Polémicos Há dez anos a arrasar a política e os políticos. Prontos para mais dez?

A entrevista começa com mais de uma hora de atraso. A "culpa" é do Daniel Oliveira, que se esquecera do compromisso. Mas mesmo agora, que já estão todos, é difícil começar a conversa. Luís Pedro Nunes senta-se para se levantar logo a seguir, em busca de um café; diz que, se for para começar normalmente, o Pedro Marques Lopes tem de cantar o fado. Pedro é bem mandado e canta "o fado da sina, que é o meu favorito: lai, lai, lai... Reza-te a sina nas linhas traçadas na palma da mão...". O ritual não fica por aqui: "Agora temos de dar as mãos", diz Luís Pedro. Justifica: "A sério, há anos que damos as mãos, mesmo em frente aos convidados." Nuno Artur Silva afirma que o seu papel é dizer "let the games begin". E o "jogo", finalmente, começa: uma hora e quarenta minutos de grande algazarra, com muitos atropelos e ainda mais gargalhadas. O "Eixo do Mal" igual a si próprio, mas em versão impressa.

Vou começar pelo Nuno. Porquê "Eixo 
do Mal"? De onde veio a ideia?

Nuno Artur Silva (NAS) Foi a Clara que me ligou...

Clara Ferreira Alves (CFA) É melhor começar por mim, porque começa comigo e com o José Júdice. Queríamos fazer um programa baseado num programa da BBC que se chamava "What the Papers Say". A ideia era comentar os assuntos do dia de uma forma que não fosse o comentário político formal e pesado. Depois pensámos fazer a três, com o António Barreto. E andámos a bolar a ideia para a frente e para trás, acho que durante anos. Mas depois o Barreto ficou sem disponibilidade. Foi nessa altura que pensei no Nuno [Artur Silva] e nas Produções [Fictícias]. Achei que precisávamos de uma pessoa que percebesse de televisão, que conduzisse o programa e também que falasse com as estações para lhes vender a ideia.

NAS Fomos à RTP, mas nunca mais houve resposta. E então falo à Clara para irmos buscar o Daniel [Oliveira], à esquerda, e o Pedro [Mexia], à direita, à blogosfera.

E ficou logo "Eixo do Mal"?

CFA Isso foi o Nuno.

NAS Foi na altura daquela declaração do Bush, e eu avancei. E quando vamos à SIC Notícias, o Ricardo Costa diz logo: "Eu compro."

CFA Sem o Ricardo Costa, nunca teria havido "Eixo do Mal". Ele foi o único que acreditou no programa desde o início. Eu arranjei um patrocínio da PT. Coincide com o momento em que fui convidada para dirigir o "Diário de Notícias" (que recusei). Bom, logo no primeiro programa o meu caso é discutido, e o Miguel Horta e Costa, que estava na PT, era o tipo por causa de quem eu tinha desistido do "DN". E o Daniel diz uma daquelas radicais sobre a PT...

Daniel Oliveira (DO) Radical não, acertada, como se viu [risos]!

NAS Peço desculpa, mas a coisa decisiva para perdermos logo o patrocínio foi o vídeo que fechou o programa, com a célebre cena dos irmãos Marx no camarote em que entram todos. E eu disse: "Isto é a PT."

CFA E a PT disse-nos: "Bom, isto coloca algumas dificuldades" [risos]

DO E, portanto, ao fim do primeiro programa o patrocínio caiu. Mas a SIC N aguentou-se.

Irrita-vos que vos comparem com a "Noite da Má Língua" ou que vos confundam com o "Governo Sombra"?

DO Em relação ao primeiro, acho normal. Não me irrita, mas o programa não tem nada a ver. O nosso programa é informal, de discussão política, tem algum sarcasmo, mas não é um programa de humor. Não tem como prioridade, como tinha a "Má Língua", ter piada. Mas acho normal a comparação, porque são programas fora do esquema natural.

