O Jogo do Mata (a sério) chegou a Portugal

Faça scroll

Simão Carrola salta para fugir de uma bola, sob o olhar de Rita Fachada

Simão Carrola salta para fugir de uma bola, sob o olhar de Rita Fachada

O desporto que David Cardoso trouxe da Irlanda tem uma árvore genealógica que passa por Homero, por um treino de guerreiros em África, por um colégio em Norfolk, por um filme de comédia de 2004 com Ben Stiller e um mito sobre cabeças decapitadas na China. Em Portugal, o dodgeball encontrou um público que já lhe conhecia a lógica de outro lado: a do jogo do Mata, que se joga nos recreios há gerações. São jogos diferentes, mas que partilham a mesma ideia simples, primária e universal de fugir a uma bola antes que ela nos apanhe

SETEMBRO DE 2026

Ninguém sabe ao certo quando começou o dodgeball, e talvez a pergunta nem faça sentido: a ideia de duas equipas e uma bola a decidir quem fica de pé é simples demais para ter nascido uma única vez, num único lugar. 

Os relatos mais antigos remontam à Grécia, ao Episkyros, um jogo do qual quase tudo o que sabemos vem de um só testemunho tardio, escrito séculos depois pelo erudito Júlio Pólux, com uma referência de passagem na Ilíada. Circula também, sem grande consenso entre historiadores, uma origem com menos verniz e mais agressividade à mistura: um exercício de treino de guerreiros africanos, disputado à pedrada, ensinado há mais de 200 anos para preparar o corpo a esquivar antes de o ensinar a atacar. 

Mas a versão que a maioria dos relatos aponta como ponto de partida do desporto que hoje se joga é vitoriana: um missionário britânico, Dr. James Carlisle, terá trazido de África - de um país que a história não registou - uma variante modificada e sem o risco de partir ossos, até ao St Mary's College, em Norfolk, no Reino Unido. Jogava-se ao ar livre, com pequenas bolas de borracha semelhantes às do squash, e os jogadores só eram eliminados depois de vários acertos, não de um só. Em 1884, o jogo chegou à universidade norte-americana de Yale, onde começou a ganhar a forma que reconhecemos. Foi em 1905 que se fixou a regra que ainda hoje define a modalidade: um acerto elimina, apanhar a bola devolve o jogador ao campo.

Ao longo do século XX o dodgeball tornou-se um clássico das aulas de educação física. Era um jogo de aquecimento, quase esquecido enquanto desporto competitivo. Foi um filme de comédia, em 2004, que lhe devolveu a competitividade e o disseminou pelo resto do mundo. “Dodgeball: A True Underdog Story”, com Vince Vaughn e Ben Stiller, sobre um grupo de desajustados que tenta salvar o seu ginásio ao vencer um torneio de dodgeball em Las Vegas, foi um sucesso de bilheteira que deu à modalidade uma visibilidade internacional, que já existia em ligas nos Estados Unidos e no Canadá, mas nunca à escala que se seguiu. 

Cartaz do filme de 2004, protagonizado por Vince Vaughn e Ben Stiller

Cartaz do filme de 2004, protagonizado por Vince Vaughn e Ben Stiller

O filme acabou por ser responsável também por uma quarta lenda da origem, hoje repetida online como se fosse verdade: a de que o dodgeball teria nascido na China há mais de 3000 anos, com guerreiros a treinar a esquiva atirando uns aos outros cabeças decapitadas. A cena existe no filme, como paródia de um documentário histórico, mas é pura ficção.

O “VELHINHO” JOGO DO MATA

Em Portugal, nada disto era preciso para que o jogo soasse familiar. 

Nos recreios das escolas joga-se há gerações uma versão sem regras escritas chamada Jogo do Mata, com a mesma ideia central: fugir da bola antes que ela nos apanhe. É precisamente essa comparação que David Cardoso, de 41 anos, presidente da Associação Portuguesa de Dodgeball (APDB) e selecionador nacional, costuma usar para explicar a modalidade a quem nunca o viu: “O dodgeball é um jogo muito parecido com o nosso jogo do ‘Mata’, no entanto, com algumas particularidades.” 

As diferenças, explica, não são de todo menores. Um campo com as dimensões de um campo de voleibol, seis jogadores de cada lado, cinco bolas ativas em simultâneo, uma “caixa” oficial para onde vão os eliminados, e a possibilidade de regressarem ao jogo se um colega de equipa conseguir agarrar, no ar, uma bola lançada pelo adversário. 

