São jovens e são de Berlim. Noah Telson, Şervan Deniz e Wiebke Hüsing nasceram enquanto o leste e o oeste se reconciliavam. Do muro só lhes resta a memória dos mais velhos, mas cada um tem hoje a sua própria cidade. “Sinto que estou a mudar Berlim”, diz Wiebke, estudante e ativista ambiental. “Hoje há outros muros nas cabeças das pessoas”, lamenta Şervan, descendente curdo e assessor do partido Die Linke. Já Noah, dono de um clube de comédia, não tem dúvidas: “Esta cidade não se compara a mais nenhuma cidade.” Três histórias, três olhares sobre a Berlim de 2019

9 de novembro de 1989

O muro ia cair de qualquer forma, mas o golpe final foi um deslize de Gerhard Lauter e Günter Schabowski. Trabalhavam ambos para o SED, o partido que governou a Alemanha de leste durante toda a sua existência. O primeiro tinha a pasta dos passaportes no Ministério do Interior e a missão de conter os crescentes fluxos migratórios via Hungria e Checoslováquia, o segundo era porta-voz do partido. Lauter redigiu alterações à lei da emigração e permitiu que os alemães de leste viajassem sem condições prévias. Schabowski deu uma conferência de imprensa sem estudar o que Lauter acabara de redigir. Sem querer, enquanto lia pela primeira vez o documento que lhe entregaram momentos antes da reunião, anunciou ao mundo que os alemães de leste eram livres de atravessar a fronteira. Quando os jornalistas perguntaram a partir de quando, Schabowski improvisou: “tanto quanto sei, entra em vigor a partir de agora”. Nesse mesmo instante, as suas palavras abriram telejornais e noticiários de rádio pelo mundo todo.

Em Berlim, milhares de alemães de leste e oeste, ébrios de curiosidade, correram aos principais postos de controlo. A tropelia instalou-se. Os militares não tinham tais ordens, o Comité Central soviético não respondia, a multidão queria o outro lado. Pouco tempo depois, já se gritavam palavras de ordem: “die mauer muss weg”, que traduz para “muro tem de cair”. E caiu, 28 anos depois de ter sido erguido. À martelada, aos pontapés, aos gritos, por entre lágrimas de euforia. Foram quase três décadas de betão armado, minas e faixas de morte que dividiram a cidade, o país e o mundo ao meio. Berlinenses orientais e ocidentais descobriram que afinal era pouco o que os separava. Berlim misturou-se.

A linha representa a fronteira do muro de Berlim. De 1949 a 1990 a parte ocidental da cidade esteve rodeada por território da República Democrática Alemã (RDA). Cerca de mil pessoas foram mortas a tentar entrar em Berlim Ocidental

Quem tem hoje 30 anos e lá vive é filho dessa mistura. De ‘89 para trás sabe apenas as histórias contadas pelos mais velhos. Berlim já não é a cidade do muro, mas não deixa esquecê-lo. Berlim é memória, mas está viva. É a quarta maior cidade da União Europeia, atrás de Paris, Londres e Madrid. Cosmopolita de leste a oeste, tudo o que se passa no mundo passa-se lá também. A gentrificação e o aumento dos preços das rendas são uma realidade, mas as lutas das minorias também. Da extrema-direita à esquerda radical, dos ambientalistas aos refugiados, Berlim é uma cidade caleidoscópica.

É como Nova Iorque, mas melhor. A Berlim de Noah Telson

Berlim também faz rir. Vê-la pelos olhos de um humorista é desconstruí-la sem lhe tirar o encanto. Desengane-se quem acha que só vai encontrar magníficos transportes públicos por ser a Alemanha. Noah não perdoa: “O M41 é uma merda. Atrasa-se sem razão aparente e, de repente, aparecem cinco autocarros do nada”. As ciclovias também não escapam ao escárnio: “se vierem de Lisboa, talvez achem isto magnífico, mas, se vierem de Amesterdão...”.

Para Noah, comediante de 32 anos, Berlim não é uma cidade de primeiras impressões: “Não há arranha-céus por todo o lado, chove, faz frio e está tudo constantemente em obras”, enumera. Tem de se ficar para ver o lado incrível. Na diversidade e na forma como acolhe todos os estilos de vida, por exemplo. “É como Nova Iorque, mas melhor”, acrescenta o humorista já quase no final da entrevista que deu ao Expresso no clube de comédia que “mata fascistas” - mas já lá vamos. Primeiro, o vídeo.

