Escalada Indoor

Combine large, bold images with the beautifully crafted words of your story

FAÇA SCROLL

Para cima é que é o caminho

A escalada tornou-se uma moda urbana, com seguidores de todas as idades, géneros e estilos. Só nos últimos dois anos abriram 10 espaços em Portugal para a sua prática. Mas será que isso significa que vamos ter mais atletas a competir neste desporto, que já é olímpico?

7 de agosto de 2023

“Sobe o pé direito”. “Mete o calcanhar. Bora”. “Sobe, cresce no pé”. “Agarra à esquerda. Fica!”. “Agora mete o calcanhar. É isso. Bora, bora estás quase”. “Vai que dá…”. Não deu. Leonor acabou por falhar a presa e caiu no colchão, provavelmente pela quinta ou sexta vez no espaço de uma hora. A cena repete-se diariamente em vários pontos do país e do mundo com muitas outras “Leonor”, que agora sacode das mãos os restos do pó de magnésio. Frustração? Resiliência. Vontade de chegar mais alto e mais longe do chão. E vício. Porque a escalada pode ser viciante.

Aqueles que há segundos incentivaram Leonor, continuam a fazê-lo. “Boa. Já subiste mais um bocado, estás quase. Da próxima vez agarras ali e…”, a conversa prossegue enquanto a jovem de 18 anos, estudante de Bioquímica, descansa sentada no chão, a ouvir e a maturar como fazer na próxima investida.

Se o vício é um motor a trabalhar, o ambiente de companheirismo que se vive nos rocódromos - nome dos espaços onde se pratica escalada indoor -, aliado à vontade de vencer o desafio na parede diante de nós, são o combustível que mantém ativos os que experimentaram a modalidade, atraídos por imagens de cores vibrantes, que nos últimos anos invadiram as fotos e os reels das redes sociais dos amigos. É contagiante. A escalada transformou-se num estilo de vida, abraçado por cada vez mais gente, de todos os géneros e idades.

Até há meia dúzia de anos, era vista como um desporto praticado ao ar livre em grandes rochas, por um bando de corajosos sem medo das alturas. Mas, alguns filmes e documentários, bem como a estreia da escalada nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, iniciaram uma mudança de paradigma da modalidade. 

Em 2015, Tommy Caldwell e Kevin Jorgeson fizeram história quando completaram a primeira escalada com cordas da Dawn Wall (El Capitan), no Parque Nacional de Yosemite, nos EUA, considerada a parede mais difícil do mundo. Dois anos mais tarde, Alex Honnold conseguiu subir uma via diferente da mesma rocha, sem cordas, numa escalada de arrepiar os cabelos. Ambos os feitos foram transformados em documentários, The Dawn Walle Free Solo, lançados em 2017 e 2018, respetivamente. 

O “Free Solo” de Alex Honnold, que demorou três horas e 56 minutos a subir os 910 metros do El Capitan, ganhou inclusive o Oscar de melhor documentário de longa-metragem, em 2019. Nessa altura, o mundo já tinha despertado para a escalada, mas a chama tornou-se mais viva quando, em 2021, as imagens deste novo desporto olímpico entraram pelas nossas casas adentro, diretamente do Japão.

A ajudar, está a facilidade em iniciar a sua prática, o baixo custo, a rápida progressão e, como já referido, o facto de ser uma modalidade que promove o convívio com os outros e a cooperação. Não é só um duelo entre humano e parede. A conjugação de todos estes fatores levou ao boom da escalada que, só nos últimos dois anos, fez abrir uma dezena de rocódromos em Portugal. 

Item 1 of 4

O Vertigo, situado na frente ribeirinha lisboeta, com vista para o Tejo, abriu em outubro de 2014 e nasceu da teimosia de Tiago Martins, de 34 anos. Praticante da modalidade desde os 14 anos, Tiago começou a bater a várias portas para apresentar o projeto, em 2012, aludindo ao facto de Lisboa ser a única capital europeia sem um rocódromo. “Na altura diziam-me que provavelmente era porque não fazia sentido haver um espaço de escalada indoor numa cidade onde as pessoas podem escalar na rocha e o clima é sempre bom”, conta. 

