Testemunho

Há 40 anos, Andrii foi dos primeiros a ver o desastre de Chernobil. Esta é a sua história

O que está a começar a ler é uma espécie de diário de um homem, militar, que foi um dos primeiros a chegar a Chernobil após o desastre nuclear. Chama-se Andrii Kulish, tem 67 anos, e são dele todas as fotografias que vai ver neste trabalho, tal como as palavras e as histórias. Este é o seu testemunho, partilhado com o Expresso, 40 anos depois de ter sido chamado para liderar a 7.ª companhia na limpeza da cidade: “Esperávamos conseguir dominar a força do átomo com um simples detergente em pó”

ABRIL 2026

Em 1986, eu servia no distrito militar de Kyiv. No início de maio, o nosso regimento foi colocado em alerta e enviado para o centro distrital de Chernobil, na região de Kyiv. Já sabíamos que ali tinha havido um acidente na central nuclear.

Para eliminar as consequências da catástrofe, eram necessárias muitas mãos. Para isso, foram mobilizados para o nosso regimento reservistas: homens jovens e robustos, com idades entre os 23 e os 40 anos. Os soldados não eram químicos nem especialistas em descontaminação: eram, acima de tudo, força de trabalho física.

Na altura, eu era primeiro-tenente, comandante de companhia.
Era o comandante direto de 95 soldados e quatro oficiais. Todos os meus subordinados eram reservistas.

Nos primeiros dias de maio de 1986, uma longa coluna de veículos do nosso regimento chegou à região de Chernobil. Montámos um acampamento de tendas num enorme terreno vazio, perto da aldeia de Korohod.

Nesse verão, vivíamos em tendas comuns de lona, a 9 km do reator acidentado. O nosso regimento estava instalado mais perto da central nuclear do que qualquer outro.

O nível de radiação no nosso acampamento era de dez a 15 miliröntgen [unidade de radiação X] por hora. Fazia muito calor, e éramos obrigados a usar respiradores. O rosto transpirava muito, era impossível respirar ou dormir. Por isso, mais tarde, fomos deixando gradualmente de usar os respiradores.

A partir de meados de maio, começámos a descontaminar as aldeias em toda a Zona de Exclusão. Eram muitas, e todas estavam abandonadas e desertas.

Entre os meus soldados havia um antigo professor de Física. Enquanto descontaminava as casas abandonadas, dizia: "Isto é trabalho em vão! Aqui nunca mais ninguém vai viver! O período de meia-vida do plutónio-239 é de vinte mil anos!"

E assim foi: todas as aldeias da Zona de Exclusão continuam mortas até hoje.

Em junho de 1986, os soldados da minha companhia colocaram uma vedação de arame farpado à volta de Pripyat [cidade no norte da Ucrância, onde se localiza a central nuclear].

Depois, durante muito tempo e sem esperança, tentámos descontaminar Pripyat. Uma cidade moderna, bonita, deserta e triste. Hoje, só resta lamentar tanto trabalho que foi desperdiçado em vão! Tanto esforço.

Mas, há 40 anos, ninguém sabia o que fazer. Porque um acidente destes acontecia pela primeira vez. E nós, com excessiva confiança, esperávamos conseguir dominar a força do átomo com um simples detergente em pó.

A minha 7.ª companhia, no verão de 1986, realizou muitos trabalhos complexos e pesados. Revelei apenas uma pequena parte do que foi feito.

O mais assustador foi o dia 11 de setembro: a minha 7.ª companhia subiu ao telhado do terceiro reator para o limpar dos destroços de grafite radioativo e de grandes fragmentos de varetas de urânio.

O nível de radiação no telhado era de vários milhares de röntgen por hora. Por isso, trabalhávamos ali apenas durante um minuto.

Depois de limpar o telhado do terceiro reator, senti náuseas. Fui levado de helicóptero para Kyiv, para o hospital militar. Fui tratado lá durante muito tempo. Não vou detalhar como foi, mas foi assustador.

Não me arrependo do que eu e os meus homens da 7.ª companhia conseguimos fazer naquela altura.

A minha consciência está tranquila: naquele verão de 1986, não estive a descansar numa estância de férias — estive onde era preciso e fiz o que era preciso.

Fiz tudo o que pude.

O Expresso optou excecionalmente por manter a grafia Kyiv, respeitando a escolha do autor e da tradutora deste trabalho

CRÉDITOS

Texto, fotos e vídeo Andrii Kulish
Tradução Iryna Shev
Web design Tiago Pereira Santos
Animação gráfica Carlos Paes
Web Development João Melancia
Coordenação Marta Gonçalves e João Carlos Santos
Direção João Vieira Pereira

Expresso 2026