mulher presente naquele tempo na sala de controlo da NASA. Uma instituição - como tantas outras - totalmente dominada por homens. A começar pelos astronautas.

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Neil Armstrong

Quantas vezes durante a vida pode uma pessoa escapar a um encontro mais do que certo com a morte?

Mais surpreendente do que as vezes que isso aconteceu a Neil Armstrong (e foram muitas, acreditem) era talvez a forma como ele falava delas - como se nada fosse.

Vamos escolher uma, quando em 1956 estava aos comandos de um Boeing B-59 e, de repente, se viu com apenas um dos quatro motores a funcionar. “Uma situação desconfortável…”, diria décadas depois ao recordar esse episódio.

Este é o relato do incidente, feito pelo próprio: “A hélice explodiu, e era o motor situado mais à direita. As lâminas cortaram o motor número 3, cortaram a fuselagem, foram ao motor número 2 e deixaram apenas o motor número 1 a funcionar. Os cabos dos comandos do segundo piloto tinham sido cortados pelas lâminas, não tinham qualquer utilidade. Eu ainda tinha comandos, por isso estava a pilotar o avião. Quando aterrámos e olhámos para o avião descobrimos que os meus cabos também tinham sido cortados, mas ainda haviam alguns fios intatos… Tivemos muita sorte em sobreviver a essa situação.”

O fascínio de Armstrong pela aviação começou bem cedo. Conta-se que o pai o levou com apenas dois anos ao seu primeiro festival aéreo, e o pequeno já então ficara deliciado a ver os aviões passar. Por isso o pai não terá ficado muito surpreendido quando, com apenas 16 anos, tirou a licença de piloto antes mesmo de ter idade para conduzir um carro.

Fez nome na Guerra da Coreia no início da década de 50, onde voou 78 missões de combate, e quando regressou a casa terminou a formação em Engenheira Aeronáutica, a sua paixão de criança, e tornou-se piloto de testes. “Acho que não há nada que ele nunca tenha pilotado. Era um tipo absolutamente fenomenal”, recorda ao Expresso Jay Barbree, o histórico jornalista da NBC que fez a cobertura de todos os voos espaciais tripulados norte-americanos. Ao todo foram 166, desde o histórico voo de Alan Sheppard, o primeiro norte-americano no Espaço, em 1961, até à última missão do Space Shuttle Atlantis em 2011. Reformou-se apenas há pouco mais de um ano.

Jay já andava pelos corredores da NASA quando no final de 1962 Armstrong foi escolhido para a segunda vaga do programa de astronautas. Mas a relação entre os dois aprofundou-se dois anos depois, quando Barbree viveu uma tragédia pessoal muito parecida com a que Neil tinha vivido no mesmo ano em que se tornou astronauta, ao perder a filha de apenas dois anos para um tumor cerebral.

“Depois do meu filho morrer, em 1964, eu vim a um restaurante local e o Neil entrou a seguir. Sentou-se, e quando lhe contei o que tinha acontecido, ele começou a contar-me a história de “Muffy”, a sua filha de dois anos que teve um tumor cerebral e que ele não conseguiu salvar. Penso que ele passou a vida a sentir-se mal por não ter encontrado uma solução para isso, sendo o tipo de pessoa científica que era.”

Esse momento foi o início de uma longa amizade que durou várias décadas, até à morte de Armstrong em 2012. Já depois disso, e em jeito de homenagem, Barbree escreveu o livro “Neil Armstrong - a Life of Flight”, sobre a vida de Neil e a carreira extraordinária no mundo da aviação.

Nele, Jay Barbree descreve as tais inúmeras situações em que Armstrong escapou à morte. Uma delas foi já enquanto astronauta durante o programa Gemini - que antecedeu o Apollo, e que tinha como objectivo treinar a acoplagem de duas naves no espaço. “Depois de ele e Dave Scott terem acoplado com a Gemini 8, a nave começou a girar fora de controlo. Se o Neil não tivesse disparado os propulsores de posicionamento que precisou para parar os que eles chamavam de efeito B-Ring e parar aquele rodopio, ele e Dave teriam morrido e estariam mortos em órbita da Terra.”