É difícil encontrar berlinenses nascidos e criados em Berlim. Há demasiada mobilidade na cidade e no país para que se assente. Noah Telson é resultado disso. O pai é americano e a mãe alemã. Nasceu perto de Colónia e passou a sua infância entre Berlim e os Estados Unidos. Parou pela cidade para fazer o secundário, mas partiu de novo para acabar os estudos superiores. Em 2009, voltou para ficar.

De repente, estava no epicentro de uma brutal explosão cultural e artística. Em plena crise da dívida soberana e do subprime, em 2008, as rendas ainda eram acessíveis, bem como o custo de vida. Não se notava a euforia das startups e do empreendedorismo. Para Noah, Berlim era a cidade perfeita para acolher as suas aspirações e as de todos os que quisessem vingar no mundo da arte e do espetáculo. Trabalhava nos recursos humanos de uma empresa, mas era no humor que encontrava a sua raison d’être. A comédia de improviso e stand-up de estilo norte-americano estavam a ganhar força na noite berlinense. Noah fez as suas primeiras incursões nesse mundo, mas, passado um ano, fartou-se de atuar em bares onde o humor tinha de competir com música alta. Em 2010, fundou, juntamente com mais dois amigos, o Comedy Café Berlin.

O café que “mata fascistas” e a gentrificação

Do balcão para o pequeno anfiteatro onde acontecem agora espetáculos de improviso e stand-up, há uma ombreira onde se lê “este teatro mata fascistas”, em homenagem a Woody Guthrie. “Enquanto nos mudávamos, percebemos logo que o antigo sítio era esquisito, começando pelo facto de se chamar O Lobo Preto”, explica Noah. “Ouvimos dizer que era um local sombrio, o tipo de sítio onde gente desairada vinha fumar compulsivamente até a cerveja acabar”. A confirmação chegou quando um vizinho passou por lá e desabafou: “Ah! Os nazis foram embora! Desejo-vos muito sucesso!”

Na opinião de Noah, a zona de Neukölln, onde vive e trabalha, transformou-se em tudo o que a extrema-direita abomina: “este bairro está muito mais heterogéneo e vivo agora, completamente inabitável para quem acredite que os emigrantes estão a roubar empregos, ou que a sua raça é superior”. Saindo na estação de metro de Hermannplatz, as grandes fileiras de prédios do “tempo dos fundadores” misturam-se com a decoração e o marketing de lojas de muitas nacionalidades, mas principalmente turcas e gregas. Foi destes dois países que vieram grande parte dos “Gast-Arbeiter”, os “trabalhadores convidados”, que ajudaram a reconstruir Berlim depois da Segunda Guerra Mundial. O resultado da mistura são grandes fileiras de prédios, pontuados por inúmeras janelas geralmente verticais, que albergam nas suas bases grandes lojas decoradas com cores fortes - vermelho, amarelo, roxo. Nos toldos, os nomes aparecem quase sempre em múltiplos idiomas. Nos passeios, a fruta à venda mistura-se com esplanadas onde se senta gente de todas as cores e costumes.

Família turca anda pelas ruas de Neukölln, em Berlim

“Vemos bares cheios de gente, as ruas estão cheias de estudantes, de pessoas de todas as nacionalidades e o comércio também mudou muito”, explica Noah aquilo que acha que são os “traços típicos da gentrificação”. O mercado imobiliário, tal como em Portugal, também não escapa. As rendas e o custo de vida vão subindo, para mal de uma Berlim que Noah considera ser “um bastião das artes e do espetáculo”. A realidade é que os artistas tornam trendy os bairros acessíveis, mas os bairros deixam de ser acessíveis quando se tornam trendy. “É a sina de muitos bairros desta cidade e com Neukölln vai ser igual”, finaliza Noah.


Os muros do racismo e da xenofobia. A Berlim de Şervan Deniz

A sua cidade é Berlim, mas não foi lá que nasceu. É turco, mas também é curdo. É curdo, mas também é berlinense. Şervan Deniz (lê-se Chervan) sente-se alemão, mas é muitas vezes confrontado com o facto de não o ser. “Acho que qualquer turco em Berlim sabe o que é ser mandado parar pela polícia só porque sim”, conta ao Expresso num restaurante na Praça de Paris, bem no centro de Berlim. “Quando vou ver um jogo de futebol e estou a torcer pela Alemanha, noto que muita gente acha estranho ver um tipo mais escuro envergar uma bandeira ou um cachecol da seleção. Vê-se no olhar das pessoas”. É a isto que Şervan se refere quando diz que, hoje, apesar de tudo, ainda existe um muro na cabeça de muita gente. Um muro que não é feito de betão, mas sim de racismo e discriminação. “É isto que está a alimentar a extrema-direita na Alemanha. Aquilo que para uns é ser cosmopolita, diverso e humano, para outros é a fonte de todos os males”.

