1 de Maio de 1974o

Os dias em que primeiras coisas aconteciam continuamente

Mais do que uma manifestação, o 'primeiro' 1º de Maio é recordado como a grande festa da Revolução dos Cravos, quando o povo saiu às ruas em massa e a união das esquerdas era um sonho possível.

Texto Alexandre Costa Fotos Rui Ôchoa e Capital


Em Lisboa, a multidão subiu da Alameda Dom Afonso Henriques até ao estádio da antiga Fundação Nacional para Alegria no Trabalho (agora Inatel), que, em memória daquele dia, foi rebatizado como Estádio 1º de Maio. A afluência foi tanta que grande parte das pessoas não chegou sequer a entrar.

Seis dias depois da Revolução dos Cravos de 1974, o primeiro dia do trabalhador comemorado abertamente em Portugal foi o momento em que as pessoas saíram às ruas em massa, para celebrarem a libertação.

"Foi uma coisa muito improvisada. A multidão era esmagadora. A sensação de libertação dominava a cidade inteira", recorda Joana Lopes, que, então com 35 anos, participou na manifestação com um dos inúmeros grupos setoriais que se organizaram, no seu caso de trabalhadores da empresa IBM.

O encenador Jorge Silva Melo seguiu num grupo de gente do teatro. Lembra-se de ver em seu redor um mar de pessoas dominadas pelo sentimento de união, onde surgiam mãos com os dedos em V de vitória e nem tanto os punhos fechados erguidos, esquerdos e direitos, consoante os respetivos partidos.

"As pessoas cantavam, ainda não a 'Grândola', mas o 'Canta, Amigo, Canta' de António Macedo, que era mais conhecido da generalidade, graças ao programa de TV Zip-Zip", refere o encenador, que tinha nessa altura 25 anos.

Maria José Marinho - então funcionária do Ministério da Educação, de 46 anos, e cujo marido, Alberto Ferreira, fora preso pelo regime do Estado Novo – diz que aquele foi o "primeiro e único dia de união nacional", em que as pessoas acreditaram que seria possível o "sonho da união das várias forças de esquerda".

"Foi um pouco utópico. As pessoas aplaudiram indiscriminadamente toda a gente. Mas todos temos direito ao sonho e aqueles foram dias de sonho para nós. Vivemos o período entre o 25 de Abril e 1º de Maio de forma emocionalmente muito intensa. Vivêramos amordaçados pela PIDE e pela censura e o sentimento de libertação foi muito forte", afirma Maria José Marinho.

Historicamente, a data representa a grande adesão do povo ao Movimento das Forças Armadas (MFA) e o momento em que Mário Soares e Álvaro Cunhal se apresentariam lado a lado, antes de entrarem em rota de confronto.

Maria José Marinho tinha ido com o marido ao aeroporto buscar uma amiga que vinha da Suécia – mulher de um opositor ao Estado Novo – para assistir à manifestação. Por este motivo, acabou por pertencer ao grupo das pessoas que não conseguiram assistir ao comício dentro do estádio.

Joana Lopes esteve dentro do estádio, mas considera que, no momento, teve mais impacto estar entre uma multidão esmagadora e que no meio de toda a confusão uma grande parte das pessoas mal terá ouvido os discursos.

A médica Ana Matos Pires faz parte dos que não conseguiram entrar, mas no seu caso porque na altura tinha apenas 10 anos de idade e porque, para sua grande decepção, a mãe optou por levá-la para Monsanto, juntamente com os dois irmãos mais novos, para apanhar acácias, enquanto seguiam o que se estavam a passar pela rádio.

Só depois de a mãe perceber que as coisas "não se iriam complicar" é que regressaram até junto do estádio, onde haviam deixado o pai.

Apesar disso, diz ainda hoje ter recordações fortes daquele dia e do período em que se inseriu: "O 1º de Maio seria mais uma primeira coisa, porque naquela altura estavam continuamente a acontecer primeiras coisas".

O professor universitário António Goucha Soares tinha então apenas 11 anos, mas teve melhor sorte. O estádio fica localizado junto à casa onde morava e esteve lá acompanhado de um tio. Refere que, entre a "massa enorme de gente a transbordar de alegria", se sentia ainda "cautela, porque as pessoas ainda não sabiam o que ia acontecer". Entre as suas memórias de criança surgem cartazes rudimentares, feitos de dois paus e panos brancos pintados à mão.

Quarenta anos depois, Joana Lopes considera que o Dia do Trabalhador terá hoje regressado à sua matriz inicial de jornada de luta, ao contrário do carácter celebrativo que teve então, apesar de se ter tornado algo "rotineiro".

Para Silva Melo, a data tem vindo a tornar-se "demasiado comemorativa e pouco política", "uma espécie de romaria como o 5 de Outubro", ainda que considere que a crise tenda a contribuir para algum regresso do carácter mais combativo.

Ana Matos Pires diz que mantém para si o "valor simbólico", mas que o 25 de Abril é a data que continua a assinalar ativamente.

Maria José Marinho, atualmente com 86, acompanhou nas ruas as comemorações dos 40 anos da Revolução dos Cravos. Ainda não sabe se voltará a participar num 1º de Maio, não por falta de motivação política, mas porque a idade já lhe cria mais entraves.