Os nervos de aço para decidir em situações limite valeram-lhe a nomeação para comandante da Apollo 11, a missão que iria cumprir a profecia do presidente John F. Kennedy de colocar um homem na Lua até ao final da década de 60. Isso aconteceu em janeiro de 1969, quando foi designado em conjunto com Edwin “Buzz” Aldrin e Michael Collins para fazer parte da tripulação que deveria partir em julho desse ano para o Espaço.

“Ele era o melhor entre os melhores”, garante o amigo Jay. “Tivemos muita sorte de ter sido o homem escolhido para essa missão histórica”.

A caminhada para a História

16 de julho. 4h15 da manhã. Neil, Buzz e Michael acordam para um dia que os irá pôr na História.

Pelas 6h30 da manhã, já devidamente equipados com os seus fatos de astronauta, saem do centro espacial Kennedy em direção ao veículo que os irá transportar para a plataforma 39A, onde o gigantesco foguetão Saturno V os aguarda.

Entre as poucas pessoas que os viram ao vivo a percorrer aqueles metros, a acenar e a sorrir, estava um jovem de trinta e poucos anos chamado John Logsdon. “Eu na altura já estava a fazer a minha tese de doutoramento sobre o presidente Kennedy e o desenvolvimento do programa espacial norte-americano, por isso consegui uma credencial para poder estar ali”, recorda em entrevista ao Expresso.

Logsdon conta agora com 85 anos e garante que aquele é dos momentos da sua vida que nunca mais irá esquecer. “Lembro-me de ter saído de casa muito cedo de manhã para poder estar ali. Vi-os passar mesmo à minha frente, a caminho da Lua. Ter estado lá é uma experiência de vida absolutamente memorável.”

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A contagem decrescente decorre com normalidade, mas poucos minutos depois dos astronautas terem apanhado o elevador para subir ao topo dos mais de cem metros do foguetão Saturno V, um problema é detetado. Há uma fuga numa das válvulas de hidrogénio da terceira fase do foguetão, um problema de resto em tudo semelhante ao que já tinha acontecido durante a missão anterior, a Apollo 10.

O problema acaba por ser resolvido e às 9h32, precisamente à hora marcada, o Saturno V é lançado rumo ao Espaço com a Apollo 11. Estima-se que cerca de um milhão de pessoas terá assistido ao vivo àquele momento nos campos e praias em torno do Cabo Canaveral, mas muitos outros milhões em todo o mundo seguiram em direto pela televisão.

“A memória mais antiga que eu tenho de criança é a de ver o foguetão Saturno V a partir na televisão a preto e branco na sala dos meus pais na casa nos subúrbios sul de Chicago onde vivíamos naquela altura”, garante ao Expresso Richard Jurek, autor do livro “Marketing the Moon - The Selling of the Apollo Lunar Program”. “Ainda me lembro bem que era uma daquelas televisões antigas, com caixa de madeira. E aquele foguetão gigantesco que estava dentro dela impressionou-me”.

Cerca de 2 minutos e 40 segundos após o lançamento, a uma altitude de 67km, o primeiro módulo do foguetão desliga os motores e cairá mais tarde no oceano. O segundo módulo entra então em funcionamento, e o “Launch Escape System” — um dispositivo de emergência que seguia no topo do foguetão para o caso de algo correr mal e a missão ser abortada — também é descartado por já não ser necessário.

A 175km de altitude o segundo módulo é igualmente libertado, ficando apenas o topo do foguetão que leva consigo o Módulo de Serviço e Comando e o Módulo Lunar. E é assim que, cerca de 12 minutos depois do lançamento, a Apollo 11 entra finalmente em órbita da Terra.

A primeira manobra sensível acontecerá cerca de 3 horas e 17 minutos após o lançamento, explica Rui Agostinho, director do Observatório Astronómico de Lisboa. “Na parte final do lançador ia o Módulo de Comando e o Módulo Lunar, que ia atrás encapsulado. O Módulo de Comando tinha de sair, dar uma volta de 180 graus e agarrar o Módulo Lunar, para poderem seguir então viagem a caminho da Lua.”