CFA O "Governo Sombra" já é um bocadinho um filho do "Eixo do Mal"...

Pedro Marques Lopes (PML) Sim, mas é normal a comparação. Eu ainda hoje encontro pessoas na rua que me dizem: "Olha, você é que é da 'Noite da Má Língua'."

Luís Pedro Nunes (LPN) Não, não é da "Noite da Má Língua, é só da "Má Língua". Já há esse arredondamento.

DO E eu digo sempre que o Pedro é o nosso Manuel Serrão [gargalhadas]. Incluindo no nível intelectual.

CFA O nome "Noite da Má Língua" sobreviveu ao programa, é um bocado estranho. Tornou-se numa brand... "Eixo do Mal" não é tão forte.

PML Nós nunca, em nenhuma circunstância, trocamos uma piada por aquilo que realmente achamos. E essa é, de facto, uma diferença em relação a outros programas, pelo menos em relação ao "Governo Sombra".

DO O que caracteriza o "Eixo" é sobretudo a informalidade, mais do que o humor.

PML Sim, porque nenhum de nós é especialmente dotado em termos humorísticos.

CFA A grande diferença é que, na altura, não havia nenhum programa a dizer no ar aquilo que nos dizíamos. Nós inventámos o formato. Fizemos coisas que hoje, se calhar, já não fazíamos, uma série de crueldades. Lembro-me do caso do Fernandes Thomaz do CDS que uma vez nos disse: "Eh pá, vocês gozaram com o facto de eu gaguejar." O que era um bocadinho verdade.

PML Mas ele não gagueja, ele cicia.

CFA Arranjámos inimigos terríveis.

DO Deixa-me só dizer uma coisa sobre a "Noite da Má Língua": um programa que é mais de humor e muito violento é apesar de tudo mais digerível do que um que não é de humor e é muito violento. Desse ponto de vista, não há comparação. A nossa agressividade, às vezes, a falar de políticos sem um registo de humor não é muito comum em programas de TV.

NAS A "Noite da Má Língua" era pioneira no território do entretenimento. Dessacralizou a política no sentido de os tratar por tu: "o Soares", "o Cavaco"... Por isso foi tão importante. Pelo choque e irreverência. Mas depois eles não eram consequentes e ficavam pela graçola. Não havia comentário.

CFA E nos últimos dez anos, com as novas tecnologias, o comentário político mudou, o jornalismo político mudou. Não é a mesma coisa. No meu tempo, os comentadores eram uns bonzos que ficavam sentados, aquilo era uma coisa muito respeitável, toda a gente estava no seu retangulozinho, nunca dizia nada de inconveniente. E nos últimos anos, com a violência da internet, o Twitter, os blogues, etc., o comentário político acompanhou essa modificação.

PML O programa ainda é uma ilha no comentário político. E nenhum dos comentadores que vemos nas televisões se sente tão livre quanto nós nos sentimos, por motivos vários. Particularmente porque a maioria...

Pedro Marques Lopes É o homem com mais "feedback do país inteiro".Vai para a política? "Se odesafio for interessante não vejo porque não." Clara Ferreira Alves "She's the boss". Quando ela fala, os outros calam-se. Feroz na crítica e apurada na ironia. Mas não se mete com Soares. É intocável. Nuno Artur Silva É o senhor Produções Fictícias. Por "acidente ou distração" tornou-se no moderador dos egos do "Eixo". Dentro e fora do estúdio. Daniel Oliveira É o 'político' do programa. Entrou bloquista e tornou-se um crítico. "Temos de o impedir de fundar partidos todas as semanas." Luís Pedro Nunes É o outsider mais insider do comentário político da TV. Mas ele não se mistura. "Passo diretamente para a travessia do deserto."

...São eles próprios agentes políticos.

PML Exatamente, são mais engajados. O que este programa tem, e que os outros não têm, é que as pessoas não têm obrigação de defender quem está no poder ou naquela área política por serem dessa área. Nem o Daniel, que era do Bloco de Esquerda...