Şervan nasceu em 1988, um ano antes de o muro cair, na cidade turca de Gaziantepe, perto da fronteira com a Síria. Veio para Berlim era ainda bebé e só voltou àquela região da Turquia - ele chama-lhe Curdistão - aos 16 anos. Não por escolha própria, mas sim porque na Alemanha só com esta idade o filho de um imigrante pode ter passaporte. “Foi um choque brutal de culturas na minha cabeça. Esperei muito tempo para lá ir. Era tudo o que imaginei que fosse, mas ao mesmo tempo não senti que pertencesse àquele lugar”. Şervan teve sempre muitas dúvidas sobre como definir-se ao longo da vida. “Os turcos que vieram para Berlim como trabalhadores convidados, nos anos 70 e 80, vinham todos com a ideia de trabalhar cá uns anos e voltar para a Turquia para viver a velhice. A Alemanha também se relacionou com essas pessoas dessa forma e o resultado é que nunca houve uma política de integração”. Hoje, o resultado, descreve Şervan, é que a comunidade turca continua muito fechada sobre si mesma. Para ele, isso significou que só a partir de uma certa idade começou a sair da bolha para conhecer outras realidades.

Acabou por encontrar uma fórmula: “sou berlinense de ascendência curda”. É assim que se define, passados muitos anos de busca pessoal. “É em Berlim que me sinto como um peixe na água”, diz Şervan, sem no entanto renegar as suas origens. “O Curdistão ainda não é um país e, portanto, resta-nos a língua e a cultura. Temos de as preservar.”

Uma infância politizada que só foi possível em Berlim

O pai era politicamente ativo. Cemal Deniz de seu nome lutava pelos direitos dos curdos na Turquia. Şervan não quis aprofundar, mas mostrou-nos uma notícia de um jornal curdo na Alemanha que dava conta de que o pai havia sido preso na Dinamarca, pela Interpol, em julho de 2018. Nessa notícia, lia-se que poderia ter pertencido ao PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão que luta pelos direitos dos curdos da Turquia. Depois de uma batalha em tribunal, acabou por ser libertado.

A razão pela qual acabaram na capital alemã, há pouco menos de 30 anos, foi essa: o pai teve de fugir da Turquia por perseguição política. E só em Berlim podia continuar a sua luta sem pôr em causa a própria segurança e a da família. “Berlim é isto. É a cidade certa para se sair à rua”, diz o filho, agora, 30 anos depois.

Kreuzberg é um dos bairros com mais migração de origem turca. Chamam-lhe a 'pequena Istambul'
Kreuzberg é um dos bairros com mais migração de origem turca. Chamam-lhe a "pequena Istambul"

Şervan acabou por estudar ciências políticas na Martin-Luther-Universität. Politizou-se ainda jovem. Primeiro, foi militante no Partido Socialista alemão (SPD), mas a meio da jornada começou a virar à esquerda. Hoje, integra o Die Linke, o Partido da Esquerda alemão. É assessor de um deputado do parlamento e faz também parte de um grupo de trabalho para a migração, de onde vêm muitas das propostas do Die Linke nessa área.

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Explica-nos Şervan que a comunidade curda é particularmente politizada e ativa. São a maior nação sem Estado do mundo e em Berlim encontram espaço para vociferar a dor e a esperança. Na semana em que o Expresso lá esteve, de 9 a 16 de Outubro, houve protestos curdos quase todos os dias. Foi numa destas manifestações que conhecemos Şervan. Protestava contra aquilo que considera ser a invasão turca de Rojava, referindo-se às ações militares no norte da Síria, após a retirada das tropas norte-americanas do país. Trump tirou o tapete aos curdos, a Turquia aproveitou e em Berlim sente-se a onda de choque como em mais nenhuma cidade europeia. É por baixo da Porta de Brandemburgo que se grita “Erdogan terrorista”, é na Praça de Paris que esvoaçam bandeiras do Curdistão. “Ao menos aqui, a comunicação social escreve sobre nós”, diz Şervan.

Kreuzberg, a “pequena Istambul”

Hoje, vive em Wittenau e trabalha em Alt Reinickendorf, zonas “muito alemãs a norte de Berlim”, descreve Şervan. “Não há crime, não se passa nada. Existem apenas discussões sobre as fronteiras dos jardins e dos parques”. Mas nem sempre viveu nesta calmaria. As suas primeiras memórias remontam a Kreuzberg, aquela que foi uma das zonas mais pobres a leste do muro durante a Guerra Fria. “Eu vivia ao lado do Görlitzer Park, que é a zona favorita dos traficantes de droga em Berlim”, explica.