Apollo 11

Apollo 11

Vamos agora com cerca de 10 horas e 30 minutos depois do lançamento, e o mundo recebe as primeiras imagens vídeo captadas a bordo da Apollo 11. O monitor mostra uma imagem da Terra — uma esfera pintada de azul e um manto branco de nuvens afundada na vasta escuridão do Universo — à medida que a nave se vai afastando em direção à Lua. Os astronautas fazem vários testes para confirmar a qualidade do sinal televisivo que está a ser transmitido para a Terra e preparar as várias emissões previstas para os próximos dias.

As câmaras de televisão começaram a ir a bordo das naves logo desde a Apollo 7 em outubro de 1968, inicialmente perante a relutância dos astronautas e engenheiros que temiam que pudessem de alguma forma pôr em causa a segurança das missões. Mas a NASA percebeu desde cedo que tão importante como ir à Lua era poder mostrar toda a aventura em direto.

“Não seria suficiente fazer a missão, tirar fotos ou vídeos e dias mais tarde, depois de regressarem, mostrar isso ao mundo. Era preciso levar o mundo com os astronautas”, explica o autor americano Richard Jurek. “As pessoas ficaram coladas às televisões e às rádios durante aqueles dias, porque, enquanto os astronautas estavam a ir à Lua, todos estavam a ir à Lua com eles. Ao adotar essa posição de abertura, a NASA humanizou o programa espacial, tornou-o algo à volta do qual pessoas de todo o mundo se podiam unir.”

E foi assim que, muitos anos antes de sequer existir internet ou redes sociais, a missão da Apollo 11 foi, de certa forma, o primeiro grande acontecimento viral da Humanidade. Mais de 600 milhões de pessoas iriam assistir em directo Neil Armstrong tornar-se no primeiro homem a pisar a Lua.

Terra vista da Apollo 11 à medida que se vai afastando em direcção à Lua FOTONasa

12 minutos e 32 segundos dramáticos

A Apollo 11 vai perdendo velocidade à medida que se vai afastando da Terra e perto de 73 horas depois do lançamento entra finalmente em órbita da Lua.

“Achei que tínhamos 90% de hipóteses de regressar à Terra em segurança, mas apenas 50% de hipóteses de fazer uma aterragem bem sucedida.” As palavras são de Neil Armstrong, comandante da Apollo 11, anos depois de se ter tornado o primeiro homem a pisar a Lua.

“Havia tantos fatores desconhecidos nessa descida da órbita lunar até à superfície que nunca tinham sido testados, por isso havia uma grande probabilidade de acontecer algo que simplesmente não tínhamos previsto e que nos podia forçar a abortar a missão.”

Módulo Lunar, depois de se ter separado do Módulo de Comando para descer até à Lua FOTONasa

A 20 de julho de 1969, domingo, tem início o programa de televisão mais longo da história, com o mundo a assistir em suspenso.

O Módulo Lunar “Eagle”, com os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin a bordo, separa-se do Módulo de Comando para iniciar a derradeira e arriscada descida para a Lua. Collins, o terceiro elemento da tripulação que permanecerá em órbita da Lua, inspeciona o Módulo através da sua janela para verificar se não há qualquer problema visível na estrutura que possa vir a comprometer a manobra de aterragem.

A nave de formato aparentemente estranho foi concebida para ser o mais funcional possível, em especial no que toca ao peso, explica Rui Agostinho, astrofísico e diretor do Observatório Astronómico de Lisboa: “Aquele módulo esférico nem tem cadeiras para os astronautas se sentarem, eles vão em pé. É uma questão de peso. Foi desenhado para ser o mais leve possível, por causa do combustível e para dar prioridade aos outros sistemas de controlo e de apoio à vida. O módulo era constituído por duas fases, cada uma delas com a sua função no momento da aterragem e da descolagem na superfície lunar.”