Hoje, passam diariamente pelo Vertigo quase 200 pessoas. “80% do nosso público é estrangeiro. A maioria são nómadas digitais ou estudantes de Erasmus, por exemplo, que já trazem essa cultura de escalada indoor dos seus países. De repente isto começou a ser a sala de estar dessas pessoas. Normalmente chegam ao final do dia, após o dia de trabalho ou das aulas na faculdade.”  

Do extreme para o mainstream

Existem três vertentes de escalada indoor - Bloco (Boulder), Velocidade (Speed) e Dificuldade (Lead) -, a maioria dos espaços que abriu em Portugal é dedicado ao boulder ou bloco, que não é mais do que escalar uma parede não superior a cinco metros, usando as presas (suportes) com código de cores. Não requer cordas ou arnêses, basta aparecer na parede, alugar uns pés de gato (sapatilhas próprias para escalada) e começar numa via para principiantes. Por poder ser praticado com bastante facilidade, criou uma bola de neve que foi crescendo no passa-palavra.

Bloco / Boulder / Bouldering

Objetivo: Escalar o maior número de blocos possível com o menor número de tentativas. 
Altura da parede: de 3,8 a 5 metros. 
Tempo: Quatro minutos e/ou seis tentativas para chegar ao topo. 
Capacidades necessárias: Força, flexibilidade, dinamismo e técnica.

O boulder é feito sem cordas, mas com colchões de segurança para amparar as quedas.  
Os diferentes blocos nas competições estão demarcados por cores - o escalador pode utilizar apenas presas da respetiva cor para tentar chegar ao topo da parede.

Velocidade / Speed

Objetivo: Chegar ao topo da parede antes do(a) rival.
Altura da parede: 15 metros com cinco graus de inclinação.
Tempo: Livre. O recorde mundial masculino é de 4.90 segundos (do indonésio Veddriq Leonardo) e o feminino de 6.25 s (da polaca Alexandra Miroslaw)
Capacidades necessárias: Poder de explosão.

Na velocidade, o principal objetivo é escalar uma parede padrão de 15 metros no menor tempo possível. Dois competidores enfrentam-se numa corrida até ao topo. Como a rota é sempre a mesma, este elemento da competição pode ser treinado especificamente com antecedência.

Desportiva / Lead

Objetivo: Escalar o mais alto possível chegando ao topo, dentro do tempo limite.
Altura da parede: 15 metros com pelo menos sete graus de inclinação. 
Tempo limite: Seis minutos.
Capacidades necessárias: Força e resistência.

Na escalada desportiva o vencedor é aquele que chega mais alto superando todas as dificuldades coreografadas previamente pelos especialistas/equipadores (route setters). 

São utilizadas cordas para segurança, devido à altura, mas o atleta não pode usá-las para progredir, podendo utilizar apenas a sua força e a sua técnica para subir.

Do Vertigo, onde era treinador e formava crianças e jovens a pensar na competição, Pedro Alves partiu para a ideia de criar um espaço seu “com a ideia de trazer a escalada cada vez mais para o mainstream”. As conversas com o sócio Ricardo Moita começaram a ganhar consistência e após cinco anos à procura de um espaço que reunisse as condições desejadas, nasceu o 9.8 Gravity, num armazém de 1.000m2, no Prior Velho. São 620m de parede dedicada ao Bouldering, com balneários e um bar que recebe desde famílias, a jovens, e até “um recordista da modalidade que tem 85 anos”, revela Ricardo Moita. 

Zé Quadros tem 60 anos e começou a escalar há seis, altura em que decidiu voltar a praticar desporto, porque "estava gordo, com 84kg".