Foi essa versão codificada, internacional, com regras escritas e federação mundial, que David conheceu longe de Portugal e que, ao trazê-la para cá, encontrou um público que já lhe reconhecia a lógica de outro lado, sem nunca lhe ter chamado dodgeball.

UM PORTUGUÊS NA IRLANDA, UM VÍRUS, E UM REGRESSO QUE NÃO DEVIA SER DEFINITIVO

David Cardoso já estava emigrado na Irlanda, há dois anos, quando tomou contacto com a modalidade pela primeira vez, em 2015. “O meu background é tecnologia, estava a trabalhar como programador informático”, conta. Foi lá que descobriu o dodgeball, onde o praticou e o levou a sério a ponto de se tornar internacional pela seleção irlandesa. Era, nessa altura, apenas isso: um hobby de emigrante, uma forma de pertencer a um sítio que não o seu.

O que o trouxe de volta a Portugal não foi o dodgeball. “Quando se dá a pandemia, estou em Portugal a apoiar a família devido a problemas de saúde e acabo por ficar confinado aqui”, recorda. Não estava nos planos ficar. Mas os planos, em 2020, não estavam nas mãos de ninguém. David ficou e, ao ficar, começou a estabelecer-se: “Começo, obviamente, a falar sobre o meu hobby a toda a gente.” 

Tinha, por acaso, trazido consigo algum equipamento de treino, um resquício da sua vida de atleta internacional na Irlanda. Foi com essas bolas que começou a mostrar o jogo a um pequeno grupo de amigos, em Miranda do Corvo. “Alguns deles começaram a ficar curiosos e queriam experimentar”, diz. “Gostaram, e o bichinho ficou.”

Campo

O campo de Dodgeball deve ter as dimensões de 18mx9m

Equipas

Cada equipa tem 6 jogadores do mesmo género ou mista. 


Bolas

São usadas 6 bolas no total, alinhadas na linha central antes do início do jogo. As bolas podem ser de espuma (17,8 cm de diâmetro) ou de borracha (21,6cm)

Início

Os jogadores começam atrás da sua linha de fundo. Ao sinal do árbitro, correm até ao centro para apanhar as bolas. Não se pode lançar uma bola imediatamente. É preciso levá-la primeiro para trás da "linha de ataque" da sua própria equipa antes que ela fique ativa para o jogo.

Como eliminar um adversário

Um jogador é eliminado e tem de sair do campo se:

For atingido: Uma bola lançada por um adversário acerta-lhe no corpo ou na roupa (sem tocar antes no chão, teto ou paredes) e cai no chão.

For apanhada: O jogador lança uma bola e um adversário apanha-a no ar antes que ela toque no chão. Nesse caso, o lançador é eliminado e o jogador eliminado há mais tempo da equipa que apanhou a bola pode reentrar no campo.

Bloqueio e Defesa

Podes usar uma bola que tenhas nas mãos para bloquear o lançamento de um adversário.

Se a bola adversária bater na tua bola e cair no chão, estás salvo. Contudo, se deixares cair a bola que estavas a usar para te defender devido ao impacto, estás eliminado.

Linhas e Tempo

Falta de Linha: Se um jogador pisar fora dos limites do campo ou pisar o lado do campo adversário, é eliminado.

Vitória: O jogo termina quando uma equipa eliminar todos os 6 jogadores da equipa adversária, arrecadando um ponto. Os jogos oficiais são divididos em duas partes de 20 minutos, onde se jogam tantas partidas (sets) quantas o tempo permitir.

No final de 2022, o grupo decidiu ir a um torneio, só para ver como corria. Não correu bem no marcador – “percebeu-se que o nível era completamente diferente” -, mas correu bem no essencial: ninguém voltou com vontade de desistir. Pelo contrário. “Viemos todos com vontade de fazer mais e fazer melhor.” No início de 2023 começaram a treinar semanalmente, e foi aí, lembra David, “que começou a surgir a ideia de fazer as coisas como deve ser.” Fundaram a Associação Portuguesa de Dodgeball (APDB), com sede em Miranda do Corvo, o órgão que passou a organizar a modalidade em Portugal. E fundaram também um clube: os Ravens.