Módulo Lunar Eagle

Módulo Lunar Eagle

John Logsdon, o fundador do Space Policy Institute em Washington, pode ter visto os astronautas passar mesmo à sua frente no dia em que seguiam a caminho do foguetão para o lançamento no Cabo Canaveral, mas no histórico dia da chegada à Lua não teve a mesma sorte. “No dia da aterragem tinha logo de falhar a luz no meu apartamento”, recorda ao Expresso cinquenta anos depois. “Tive de ir a correr para casa de um amigo meu para não perder a alunagem!”

A descida da nave até à superfície da Lua iria demorar cerca de 12 minutos e meio, e os problemas começaram logo no início. As comunicações falharam entre a “Eagle” e Houston, e o Controlo de Missão fica em suspenso durante alguns segundos para saber se terá ou não de abortar.

Em seguida, um alarme surge no computador - “1202”. Durante alguns segundos, nem os astronautas nem Houston sabem do que se trata.

Momentos depois, nota-se tensão na voz de Armstrong:

— “Deem-nos uma leitura sobre o alarme 1202.”

A indicação que chega de Houston é para continuar.

“Percebeu-se em Terra que o computador a bordo do Módulo Lunar estava a ser sobrecarregado com dados, mas que isso não punha em causa as operações vitais do computador para aquela missão”, recorda o astrónomo e entusiasta do Espaço José Augusto Matos.

Mas um novo problema estava prestes a apresentar-se. O Módulo Lunar tinha estado a voar a uma velocidade ligeiramente superior ao estimado inicialmente, e o computador de bordo estava a levar os astronautas para uma cratera com rochas “do tamanho de carros”, recordaria mais tarde Armstrong. O comandante da Apollo tem de assumir o controlo da nave, e escolher um novo local de aterragem.

O combustível começa agora a escassear. Armstrong relata nas comunicações que o motor da nave começa a levantar pó na superfície. Faltavam apenas 16 segundos para o combustível chegar ao fim.

Às 21 horas e 18 minutos, hora portuguesa, faz-se finalmente história, com as palavras do comandante Armstrong a confirmarem finalmente o momento:

— “Houston, The Eagle has Landed”

Cerca de seis horas e meia depois da aterragem, Armstrong abre a escotilha para o exterior e pela primeira vez um ser humano toca um outro mundo para além da Terra.

Seiscentos milhões de pessoas em todo o mundo assistem em direto a este momento pela televisão.

“Lembro-me muito bem. Tinha 5 anos e sabia que era uma acontecimento gigantesco. Teve um grande impacto não apenas na minha infância. Inspirou-me e, mais importante do que isso, ensinou-me a sonhar e a sonhar alto”, conta ao Expresso Dava Newman, antiga vice-administradora da NASA.

Fato Astronautas

Fato Astronautas

Vinte minutos foi o tempo que Neil Armstrong esteve sozinho na superfície lunar antes de Buzz Aldrin se juntar.

— “É melhor ter cuidado para não fechar a porta”, brinca Buzz.

Armstrong solta um riso na Lua: “É uma ideia particularmente boa”.

E quando Aldrin finalmente desce as escadas e coloca os pés em solo lunar, Armstrong pergunta-lhe:

— “Não é incrível? Cá fora é uma vista magnífica.”

E Buzz, inspirado, responde: “Magnífica desolação”.