O empresário Zé Quadros chega a estar quatro horas seguidas a subir paredes no rocódromo

O empresário Zé Quadros chega a estar quatro horas seguidas a subir paredes no rocódromo

O empresário lembrou-se que tinha aberto um ginásio de escalada relativamente perto de casa e foi lá um dia, empurrado pelas memórias de criança. “Em miúdo adorava trepar e tinha jeito. Lembro-me de andar a trepar no Liceu Camões”. Investiu num curso de escalada, com aulas indoor e outdoor. "Foi amor à primeira vista.” Dedicou-se sobretudo ao bloco, por ser “muito variado, os movimentos nunca se repetem” e agora o mais difícil é dar descanso ao corpo. “Tento escalar só três vezes por semana, mas gostava de vir todos os dias. Chego a escalar quatro horas por dia”. Mas há outro fator que o faz querer voltar: “Tenho grandes amigos que fiz na escalada, porque encontrei muita gente com uma ótima cabeça e atitude. Nós competimos, mas as pessoas ajudam-se imenso umas às outras”.

Um desporto individual feito em grupo

O novo lema olímpico “Mais rápido, mais alto, mais forte - Juntos”, que reconhece o poder unificador do desporto e a importância da solidariedade, não podia estar mais de acordo com os princípios da escalada, ou vice-versa. As pessoas não vão apenas treinar, mas também para estar com amigos. Embora escalar seja um processo individual, em que eu tenho de subir a parede sozinho, o sentido de comunidade é muito presente e alimentado. Mesmo não conhecendo ninguém, é fácil iniciar uma conversa com um estranho que acabou de cair no mesmo desafio que estávamos a tentar subir, quanto mais não seja porque ambos estão a cometer os mesmos erros.

'Se é o desafio também o é para quem me é desconhecido, então meu conhecido é.'

E, como existem vários graus de dificuldade, assinalados por cores, “é bem possível ter num desafio amarelo ou azul uma pessoa que veio experimentar pela primeira vez e mesmo ao lado estar o campeão nacional a provar um desafio vermelho. E estão os dois ali, a explorar os seus limites”, salienta Tiago Martins.

A lição n.º 1 para quem visita um rocódromo pela primeira vez é: aprender a cair. As quedas iniciais são as mais fáceis, o pior é quando começamos a subir e chegamos a um impasse. A pergunta impõe-se: "E agora?" A resposta também é invariavelmente a mesma, até porque já se tornou uma piada no meio: "Agora? Agora, é pra cima".

As outras duas vertentes da escalada indoor são a velocidade e a dificuldade, sendo que a primeira não tem expressão alguma em Portugal. Já a escalada de dificuldade, praticada em paredes dos 12 aos 18 metros, embora não tenha ganhado tantos adeptos como o bloco, também cresceu, sobretudo desde que em junho de 2022 abriu o Altíssimo, o único rocódromo no país com bloco e escalada de dificuldade. 

Material básico para praticar escalada indoor
Para as três vertentes Bloco, Dificuldade e Velocidade

Pés de gato: Sapatilhas que permitem maior aderência. Para iniciantes recomendam-se pés de gato iguais ao número do calçado habitual ou um número abaixo. Podem ir dos 40 aos 180 euros.

Bolsa e pó de magnésio: Uma bolsa pode custar de 10 a 30 euros. Um bloco de pó de magnésio com 100 gramas custa 5 euros.

Para praticar escalada Desportiva e Velocidade

Arnês:  É ele que assegura a ligação com a corda que nos retém em caso de queda. 

Corda: Tem de ser dinâmica, pois absorve o impacto em caso de queda. As cordas estáticas e semi-estáticas só devem ser usadas em escalada como cordas auxiliares. A espessura da corda varia de 9 a 11 mm e tem normalmente entre 50 a 100 metros. Uma corda dinâmica custa de 100 a 300 euros.

Gri-gri (dispositivo de segurança): É o bloqueador automático que sustém a queda do escalador em caso de queda e que permite também a sua descida da via. Custa entre €70 e €85.

Mosquetões: Conectam o gri-gri ao arnês. Custo varia entre os 10 e os 25 euros.

Nota: Os rocódromos estão apetrechados com todos os materiais necessários, não sendo necessário comprá-los. Os pés de gato, por exemplo, podem ser alugados e o seu aluguer varia dos €3 aos €5.

“Até o Altíssimo surgir havia vários ginásios a oferecer bouldering, há um ou outro espaço que tem parede com corda, mas não havia nenhum com condições para a escalada de dificuldade. Temos paredes com 14 metros de altura, poderíamos por esse motivo e também pela inclinação que temos nas paredes, receber uma prova do campeonato do mundo”, começa por explicar Alexandre Marques, diretor de operações deste espaço, situado junto ao Cacém. 