A história do nome tem a sua própria piada interna. “Não tínhamos nome, não tínhamos equipamentos”, recorda, sobre a preparação para aquele primeiro torneio. “Começámos a brincar com o nome de Miranda do Corvo, que é a nossa terra, e depois procurámos um nome que fosse fácil de explicar a nível internacional.” Corvo, em inglês, tanto pode ser “crow” como “raven”. Gostaram mais do som do segundo. Ficaram os Ravens.

O QUE SE ENSINA PRIMEIRO: FUGIR, NÃO ATACAR

Como treinador, a primeira coisa que David Cardoso ensina a um recém-chegado não é a rematar. É a fugir. “O básico do jogo é fugir da bola”, resume. “Coisas tão básicas como tirar o corpo todo do sítio onde está inicialmente é o que se ensina primeiro. Não queres estar sempre em movimento, mas queres estar sempre pronto para te movimentares.” Só depois vêm a técnica de remate e a técnica de catch, ensinadas cedo, explica, não tanto pela vantagem competitiva, mas para prevenir lesões e evitar que os principiantes fiquem com medo da bola.

David Cardoso, presidente da Associação Portuguesa de Dodgeball e selecionador nacional

David Cardoso, presidente da Associação Portuguesa de Dodgeball e selecionador nacional

Porque mazelas também as há: a mais comum ocorre precisamente na receção da bola, quando os dedos ficam mal posicionados no catch. Seguem-se entorses e problemas nos joelhos, associados às mudanças de direção mais bruscas, e dores nos ombros, braços e costas provocadas pelo remate repetido do braço dominante. David é taxativo sobre o que previne tudo isto: “Fazemos sempre aquecimentos cuidados e promovemos o fortalecimento destas zonas.”

Perguntado se o mais importante no dodgeball é a força ou a destreza, não hesita: “É um desporto onde a força ajuda, mas a agilidade e a destreza provavelmente vão permitir alcançar melhores resultados, porque é necessária a sobrevivência muito antes daquela capacidade de rematar à distância.” E há aqui uma frase que ajuda a marcar a distância entre a versão de recreio e o desporto federado: “Nós, a jogar ao ‘Mata’, jogávamos com uma bola e não se notava. Com múltiplas bolas, o trabalho em equipa, o remate em conjunto que consiga atingir o objetivo, é muito mais eficiente do que o remate isolado.” 

É por isso que as equipas comunicam através de um call system interno, orientado por um ou dois jogadores, designados callers, que decidem, em tempo real, quantas bolas atacar e a quem. Normalmente há mais do que um caller por equipa, “porque a probabilidade desse jogador não ficar até ao fim é muito grande.”

Rita Fachada (de costas) durante o treino dos Ravens, em Penela

Rita Fachada (de costas) durante o treino dos Ravens, em Penela

Nos jogos de competição há até seis árbitros em campo: dois centrais, responsáveis pela gestão geral do jogo, e quatro de linha, um em cada canto, a ajudar a decidir falsas partidas, hits duvidosos e situações que, à velocidade do jogo, escapariam a apenas dois pares de olhos. Sobre as diferenças entre géneros, o selecionador nacional nota que se esbatem à medida que o nível técnico sobe: “Quando já há uma boa compreensão do jogo, começa a haver uma menor diferenciação entre os géneros.” Ainda assim, identifica um padrão: os homens tendem a ser mais explosivos e agressivos no remate; nas mulheres, a capacidade de agarrar a bola - incluindo mergulhar no chão para a apanhar - costuma surgir de forma mais natural.

UM TÉCNICO AGRÍCOLA, UMA DELEGADA DE INFORMAÇÃO MÉDICA, UM INVESTIGADOR DE CRIME FINANCEIRO

O plantel dos Ravens não parece, à primeira vista, uma seleção nacional. Parece antes uma lista de profissões: Henrique (26 anos), engenheiro informático; Simão Carrola (23), técnico agrícola; David Oliveira (25), engenheiro eletrotécnico; Ruben (31), investigador de crime financeiro; João Vaz (25), engenheiro informático; André Dias (24), biólogo; Rui Cardoso (48), técnico de informática; Edgar Duarte (25), engenheiro informático; Rui Rodrigues (28), desenvolvedor web; Rita (269, investigadora; Carolina Conde (28), delegada de informação médica e David Cardoso (41), que joga dodgeball há 12 anos e é, ao mesmo tempo, presidente da associação, selecionador nacional, treinador e jogador. Um acumular de chapéus que faz troça de si próprio: “Costumo dizer, em tom de brincadeira, que o que quero é que eles cheguem todos ao nível em que eu posso ser só o treinador e o cheerleader.” A idade mínima no plantel é 16 anos - uma rapariga -, e a máxima, 48.