O astronauta Buzz Aldrin junto à bandeira dos Estados Unidos que a tripulação da Apollo 11 colocou na Lua FOTONasa
A placa que a Apollo 11 deixou na Lua, onde está escrito: “Aqui os homens do planeta Terra pisaram a Lua pela primeira vez. Viemos em paz por toda a Humanidade. Julho 1969” FOTONasa
Buzz Aldrin desce as escadas do Módulo Lunar, e torna-se o segundo ser humano a pisar a Lua FOTONasa
Pormenor de um dos quatro pés do trem de aterragem do módulo lunar FOTONasa
Buzz Aldrin fotografado por Neil Armstrong, visível no visor do astronauta FOTONasa
Grande plano de pegada de Aldrin deixada durante a caminhada lunar, tirada com a câmara de 70mm usada por Neil Armstrong no passeio lunar FOTONasa
Aldrin carrega duas das experiências científicas que a Apollo 11 levou até à Lua FOTONasa
Fotografia do módulo lunar tirada por Neil Armstrong junto a uma cratera no Mar da Tranquilidade FOTONasa
Presidente norte-americano Richard Nixon discursa perante os astronautas no porta-aviões USS Hornet, que recuperou a tripulação da Apollo 11 do Pacífico após o regresso à Terra FOTONasa
Neil Armstrong a tocar um ukelele dentro da unidade de quarentena onde os astronautas passaram 17 dias após regressarem da Lua FOTONasa

A Apollo 11 regressaria à Terra em segurança três dias depois, a 24 de Julho. A cápsula que leva a bordo Armstrong, Aldrin e Collins cai no Pacífico e os astronautas são recebidos como heróis a bordo do navio USS Hornet pelo presidente Richard Nixon, que afirma “Esta é a maior semana no mundo desde a Criação. Porque, em virtude dos acontecimentos desta semana, o mundo está infinitamente maior.”

Um pequeno passo para Pataias

No dia em que o Homem chegou à Lua o Telejornal da RTP, o único canal de televisão que existia na altura, abriu com a notícia da inauguração de uma fábrica de cimentos em Pataias.

“Havia uma instrução permanente que o Telejornal devia abrir com as notícias da agenda do presidente da República, Américo Tomás. Costumávamos dizer que dessa forma podia até começar a Terceira Guerra Mundial e a primeira notícia que tínhamos de dar é a do Presidente da República”, recorda ao Expresso o advogado Jaime Nogueira Pinto, que naquela altura integrava a equipa do Telejornal da RTP.

Mas, na noite do acontecimento, o jornalista José Mensurado protagonizou uma maratona televisiva histórica de 18 horas em direto para acompanhar a chegada da Apollo 11. Mensurado ia seguindo pelos auscultadores os comentários do conhecido jornalista norte-americano Walter Cronkite, da CBS, a partir dos quais iam fazendo o relato para os portugueses.

Mas, mesmo assim, no Portugal de julho de 1969 há quem não acredite na histórica alunagem. Disso fazem eco os jornais, em particular a edição do “Diário Popular” de 24 de julho, o dia em que os três astronautas iriam regressar à Terra. O jornal publica um inquérito de um leitor feito em Murches, no concelho de Cascais, terra que até “tem o seu sorriso de civilização”, lê-se no início da crónica. Mas um sorriso ténue…

“Fazem aquele papel para meter medo aos mais pequenos. Chegam lá tanto como eu! Fazem aquele papel para os jornalistas, para o cinema, para a televisão e para eles ganharem dinheiro! Dizem meia dúzia de mentiras e todos acreditam. Mas eu não vou em cantigas!”

No dia anterior, o mesmo jornal publica uma entrevista de rua a várias crianças, entre elas Maria Teresa Bentes, de 13 anos, que, tal como tantos milhares de portugueses, ficou acordada toda a madrugada para ver os primeiros passos de Armstrong na Lua. “Vi os primeiros passos do Homem no planeta satélite. É fantástico. Fiquei a olhar para a Lua e pensei que o facto dos homens lá irem parece fantasia”, dizia na altura a jovem.

Cinquenta anos depois, o Expresso encontrou-a.

Maria Teresa é médica e continua a viver em Lisboa. “Ainda me lembro dessa entrevista, fui apanhada pelo repórter no Cais do Sodré quando ia a caminho da praia no Verão”, disse ao Expresso num contacto telefónico.

“Sei que fiquei toda a noite acordada para ver em direto, estive a ver com os meus pais. Foi um dia até complicado para a minha família, porque houve um acidente de automóvel com um tio meu. Era uma sensação um pouco de irrealidade, de pensar como é que aquilo era possível? E ao mesmo tempo um sentimento de alívio depois ter acabado tudo bem.”