Foi em Kreuzberg que os imigrantes turcos foram assentando e criando raízes durante décadas. Hoje, apesar de não escapar às garras da gentrificação, Kreuzberg continua a ser um bastião da subcultura berlinense. Foi o berço do Punk Rock e do Hip Hop na cidade. É lá que está o SO36, um dos poucos clubes que rivalizou com o nova-iorquino CBGB e que tantas vezes viu Iggy Pop e David Bowie subir ao palco e beber ao balcão. Chamam-lhe a “pequena Istambul”, apesar de ficar atrás de Neukölln - o bairro de Noah - em termos de percentagem de população turca.


As alterações climáticas e a derradeira urgência. A Berlim de Wiebke Hüsing

Onome dela diz-se assim: “Vibca Huzing”. Aos 20 anos, é estudante e ativista. Sente que é em Berlim que tem de estar neste momento. Encontrou na luta contra as alterações climáticas o seu objetivo de vida e a urgência invadiu-lhe o pensamento. Está bloqueada. Não faz sentido prosseguir com os planos de vida sem que se resolva o problema do clima primeiro. E é nesta cidade que faz sentido tentar mudar as coisas. Porquê? “Porque é em Berlim que tudo acontece”.

Nasceu em Bona, aquela que foi a capital da Alemanha ocidental durante a Guerra Fria. Aos quatro anos de idade, a família mudou-se para Münster e foi lá que cresceu. Aos 18, veio finalmente para Berlim tirar o curso de Estudos Culturais e História. Ainda não lhe encontrou defeitos. As longas distâncias de que todos se queixam não a afetam: vive perto de onde estuda. De Wedding à Universidade de Humboldt, a mesma onde Einstein deu aulas, são poucas estações de metro. Mas a sua vida não é só casa-escola-casa. Descobriu os Extinction Rebellion, a organização que utiliza a resistência não violenta para pôr as alterações climáticas na agenda. Dizem-se diferentes do movimento de Greta Thunberg, na medida em que, quando decidem fazer protestos, não avisam as autoridades, tornando a manifestação ilegal e também mais difícil de conter.

No início de outubro, não se falava de outra coisa em Berlim. Era a semana do “Berlin Blockieren”, o bloqueio de Berlim, uma série de manifestações espontâneas planeadas pelo Twitter em tempo real. De repente, num abrir e fechar de olhos, as principais praças da cidade enchiam-se de gente vestida de parca, grandes mochilas de viagem, botas da tropa, bandeiras dos Extinction Rebellion, pins ao peito, cartazes com mensagens… E toda esta mobilização tinha um quartel general: um acampamento de proporções medievais, montado em frente ao Bundestag, o parlamento alemão. A simbologia era evidente. De um lado, o acampamento e as suas bandeiras, do outro, o Parlamento e as suas bandeiras. A “resistência” contra o “poder instalado”, divididos pela icónica Praça da República, um relvado do tamanho de um campo de futebol que parecia poder transformar-se num campo de batalha a qualquer momento.

“Não somos um culto, somos um movimento necessário”

Foi nesse acampamento que conhecemos Wiebke. Reparámos que, durante a entrevista, havia muitas frases feitas e um discurso treinado. Repetiu várias vezes a ideia de “estarem a mudar algo”. Perguntámos-lhe o que achava que estavam a mudar. Gaguejou e, finalmente, saiu do guião. “Não sei o que estou a mudar. Talvez a forma como as pessoas olham para as alterações climáticas”, concluiu Wiebke, depois de pensar um bocado.

Juntou-se aos Extinction Rebellion porque viu na internet. Passou por uma espécie de ritual de iniciação que nos descreveu: “uma pessoa que simbolizava a morte matou-nos. Nós caímos ao chão e tivemos de lá ficar durante um bom bocado, a ouvir a terra, os insetos, o vento, as plantas… A apreciar tudo aquilo que podemos vir a perder”. Wiebke acredita: “não somos um culto, somos um movimento necessário. Não podemos perder tempo com essas definições. A Terra não pode esperar”.