A escalada com corda, na verdade, existe muito antes do bloco, até porque o bloco indoor apareceu como uma maneira de treinar para a escalada de corda outdoor, ou seja, ao ar livre. Mas como bem descreve Alexandre Marques: “Com o tempo, o bouldering adquiriu a sua própria linguagem, foi bebendo dos movimentos do parkour e tornou-se muito mais atlético, a pessoa tem de arriscar o movimento para ver se funciona, arriscar colocar o pé para ver se não escorrega, enquanto na escalada com corda, a própria escalada em si é que vai trazendo a dificuldade, vai cansando o escalador, até porque temos de ir passando a corda para segurar-nos, caso haja uma queda”.  

Entrar no Altíssimo pela primeira vez é impactante. É difícil ficar indiferente aos quase 30 metros de parede de cada lado, com 14 metros de altura, sem contar com a parede do fundo, com cerca de 20 metros de largura. Parece que entramos dentro de um jogo de computador, com as paredes cheias de pontos de cor e cordas, a remeter-nos de imediato para obstáculos e níveis. 

Para os céticos que se questionam ser possível experimentar a escalada em paredes tão altas, com corda, sem saber fazer um único nó e sem companhia, a resposta é: sim. No Altíssimo, existem nove auto belays, máquinas que dão segurança automaticamente. “Qualquer pessoa que aqui entre, sem nunca ter escalado, pode experimentar em total segurança”, garante Alexandre, lembrando que embora seja “uma modalidade para todos os tipos de corpo, a relação entre a força e o peso é importante”. 

Os mais medrosos e/ou os que sofrem de vertigens, podem até acreditar que nunca vão conseguir ultrapassar o bloqueio mental, mas essa é outra das mais-valias da modalidade: o desafio mental. Seja pela vontade de vencer o medo, ou pela teimosia de resolver aquele puzzle 3D com o nosso corpo, a força psicológica está continuamente a ser trabalhada, a par do físico. 

Do lazer para a competição

Leonor Aires, que continua a descansar sentada no chão e a incentivar colegas, interrompe-nos. Quer dizer que começou a escalar há seis anos, depois de participar numa atividade no Liceu Francês. Dedicou-se ao bloco por ser “mais curto, mais intenso e mais físico” e porque “todos os treinos são diferentes uns dos outros”. Considera fundamental "ter um mindset muito forte” porque é um desporto que pode ser frustrante, mas, tal como Martim, gostava de ser campeã nacional e, quem sabe, “fazer disto profissão”. 

Martim tem 13 anos, pratica escalada há um ano no 9.8 Gravity e ainda hoje recorda o que sentiu a primeira vez que tentou subir a parede de escalada, no Parque do Vale do Silêncio. “O mais difícil foi o medo de cair, estava com bastante medo, mas quando caí a primeira vez, depois já foi bem mais tranquilo”, explica o adolescente, que conta com o apoio dos pais enquanto mantiver as boas notas na escola. Os receios do adolescente que "gostava bastante de ser atleta profissional", hoje, já são outros: “Continua a ser desafiante a parte mental, o estar sempre a pensar consigo, não consigo. Quero estar no pódio. E se não conseguir? Esta parte é bastante difícil para mim, superar a minha cabeça”.   

Quem já se habituou a ter bons resultados é André Neres, o mais mediático e medalhado atleta português, tanto na vertente de bloco como de dificuldade. Aos 37 anos, 21 dos quais a praticar a modalidade, é o primeiro a enaltecer a abertura dos ginásios de escalada em Portugal porque, embora sejam um negócio com fins comerciais, tem permitido aos atletas usufruírem de melhores condições de treino, além de serem o principal angariador de novos talentos para a modalidade. “A base de praticantes vem destes espaços, não está diretamente ligada às federações, está ligada um pouco aos clubes, ao desporto escolar, mas sobretudo aos espaços comerciais. São estes espaços que metem pessoas a escalar.”