Astronauta XX

Não se sabe ao certo quem será, mas parece existir para já uma certeza: será uma mulher o próximo ser humano a pisar a Lua.

Numa escolha simbólica, a NASA decidiu dar o nome de “Artemis” - a irmã gémea de “Apolo” na mitologia grega - ao seu novo programa lunar. O objectivo agora é voltar à Lua em 2024.

Mas porquê só agora? E porque é que, durante quase meio século, a Humanidade nunca mais se interessou pela Lua?

Para Richard Jurek, a história começou a mudar praticamente minutos depois da chegada da Apollo 11. “A narrativa mudou radicalmente. No momento em que Buzz Aldrin descreveu a superfície da Lua como 'Magnífica Desolação' tornou-se claro para todos os que estavam a assistir que não havia vida, não encontrámos petróleo ou ouro. Não havia homenzinhos verdes atrás das rochas que fossem partilhar connosco os segredos do Universo. Passou de uma história de exploração e drama humano para uma história de geologia. Tornou-se numa história de ciência”, afirma o autor do livro “Marketing the Moon — the Selling of the Apollo Lunar Program”.

Jurek defende também que a televisão não só ajudou a construir a narrativa de uma grande aventura espacial, como também a desfazê-la. “A outra coisa que aconteceu com a cobertura televisiva em direto é que a exploração espacial não tinha nada a ver com o que as pessoas se tinham habituado a ver em Star Trek e em séries do género. Tinha muitos números à mistura, muitos períodos longos de tempo em que nada acontecia, e era relativamente aborrecido… E apesar do facto de já existirem câmaras a cor, muito daquilo era a preto e branco. O drama e o romance também se desvaneceram. Começou a tornar-se muito difícil voltar a ter uma audiência global alargada quando a realidade da exploração espacial superou a expectativa romantizada que tinha sido construída na cabeça das pessoas através da ficção científica, e do salto para o desconhecido que, pelo menos inicialmente, o programa Apollo representou. Quando a ficção científica se tornou facto científico, o interesse mudou dramaticamente.”

O programa Apollo acabaria por ter mais 6 missões de exploração lunar, que fizeram experiências científicas importantes e levaram mesmo veículos motorizados à Lua, mas as últimas três missões que chegaram a estar previstas acabaram por ser canceladas.

Foto de rover lunar durante a missão da Apollo 17 FOTOGetty Images

“Na altura as missões Apollo entraram na rotina. O público começou a perder o interesse, mas o interesse político também morreu porque o grande objetivo era chegar à Lua primeiro que a União Soviética. A partir do momento em que foi alcançado, o poder político perdeu o interesse em manter a Apollo. Tinha mostrado que os americanos eram superiores, e tinham vencido a corrida espacial”, afirma o astrónomo José Augusto Matos.

Mas há quem sublinhe também o importante legado do programa Apollo na sociedade e na economia americana, como Richard Jurek: “Muitos dos industriais milionários do presente - Jeff Bezos, Elon Musk, Bill Gates - todos eles são “filhos de Apollo”, que foram beneficiados diretamente pelos investimentos feitos na economia americana para avançar a tecnologia, as comunicações, o software e outras indústrias paralelas que foram necessárias para nos levar até à Lua. E que avançaram rapidamente, porque 4% do PIB americano foi investido nessa base industrial, só para nos pôr na Lua. Na minha opinião, o programa Apollo é responsável por acender a chama da Quarta Revolução industrial, que nos conduziu a esta sociedade dominada pela tecnologia na qual vivemos hoje.”

Uma selfie na Lua

Ao contrário dos anos 60, que assistiram a um brutal investimento público do Estado motivado por razões políticas e geoestratégicas, a corrida ao Espaço é agora protagonizada por interesses privados.

Dava Newman, antiga vice-administradora da NASA, sublinha que “nunca mais vamos ter ao nosso dispor os orçamentos que tivemos durante o programa Apollo. Precisamos de um novo modelo. De tornar os lançamentos muitos mais comportáveis economicamente.”