Membros dos Extinction Rebellion passeiam descalços junto ao acampamento
Membros dos Extinction Rebellion passeiam descalços junto ao acampamento
Cartaz dos Extinction Rebellion junto ao Bundestag
Cartaz dos Extinction Rebellion junto ao Bundestag
O ambiente no interior do acampamento dos Extinction Rebellion
O ambiente no interior do acampamento dos Extinction Rebellion
À entrada do acampamento dos Extinction Rebellion. Do outro lado da Praça da República, o parlamento alemão
À entrada do acampamento dos Extinction Rebellion. Do outro lado da Praça da República, o parlamento alemão
Ativista segura bandeira dos Extinction Rebellion
Ativista segura bandeira dos Extinction Rebellion
'Digam a verdade', inscrito num cartaz no acampamento dos Extinction Rebellion
"Digam a verdade", inscrito num cartaz no acampamento dos Extinction Rebellion
Os 'diabos vermelhos' ensaiam o número que levam às manifestações
Os "diabos vermelhos" ensaiam o número que levam às manifestações
Os Diabos Vermelhos atuam em frente às portas de Brandenburgo
Os Diabos Vermelhos atuam em frente às portas de Brandenburgo

No mesmo acampamento conhecemos também Paul Schmidt. Era ele quem geria os voluntários. O seu trabalho consistia em fazer escalas e dar-lhes tarefas: havia gente a trabalhar por turnos para que o campo nunca parasse. Tem 29 anos. Nasceu em Berlim, em Prenzlauer Berg, um dos antigos bairros do leste que também mudou radicalmente depois da queda. Paul descreve que ainda cresceu num Prenzlauer Berg onde os punks, as pessoas em situação de sem-abrigo e os gangs eram uma realidade. “Tinha de ter cuidado a andar na rua, porque havia gente que roubava, assaltava, agredia”. Hoje, a gentrificação do bairro é tal que o pai foi obrigado a trocar de casa, depois de o senhorio lhe ter duplicado a renda: “mas foi um inconveniente, não uma catástrofe”, esclarece Paul, sempre preocupado em não exagerar ou estereotipar as coisas. Formou-se em filosofia e o pensamento é devidamente articulado.

Quanto à questão dos Extinction Rebellion e dos cultos, não atribui tanta importância “aos símbolos e à mitologia que sempre existem em movimentos como este”. Viveu na Holanda cinco anos e juntou-se aos Extinction Rebellion porque os colegas de casa também lá estavam. Voltou agora para Berlim, vai começar a trabalhar na empresa Transmediable e a fazer ativismo pelos Extinction Rebellion, embora não tenha particular afinidade pelo movimento: “eu imagino-me a lutar contra as alterações climáticas, seja sob a alçada deste movimento ou de outro qualquer”.

Uma Berlim cada vez mais verde e vegan

Berlim tem uma forma muito característica de fundir o verde com o urbano. O seu edificado nunca fica por pontuar, quer seja com grandes florestas, como o Tiergarten, quer seja com pequenos jardins entre grandes prédios. Wiebke diz que não é só a cidade que se está a tornar mais verde, as pessoas também. “No meu círculo social, que ainda é grande, toda a gente é vegan, toda a gente vai de bicicleta para todo o lado, ninguém quer andar de avião”, diz Wiebke. E Paul Schmidt confirma: “Tenho a sensação de que Prenzlauer Berg era um bairro mais cinzento quando eu era miúdo. Agora é mais verde. Berlim está a tornar-se mais verde. Isto é verdade principalmente entre as classes mais altas. Há cada vez mais pessoas com mais dinheiro para comprar coisas sustentáveis”.

Em 2019 a cidade dorme pouco, mas a 9 de Novembro de 1989 não dormiu de todo. O início do fim da Guerra Fria arrastou milhares de pessoas para a rua. Televisões de todo o mundo montaram palcos e fizeram horas e horas de transmissões em direto. Berlim acordou do pesadelo em que havia mergulhado. De repente, as ordens que vinham de muito longe e que durante tanto tempo paralisaram a cidade perderam o significado. Os polícias e os militares que impediam entradas e saídas desformataram. O muro veio ao chão. Em algumas partes da cidade, caiu literalmente, noutras, apenas figurativamente. Alguns troços continuam de pé. Para que a história não se esqueça, nem 30 depois da queda do Muro nem depois.

Fotografia de António Pedro Ferreira, fotojornalista do Expresso enviado a Berlim poucos dias depois da queda do muro. Homem cumprimenta polícia da Alemanha de leste por uma brecha no muro, dias depois de ele cair

ReportagemRúben Tiago Pereira, Cristina Peres eNuno Botelho Texto, vídeo e ediçãoRúben Tiago Pereira FotografiaNuno Botelho InfografiaSofia Miguel Rosa Web DesignTiago Pereira Santos Web DeveloperMaria Romero MúsicaUgonna Onyekwe, Instrumental Harms, uddle of Infinity, The Whole Other, SYBS, Czar Donic eStefanski Coordenação editorialJoana Beleza DireçãoJoão Vieira Pereira

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