DO Quando entrei para o programa era da comissão política do BE, era assessor...

PML E lembro-me de ele bater no partido! Tal como a Clara, que é mais identificada com uma determinada esquerda, não tem problema nenhum em dizer mal da área política ou do partido em que vota, tal como eu ou o Luís Pedro.

CFA Mas como é que tu sabes o partido em que eu voto? Não me atribuas assim uma área política tão específica...

DO Deixa-me dizer que acho injusto pores a Clara à tua esquerda [risos]!

PML Mas acho, por acaso, que é verdade. Eu e a Clara, em muitas circunstâncias, somos o bloco central.

CFA Sim, somos. Somos os únicos tipos sensatos.

DO Era a primeira coisa que me ocorria pensar [gargalhadas]!

Olhando para os últimos dez anos, acham que têm vindo a suavizar o discurso?

PML Depende muito dos momentos...

CFA No início não atinávamos com a forma. O Mexia e eu queríamos intelectualizar mais o programa, levávamos o nosso livrinho, o Júdice também era um bocado isso, de vez em quando queria falar do Orwell. Isso acabou, como já devem ter percebido. E como queríamos fazer esse momento cultural não estávamos tão bem preparados politicamente. Tirando o Daniel, que era a besta política ali no meio, nenhum de nós seguia com grande atenção a atualidade política.

NAS E começámos a perceber que a grande força do programa era o seu estado selvagem.

CFA E não só, politicamente houve uma espécie de alvoroço em Portugal. Quando chegámos ainda havia Santana. Foram bons anos. Ainda não havia Relvas nem nada disso. Depois há a crise internacional e Sócrates. E a política apodera-se do programa.

DO Não aligeirámos...

PML Moderámos...

DO Não, não moderámos...

Cresceram?

DO Não, não tem nada a ver com isso. A crise económica deu um papel diferente ao programa, não decidido por nós mas pelas pessoas que nos veem. Ou seja, com a crise as pessoas passaram a esperar de nós coisas diferentes. Exatamente porque éramos capazes de dizer as coisas com uma acutilância diferente do que era habitual nos outros programas. Não acho nada que estejamos mais moderados, o que aconteceu é que o programa se ressentiu do sentimento geral do país.

PML E eu noto nos últimos anos (e estou cá há seis) que há, pelo feedback que tenho, muito mais atenção dos políticos.

CFA Ele é o homem com mais feedback do país inteiro [risos].

DO Eu sou um operário da política, ele é um comensal da política [risos].

PML Sinto que há muito mais reações dos políticos do que quando comecei. O Nuno diz: "É o programa que ninguém vê mas que toda a gente comenta."

Também diziam isso do "Big Brother"...

DO É simpática essa comparação [risos].

PML Isto é mesmo assim, se perguntares aos políticos eles dizem sempre que nunca viram...

CFA Apercebi-me que o programa era visto certa vez que me sentei com o Jardim Gonçalves a almoçar, em plena crise do banco, e ele a primeira coisa de que fala é do programa para me perguntar: "Porque é que aquele moderador nunca diz nada?" [gargalhadas].

LPN O problema foi mesmo da realidade, não foi do programa. Quando o país começou a afundar e a ficar deprimido, acabou por afetar o programa, não só através das redes sociais mas na rua. Eu sou abordado constantemente! "Olha, o Luís Pedro." Há uma relação como se nos conhecessem, como se fôssemos uma sitcom. Esta ideia que o Nuno tem de que o programa é como uma família disfuncional.

CFA As pessoas, agora, já falam do "Eixo". Já não dizem a "Má Língua". O "Eixo", finalmente, pegou.

LPN As pessoas falam muito do "Eixo"... mais um, que sou eu, que não sou comentador político... A minha relação com a política é completamente distante, não conheço nenhum político, não escrevo sobre política...

Então o que estás aqui a fazer?