Newman duvida ainda da meta de 2024 estabelecida pela administração Trump para regressar à Lua.”Os planos técnicos e a estratégia ainda não estão consolidados, bem como o orçamento. Eu gosto do prazo, e acho que deveríamos ir lá o mais depressa possível, mas tudo teria de se conjugar. Os orçamentos, a liderança e a tecnologia. E também penso que deveria ser um plano com parcerias globais. É necessário uma estratégia séria e um plano de missão que não existe neste momento. Era preciso que tudo se alinhasse, mas neste momento simplesmente não vejo um plano forte de que precisávamos. Quatro ou cinco anos não é muito tempo. Por exemplo, ainda não temos os fatos, não temos esse investimento em fatos espaciais avançados.”

E defende que ir à Lua só deve ser feito com o objetivo de olhar para Marte, que será a nova missão “impossível” da Humanidade, tal como a Lua o foi nos anos 60. “O horizonte para a exploração espacial tem de ser Marte. Pegar na coisa mais incrível e impossível que se possa pensar - tal como o programa Apollo fez nos anos 60 com a Lua - e fazer isso acontecer. Para esta geração, esse objetivo tem todos os ingredientes que a Apollo tinha naquela altura. Temos de passar a década de 2020 a explorar na Lua e investir na tecnologia, porque neste momento não temos a tecnologia para ir a Marte. Precisamos do lançador, os fatos espaciais, sistemas de suporte de vida para missões de longa duração e protecção de radiação, que é o grande desafio de viagens longas como Marte.”

Mas enquanto Marte não chega, e cinquenta anos depois dos históricos primeiros passos de Neil Armstrong, o astrónomo Rui Agostinho olha para a Lua com um outro potencial nos anos que se avizinham. “Num futuro próximo pode ser possível fazer uma viagem à Lua para turistas. O Elon Musk já fala disso. Não é aterrar na Lua, porque isso é complicado. Mas fazer uma viagem, dar três voltinhas à Lua, fazer selfies e voltar à Terra. Isso é realizável. E vai ser realizável dentro de poucos anos.”

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Podcast

“Magnífica Desolação”, afirmou o astronauta Buzz Aldrin ao ver a superfície lunar pela primeira vez a 20 de julho de 1969. Aldrin foi o segundo homem a pisar a Lua, e fez parte da histórica tripulação da Apollo 11, juntamente com Neil Armstrong e Michael Collins.

Meio século depois, entramos novamente a bordo da Apollo e seguimos, dia após dia, a maior aventura da história da Humanidade. Acompanhamos as comunicações entre os astronautas e Houston, ouvimos o testemunho de quem viveu de perto aqueles momentos, a explicação de especialistas e entusiastas do Espaço, mas também histórias menos conhecidas da viagem que marcou o século XX.

Ao todo são 12 episódios, publicados entre 15 e 26 de julho, no site do Expresso e nas plataformas online de podcasts - iTunes, Spotify e Soundcloud. Clique na imagem para ouvir

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Reportagem multimédia e podcastJoão Santos Duarte Imagem de capaJaime Figueiredo, Joana Beleza e Tiago Pereira Santos InfografiaJaime Figueiredo Imagensgetty Images e Nasa VídeosExpresso e Youtube Web DesignTiago Pereira Santos Web DeveloperMaria Romero LegendagemRUBEN TIAGO PEREIRA DobragensCARLOS PAES, DIOGO POMBO, FILIPE GARCIA,JAIME FIGUEIREDO, JOÃO MELANCIA, JOÃO CARLOS SANTOS, JOANA BELEZA, JOSÉ CEDOVIM PINTO, LÍDIA PARALTA GOMES, PAULO LUÍS DE CASTRO, PEDRO CANDEIAS, RITA TEIXEIRA e RUBEN TIAGO PEREIRA Coordenação editorialJoana Beleza DireçãoJoão Vieira Pereira AgradecimentosAntónio Martins, Mundo Dos Tijolos - Loja especializada em Lego
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