Os jogadores a correr para ir buscar a bola no início de um jogo

Os jogadores a correr para ir buscar a bola no início de um jogo

São sete da tarde e no Pavilhão Multiusos de Penela há gente de joelhos a marcar as linhas do campo com fita adesiva e a pendurar redes para que as bolas perdidas não vão parar às bancadas. 

Chegaram quase todos ao mesmo tempo, muitos em boleias partilhadas, e fazem o aquecimento a rir, atirando bolas uns aos outros enquanto trocam as primeiras impressões sobre a semana. David Cardoso, apito ao pescoço, manda dividir o grupo para irem a jogo. Fica um de fora, sem discussão, e os restantes já estão em posição, prontos para o “combate”.

É aí que se percebe porque é que ninguém em Portugal precisa de manual de instruções para perceber o jogo.

Os mais novos arriscam saltos acrobáticos para se desviarem da bola; outros preferem apurar a técnica de a agarrar, quase sempre sem sucesso; há quem se atire ao chão para a deixar passar por cima, e quem use a própria bola que tem na mão como escudo. A meio de uma dessas jogadas, é Henrique Silva quem quase mergulha para tentar um catch e falha por centímetros. Um género de lance que, ao fim de três anos e alguns torneios internacionais, ainda o faz rir da própria falha. 

Entrou no clube “antes de haver Ravens ou Associação”, por convite de amigos, numa altura em que só tinha jogado andebol e nunca dodgeball a sério: “A parte técnica do remate ajudou bastante nos primeiros momentos”, diz, “mas a parte tática, os movimentos de catch, é muito diferente.” Continua a achar a modalidade imprevisível ao ponto de o prender, porque “pode uma equipa dominar o jogo e haver um momento decisivo em que alguém agarra a bola e elimina quem rematou”. De repente, prossegue, “entra mais um jogador e o jogo fica mais equilibrado; é sempre até ao último momento”. Reconhece, sem drama, que o dodgeball português está “numa fase muito de incubação” quando comparado com o que já viu lá fora.

Rui Rodrigues e Rúben Fernandes (em 2º plano) tentam acertar com a bola nos adversários

Rui Rodrigues e Rúben Fernandes (em 2º plano) tentam acertar com a bola nos adversários

Do outro lado do campo é fácil identificar Rita Fachada mesmo sem saber o seu nome: desvia-se da bola com um movimento seco de anca, quase sem sair do lugar. “No dodge sinto-me confortável", explica mais tarde, já fora do jogo, “mas tenho de melhorar o catch”. Entrou há três anos, por insistência de um vizinho que já treinava. Já vestiu a camisola de Portugal no Campeonato Europeu e, este ano, no World Beach Championship. É também a mais direta a apontar o que falta: mais raparigas, para poder haver equipa feminina, mais patrocinadores, e sobretudo mais competição em Portugal. “Há vários patamares, e isso nota-se quando estamos lá fora”, realça, admitindo que a parte mais dura do treino não é técnica - “é a caixa, é o cardio, isto puxa muito.”

No fundo do campo de jogo há uma jogadora que hesita mais do que os outros: é Carolina Conde, a chegada mais recente ao clube. Leva pouco mais de um mês de treinos. Foi convidada por Rita, sua vizinha. Veio sem saber nada sobre o que a esperava – “nem fui pesquisar, fiz mesmo questão de vir à descoberta” - e admite que a primeira impressão assustou: “As bolas a voarem de um lado para o outro.” Bastaram dois treinos para ficar agarrada, ao ponto de não querer sair do pavilhão - “Já são nove da noite, já acabou? Não vamos jogar mais um bocadinho?” Delegada de informação médica, garante que vai continuar, “100%”.

O QUE FALTA: PAVILHÕES, PATROCÍNIOS E MAIS PRESENÇA FEMININA

O crescimento tem sido feito apesar dos obstáculos, não graças a eles. A tempestade Kristin danificou parte das infraestruturas dos Ravens em Miranda do Corvo, obrigando o clube a reduzir os treinos dos três para dois por semana, uma limitação sentida sobretudo na preparação mais contínua para as competições internacionais. “Felizmente, aqui no município vizinho, em Penela, vão-nos facilitando o acesso ao pavilhão, para que possamos manter os treinos regulares”, nota David.