Enquanto atleta, assume que ainda tem como ambição “ter um resultado relevante num Campeonato do Mundo, quem sabe chegar a uma final”. Para que isso aconteça, será necessário “reunir uma série de condições, sobretudo a nível federativo”. Condições essas que passam pela criação de um centro de alto rendimento vocacionado para as equipas de competição e os apoios necessários para que os atletas consigam fazer um circuito completo. 

Os quadros competitivos de qualquer modalidade dependem das federações que as tutelam. No caso da escalada em Portugal, a questão federativa foi até final de 2022 “um cancro para a modalidade” como caracteriza, de forma crua, Tiago Martins.

Mas, aparentemente, está curado.

30 anos de atraso

Resumindo uma longa história, que durou 20 anos, havia duas federações que reclamavam para si a legitimidade de gerir a escalada. De um lado, a Federação Portuguesa de Campismo e Montanhismo (FPCM) que detinha o estatuto de utilidade pública desportiva e, do outro, a Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada (FPME) - que, entretanto, alterou o nome para Federação Promotora de Escalada de Competição -, que não tinha utilidade pública desportiva atribuída pelo Estado, mas era a única reconhecida pela Federação Internacional de Escalada Desportiva (IFSC).

As causas para as divergências e o arrastar de uma “guerra”, que só terminou no final de 2022, nunca despertaram suficiente interesse para o Estado resolver o problema até ao anúncio da entrada da modalidade na montra olímpica. Apenas quando se aperceberam que nenhuma das federações cumpria todos os requisitos para o reconhecimento do Comité Olímpico de Portugal e atribuição de respetivos apoios é que os agentes da modalidade finalmente fizeram-se ouvir. E a tutela do Estado resolveu intervir diretamente.

“Para os Jogos Olímpicos de Tóquio, a FPME não tinha o estatuto de utilidade pública desportiva. A  FPMC tinha, mas não era reconhecida pela IFSC, nem pelo Comité Olímpico Internacional. Nós, FPME, podíamos ter levado atletas, se os houvesse com condições para tal, mas sem poder representar Portugal, nem utilizar símbolos nacionais, porque não éramos reconhecidos pelo Estado”, explica Alberto Cruz, vice-presidente da FPME. 

Ou seja, mesmo que Portugal tivesse atletas com qualificações, pertencessem a que federação pertencessem, não podia estar representado na última edição dos Jogos, onde a escalada foi uma das sensações. 

Em dezembro de 2022, o Governo decidiu atribuir o estatuto de utilidade pública desportiva à FPME, que passou a poder representar o país em todas as competições internacionais, incluindo nas olimpíadas, e, ao mesmo tempo, candidatar-se aos apoios do Estado. “Solicitamos um apoio de 340 mil euros, mas o IPDJ (Instituto Português do Desporto e Juventude) deu-nos uma verba de €50 mil para a gestão da federação, competições, desenvolvimento da escalada, seleção nacional e alto rendimento”, revela Alberto Cruz, concluindo o óbvio: “Em apenas seis competições internacionais, entretanto realizadas, já gastamos essa verba.”

Reconhecendo que “Portugal tem um atraso de 30 anos” no desenvolvimento da modalidade, o vice-presidente assume, “há muito por fazer”, a começar pelo incentivo aos clubes para terem estruturas próprias para os seus atletas treinarem, como acontece nas outras modalidades, como o basquete, o andebol, futebol, hóquei, etc.

“Atualmente temos pouco mais de 600 filiados e só um terço é que compete”, avança Alberto Cruz, revelando que “a FPME já está em conversações e a equacionar a possibilidade de criar um centro de alto rendimento numa instituição na zona centro do país”, mas salienta que “a federação tem sobrevivido apenas à custa dos seus filiados” e que “para trabalhar seriamente necessita de fundos”. 

Atendendo a que a construção e manutenção das estruturas de escalada são caras, a FPME vê com bons olhos a promoção de “protocolos com ginásios de escalada privados, de forma aos atletas dos clubes poderem usufruir desses espaços” e potenciar o aparecimento de mais. “Gostávamos de recuperar os 30 anos em 10, mas não sabemos se é possível. Só trabalhando todos em conjunto”.