LPN Entrei por engano [gargalhada de PML]. Vão ter de encontrar uma mentira piedosa para justificar a minha entrada no programa.

Já lá vão nove anos...

CFA Ainda não conseguimos expulsá-lo.

A tua relação com o comentário político é idêntica à do Cavaco com a política...

LPN Exato, vim fazer a rodagem do carro até à SIC e acabei por entrar lá dentro! Neste momento sou mais de direita, porque eles estão todos absurdamente adornados à esquerda.

"Não sou comentador. A minha relação com a política é distante" Luís Pedro Nunes

CFA Não é verdade. Somos é anti-Passos.

LPN Eles funcionam por economia de escala: vão pensando nos assuntos do programa ao longo da semana. Eu, às vezes, a primeira vez que penso em determinados assuntos é quando sou confrontado com eles imediatamente antes do programa. E acho que isso se nota... Afundo-me completamente a meio da conversa. Orçamento do Estado, IRS...

CFA Eu tenho de contar isto: uma vez o Luís Pedro ia acabando com o programa. Pediu uma mulher em casamento a meio do programa! E eu digo: "Este gajo está louco! Acabou o 'Eixo do Mal'!" Foi a única vez que fiquei chateada!

NAS O meu papel de moderador, como julgo que perceberão, é mais fora do programa do que dentro. Mas a razão por que o Luís Pedro entra é para recuperar muito da ideia inicial do programa, que era não só comentar a atualidade política mas a maneira como a atualidade política é tratada pela imprensa. E o Luís Pedro é um obsessivo leitor da imprensa.

CFA E já havia o "Inimigo Público", de que ele era diretor.

LPN Já lá estou há nove anos e ainda estão a tentar perceber o que é que eu estou lá a fazer [gargalhada de PML]!

DO Se bem me lembro, a seguir a sair o Mexia tivemos vários convidados durante dois meses e já tínhamos consciência de que um iria ficar. Escolhemos o Luís Pedro.

Como é que se dão uns com os outros? A disposição como se sentaram à volta da mesa [LPN, PML, NAS, CFA, DO] tem alguma leitura? Chateiam-se uns com os outros?

LPN Permanentemente.

Mas já te aconteceu um programa em que não estás com paciência para aturar a Clara?

PML Várias vezes.

DO Temos boas relações, mas tensas. O que é normal pelas nossas características.

CFA Se não houver tensão, o programa não existe. Quando íamos todos no carro com o Nuno, antes de o Daniel tirar a carta, eu começava a dizer coisas de extrema-direita para picar o Daniel. Começava nas Amoreiras e ia até à SIC, e ele ia ficando irritado...

DO Não eram nada coisas de extrema-direita, eram só snobes!

CFA E o Daniel, irritado, funciona muito bem.

NAS Aquilo que o Luís Pedro diz é verdade: ao fim de muito tempo a aparecer na televisão tornamo-nos personagens de uma sitcom. A história da família disfuncional vem de uma crítica da Ana Markl, que escreveu sobre o "Eixo do Mal" referindo-se à "minha família disfuncional favorita". O programa é eminentemente televisivo porque tem arestas, tensão dramática!

CFA Às vezes, não nos pomos de acordo sobre nada.

E isso é o segredo do êxito do programa?

CFA É um bocado.

PML Acho que não. Acho que é muito mais a expectativa "do que é que aquele gajo vai dizer"... E por termos uma característica que também é rara: não sabemos muito bem com o que é que contamos. Dou um exemplo: quando foi o caso do acórdão sobre o Armando Vara, eu ia com uma expectativa do que iam dizer, e eu próprio, que trabalho com eles semanalmente há seis anos, não acertei...

CFA A pessoa aqui que verdadeiramente não fazia comentário político era eu. Hoje, o comentário político quase que ocupa o espaço da notícia, mas quando eu entrei no jornalismo não era assim. Uma das coisas que tive de fazer com o "Eixo do Mal" foi passar a documentar-me politicamente — quando a minha área natural era o Médio Oriente e a cultura —, e isso foi um esforço muito grande, foi o que me custou mais: ler jornais, ver telejornais. Porque o PML e o DO estão muito bem preparados: só fazem isto!