A equipa dos Ravens é mista e treina duas vezes por semana

A equipa dos Ravens é mista e treina duas vezes por semana

O financiamento é outro ponto sensível: sem competição interna relevante em Portugal, todas as participações internacionais são custeadas pelos próprios atletas, com apoio pontual de pequenas empresas locais, câmaras municipais e juntas de freguesia. A APDB, por opção, não cobra quotas às equipas para não travar a criação de novos clubes; aos atletas, cobra apenas o mínimo necessário para pagar as infraestruturas de treino.

Para o futuro próximo, David trabalha em três frentes. A primeira é a formalização do dodgeball como desporto escolar. “A base vai passar pelas escolas. Já jogamos ao Jogo do mata; se conseguirmos formalizar como modalidade, conseguimos passar a ter um desporto escolar.” A segunda é, simplesmente, mais gente: sessões abertas ao público, mais equipas noutras zonas do país, à semelhança do que aconteceu em Alcochete. Já houve sessões em escolas de Aveiro, e está um novo núcleo a nascer perto de Vila Nova de Gaia, com jogadoras que já praticaram andebol, uma modalidade que “traz muitas skills que permitem às pessoas entrarem mais facilmente” no dodgeball. A terceira é a questão feminina: sem atletas suficientes, Portugal continua sem conseguir formar uma equipa só de mulheres para competições femininas ou mistas em maior escala.

O CRESCIMENTO DE UMA MODALIDADE COM POUCO MAIS DE 40 ATLETAS EM PORTUGAL

Hoje, Portugal tem dois clubes oficiais de dodgeball: os Ravens, em Miranda do Corvo, com 25 a 30 atletas ativos, e o Vulcanense Alcochete Dodgeball, no distrito de Setúbal, nascido no final de 2025 como secção do Vulcanense Futebol Clube.

É pouco, e David sabe-o melhor do que ninguém, sobretudo quando compara com o que viu lá fora: "Posso dizer que uma Bélgica, uma Holanda, já contam com umas centenas de atletas, e nós aqui, entre os dois clubes, neste momento, se calhar estamos a falar de 40 a 50 pessoas, enquanto nesses locais já conseguem ter ligas com oito ou nove equipas", acrescenta.

Os jogadores dos Ravens a treinar o ataque

Os jogadores dos Ravens a treinar o ataque

Ainda assim, o pequeno grupo português “tem conseguido surpreender lá fora”, descreve David, com satisfação mal disfarçada. A primeira saída internacional aconteceu ainda antes de a associação existir formalmente: outubro de 2022, Sport Fest Poreč, na Croácia. Nos anos seguintes vieram torneios em Itália e na Irlanda, dois Campeonatos da Europa e uma estreia em Campeonato do Mundo, em Graz, onde Portugal terminou entre os vinte primeiros do mundo - “foi uma semana dura, mas fantástica”, resumiu David É desse período que fica também a melhor prova de como se gere uma modalidade amadora em part-time: nas contas de David, a seleção terminou 7ª entre 14 equipas no primeiro Europeu Ocidental, em Paris; no arquivo oficial da APDB, ficou em 6º e 15º lugar, entre 16. A discrepância entre a memória do selecionador e o arquivo da federação é, ela própria, um pequeno retrato do que é gerir uma modalidade amadora em part-time. David é, ao mesmo tempo, presidente da associação, selecionador nacional, treinador e ainda jogador. Não há gabinete de estatística, há um homem a tentar lembrar-se de tudo.

Este ano, no Regional Europeu da Zona Oeste, em Ghent, na Bélgica, chegou o resultado mais significativo até hoje: 4.º lugar com a equipa masculina - foi a primeira vez que Portugal chega a uma meia-final internacional - e um 11.º posto com uma equipa mista finalmente completa, três raparigas e três rapazes. Um resultado que ganha ainda mais relevo por Portugal competir há apenas dois anos contra nações com, nas palavras de David “vários anos de experiência competitiva.”