Se é verdade que nos últimos dois anos surgiram uma dezena de novos rocódromos em Portugal, em todo o país, incluindo as ilhas, existem apenas 30 espaços para a prática da modalidade indoor. Parecem muitos, mas são poucos.

Para termos uma pequena ideia do quanto atrasados estamos, só na área metropolitana de Madrid existem mais de 40 paredes de escalada ao ar livre ou cobertas. 

Tiago Martins indica que, por exemplo, “em Innsbruck, na Áustria, existe uma infraestrutura com 1.500m2 só para o bloco - o dobro do espaço do Vertigo -, mais 5.000m2 só para corda, sem contar com os espaços exteriores, porque eles têm paredes indoor e outdoor”.

O vice-presidente acredita que “estamos a avançar rapidamente” e nota que “duplicamos o número de atletas filiados, que fazem atividades de escalada em estruturas artificiais”. No entanto, verdade seja dita que o que mais temos “ainda são pessoas, não atletas, que vão para o ginásio escalar, por lazer”.

O Olimpo (ainda) é uma miragem

O atual campeão nacional de bloco, Pedro Pato, 20 anos, que começou a escalar aos 10 anos na rocha, pela mão do pai, quando o Vertigo abriu, rendeu-se ao muro da zona ribeirinha de Lisboa e tornou-o na sua segunda casa. Com vários títulos de campeão nacional no currículo, guarda bem na memória as primeiras competições fora: “Tinha 14 anos, a diferença para os outros era abismal, mas na segunda vez fiquei em 9.º a um lugar da final.”

Consciente das suas próprias limitações e da falta de condições em Portugal, assume com naturalidade não ter pretensões de grandes resultados internacionais. “Muitos menos nuns Jogos Olímpicos, mas tenho ambição de fazer uma semi-final do Campeonato do Mundo.”

Sem qualquer dúvida de que nas próximas olimpíadas “não teremos hipóteses de ter um atleta português”, o campeão nacional calcula que tal só será possível em 2032. “Nunca houve apoio para nenhum atleta ao longo destes anos, todos tivemos de pagar do nosso bolso para competir. O André Neres chegou a fazer 20 Taças do Mundo, todas pagas por ele”, confidencia, para concluir: “Faz muita diferença um atleta fazer uma ou duas provas internacionais, ou fazer o circuito internacional todo.”

Pedro vive da escalada, não como atleta profissional, mas como route setter e, espera, daqui a uns tempos também como treinador. 

Um route setter, ou equipador, é aquela pessoa que imagina e coloca na parede os desafios para os escaladores brilharem, seja do bloco ou a escalada de dificuldade. Resumindo: é o designer da escalada. 

A primeira vez que João Évora, de 25 anos, pegou numa aparafusadora e numa presa foi para equipar competições para jovens. Apesar de escalar desde os 15 anos, especializou-se na área do route setting e tornou-se profissional há dois anos. “Sempre tive paixão em criar movimento, de criar um bloco ou uma via para outras pessoas desfrutarem da minha criação”, afirma, explicando que o seu trabalho consiste em “passar horas e horas na parede a testar os movimentos, inspirados muitas vezes em movimentos já existentes criados por route setters de outros países”.

Com atletas, treinadores, route setters e agora uma federação totalmente credenciada, parecem estar criadas todas as condições para finalmente começarmos a mostrar o que valemos numa modalidade que tem crescido nos continentes americano, europeu e asiático. 

E, a julgar pela quantidade daqueles que deixaram de ficar em casa a olhar para uma parede para, literalmente, passarem a subir paredes, esta é uma moda que veio para ficar. Do lazer à competição, é só um saltinho.

Créditos

Texto Alexandra Simões de Abreu
Fotografias Nuno Botelho
Vídeo e edição Tiago Pereira Santos
Ilustração Tiago Pereira Santos com FreePik
Webdesign Tiago Pereira Santos
Grafismo animado Carlos Paes
Apoio web João Melancia
Coordenação Diogo Pombo, Lídia Paralta Gomes, Marta Gonçalves e Joana Beleza
Direção João Vieira Pereira

Expresso 2023