"Sempre me dei bem com Passos e tínhamos, julgava eu, bastantes afinidades" Pedro Marques Lopes

PML Mas é diferente. Eu faço comentário político fora do "Eixo", na SIC, na TSF... O que divide o meu comentário político do "Eixo" do dos outros espaços é que é muito mais opinativo e muito menos analítico.

LPN A questão aqui é que a mistura é que funciona. As pessoas têm pelo menos um comentador de que gostam e um que odeiam...

NAS E isso é muito visível nas redes sociais.

LPN Há muita gente que não me suporta e outra que gosta de mim a um nível absurdo.

PML Eu nunca tive uma abordagem de ódio por causa do "Eixo". E já lá vão seis anos.

LPN Presencial.

PML Presencial, claro! Este é o país dos terroristas do teclado! As abordagens na rua sobre o "Eixo" são sempre simpáticas. Tenho problemas com o facto de escrever sobre futebol e ser do FCP, e só quem nunca escreveu sobre futebol não sabe o ódio que se pode gerar por uma coisa tão estúpida!

É absurdo usar o adjetivo "influentes" para vos descrever?

CFA Não. Acho que somos, mesmo. Gosto muito quando o primeiro-ministro diz: "Eu não estava a ver o programa, mas disseram-me..."

PML O Marcelo já nos citou várias vezes.

CFA Até o senhor da garagem... Pessoas que eu nunca pensei...

DO É um programa popular. Não tenho base nenhuma para dizer isto, mas parece-me que o tipo de público do "Eixo" é socialmente muito mais heterogéneo do que o público da SIC N.

PML Em agosto fui a Nova Iorque e fui a Newark ver a bola. No primeiro restaurante de Ferry Street em que entro dizem-me: "Olha o senhor da 'Má Língua'!"

Não se cansam de estar sempre a dizer mal de tudo?

NAS Isto chama-se o "Eixo do Mal". E o ângulo preferido é sempre pela negativa. Mas de vez em quando há elogios, quase sempre contra a corrente.

São atentos às audiências? Preocupa-vos?

NAS São um instrumento como outro.

LPN Só nos preocupamos se baixam [risos].

NAS Regularmente, temos sido o programa de debate político mais visto, ou um dos mais vistos, no cabo. Talvez a "Quadratura", às vezes, nos ultrapasse. Só somos ultrapassados pelos programas de debate de futebol. Temos sábados em que somos vistos por 140 mil pessoas!

Já tiveram chatices com comentários?

CFA Angola é complicado.

DO Já tivemos processos.

CFA Já tive algumas más reações de pessoas que dizem: "Vocês não gostam dos angolanos." É completamente falso: uma coisa é não gostar do regime, outra é não gostar dos angolanos.

LPN Queremos ir fazer um "Eixo" a Angola...

DO E voltar [risos].

CFA O poder de Angola sobre os media portugueses tem crescido extraordinariamente, numa dimensão que não se previa. E houve um momento de medo em Portugal absolutamente intolerável. O programa tomou posições fortíssimas e violentíssimas, por exemplo quando se pensou vender a RTP a angolanos.

DO Nós, no programa, fomos bastante críticos de uma entrevista feita a José Eduardo dos Santos na... SIC. É uma das qualidades do programa que as pessoas reconhecem.

CFA E uma das qualidades da estação, é preciso reconhecer. Criticámos com violência uma reportagem feita pelo Henrique Cymerman em Israel, durante uma das invasões de Gaza.

NAS Como produtor, tive atores nos meus programas que me vinham dizer: "Não podes continuar a fazer um programa com aquela agressividade [para a linha editorial do Governo], porque somos prejudicados no nosso trabalho na estação pública." Certamente por coincidência, eu, que tinha uma produção regular de programas na RTP, neste momento não tenho nenhum programa na estação pública.