MENOS INDIVIDUALISMO E MAIS TÁTICA

Uma dessas experiências chegou a Portugal em nome próprio. Na última competição internacional, a seleção contou com Kevin Gomes, 35 anos, jogador francês de pai português, que perguntou a David se podia alinhar assim que soube que Portugal tinha seleção: “É elegível, apesar de ter sido internacional francês, e é um orgulho que tenha escolhido jogar connosco.” Kevin respondeu às nossas perguntas por WhatsApp - não fala português - e contou que conheceu o dodgeball da forma mais improvável de todas: pelo mesmo filme de 2004 que, décadas antes, tinha inventado a lenda das cabeças decapitadas chinesas. Começou a jogar a sério em 2016/17, no Orleans Dodgeball Club, e um ano depois já representava a seleção francesa. Desde 2024 que viaja a Portugal uma ou duas vezes por ano, antes das competições importantes, para treinar com os novos companheiros de seleção, onde foi, garante, “muito bem acolhido”. É ele quem melhor resume a distância que ainda separa as duas seleções: “O estilo de jogo é semelhante, mas o dodgeball francês é mais tático, enquanto o português é mais físico e individualista.” O ponto forte de Portugal, na sua análise, é ser “um grupo jovem, motivado e atlético, com jogadores com habilidades impressionantes de esquiva”; o que falta é “experiência e nível tático, principalmente na gestão do ritmo de jogo, e mais jogadores disponíveis.”

Simão Carrola salta para fugir de uma bola, sob o olhar de Rita Fachada

Simão Carrola salta para fugir de uma bola, sob o olhar de Rita Fachada

É o mesmo pavilhão de Penela que este fim de semana troca o treino semanal pelo maior momento do calendário português: a 4.ª edição do Torneio Internacional de Dodgeball, organizado pelos Ravens, com nove equipas em competição - três portuguesas, quatro inglesas, uma húngara e uma neerlandesa -, perto de 100 atletas, e a promessa de um contacto direto com níveis e estilos de jogo que, de outra forma, Portugal só encontraria fora de portas. Ao longo das suas edições anteriores, o torneio já trouxe a Portugal equipas de mais de uma dezena de países, de Espanha à Irlanda, da Escócia à República Checa, com atletas a chegar também dos Estados Unidos e da Hungria. Em paralelo, prepara-se já a participação portuguesa no Campeonato do Mundo deste ano, na Tailândia, ainda sem garantias de reunir os apoios necessários para lá chegar.

É a esse mundo, ainda pequeno mas em expansão, que Portugal se tenta agarrar: uma federação mundial, a World Dodgeball Federation, com cerca de 70 países-membros e um Campeonato do Mundo a cada dois anos - o próximo em Banguecoque, em dezembro -; uma Áustria que domina por completo as categorias de cloth (jogada com bolas de tecido), as mesmas que se jogam em Portugal, e que também sedia a federação europeia; um Canadá e uns Estados Unidos que fazem o mesmo nas categorias de foam (bolas de espuma); e uma Inglaterra em ascensão, com sete das nove medalhas do último Campeonato da Europa Ocidental. É um crescimento real - só em dezembro de 2025 entraram 14 novas federações -, mas ainda sem chancela olímpica: o Comité Olímpico Internacional continua sem reconhecer o dodgeball, ainda que o Conselho Olímpico da Ásia já lhe tenha aberto uma porta, ao incluí-lo no seu programa continental no lugar do kho kho.

Simão Carrola lança uma bola em direção a Rui Rodrigues (de costas)

Simão Carrola lança uma bola em direção a Rui Rodrigues (de costas)

Talvez seja essa a ironia mais bonita de toda a história: um jogo cuja origem ninguém consegue fixar num só lugar, continua em Portugal a caber quase todo à guarda de um só homem, David Cardoso, que é também, sem ele o dizer, o maior risco que o dodgeball português corre, porque para o jogo repetir, à escala do país, a mesma dispersão de origens que teve pelo mundo, vai precisar de mais gente disposta a chegar cedo a um pavilhão para pendurar redes e marcar linhas com fita-cola. Mais carolas como ele. Sem eles, fica só um jogo bonito, à espera de quem continue a jogá-lo.

CRÉDITOS

Texto Alexandra Simões de Abreu
Infografia Jaime Figueiredo
Fotografia Nuno Botelho
Vídeo e Edição José Cedovim Pinto
Webdesign Tiago Pereira Santos
Coordenação Diogo Pombo e Marta Gonçalves
Direção João Vieira Pereira

Expresso 2025