LPN Mas um dos temas que suscita mais reações é o dos direitos dos animais! São casos extremos e um bocado absurdos!

DO Eu escrevo sobre futebol no "Record" há quatro ou cinco anos e não se compara!

LPN Mas o caso mais incrível que me aconteceu recentemente foi o das praxes. Alguém teve a infeliz ideia de tirar um clip de dois minutos de um programa onde eu descambo e chamo uns nomes aos tipos que fizeram aquela praxe [a gozar com os acontecimentos do Meco]. Aquilo tornou-se viral — há tempos tinha 200 mil visualizações no YouTube —, mas os tipos das praxes, que são um bocado lentos, só duas semanas depois é que deram conta e começaram a invadir-me o e-mail, a dizer que atrasado mental sou eu. Um mês depois ainda continuam.

"Nunca agredi nem agredirei Mário Soares. Por respeito e amizade pessoal" Clara Ferreira Alves

CFA Houve momentos do programa, de todos nós, que se tornaram virais. E isso também contribuiu muito para o sucesso do programa.

Têm algum "punching bag" favorito?

CFA O Relvas... O Dias Loureiro é um "pet hate" que eu tenho. Sinto quase ternura por ele.

PML Por acaso não tenho nenhum gajo em que goste de bater preferencialmente...

LPN Eu tive um caso com o Sócrates, mas larguei completamente...

CFA Não se trata de bater preferencialmente em ninguém. Trata-se de certas pessoas por quem temos um "carinho especial".

DO Uma é o Alberto João Jardim. Mas é uma relação antiga, próxima, judicial... já foram cinco processos. Outra é o Cavaco.

PML E o Francisco Louçã?

DO Não me lembro de alguma vez o ter criticado. Critiquei a direção do Bloco, isso sim. Mas o Louçã diretamente não.

PML Eu poderia dizer o Mário Nogueira...

"Todos sabiam que eu era do Bloco. E nunca deixei nada por dizer" Daniel Oliveira

Mas o Sócrates também deu bons momentos.

CFA Sim, deu.

DO Mas quem deu grandes momentos, embora fosse no princípio, nós ainda estávamos a aprender, foi o Santana.

CFA Todos temos políticos que respeitamos e políticos que não respeitamos. Eu, por exemplo, tenho de confessar que tive uma enorme modificação em relação ao Passos Coelho. Achava-o simpático, cordial, com um projeto político para o país. Quando rebentam os primeiros escândalos, Ongoing, serviços secretos, Relvas e, agora, Tecnoforma comecei a perceber a sua carreira política. Hoje sou muito mais violenta com ele do que era no início. E isso aconteceu também com o Pedro Marques Lopes.

PML A minha razão é diferente, não é pessoal.

CFA Nada disto é pessoal. É político. Eu pessoalmente não tenho problema nenhum com o Seguro, até admito que seja uma excelente pessoa, mas politicamente...

PML Sempre me dei bem com Passos e tinha, julgava eu, bastantes afinidades com ele. Nunca me zanguei, mas um bocado antes das eleições percebi que aquilo estava a ir num caminho que não me estava nada a agradar e que se confirmou com a prossecução do Governo. Faz-me lembrar o Paulo de Carvalho, que, pouco depois do 25 de Abril, fez o hino do PPD e passado uns tempos saiu do PPD e foi para o PCP. Quando lhe perguntaram se tinha mudado assim tanto, respondeu: "Não, eles é que mudaram." Não foram de todo os escândalos: há sempre um Relvas nos governos! O que me levou a divergir foi a profunda incompetência deste Governo. Até na linha ideológica seguida: como é possível um Governo dizer-se liberal quando o cerne da sua política é aumentar impostos?!

O Daniel era um homem do BE e tornou-se um anti-Louçã, ou um anti-Bloco...

DO Não tornei nada!

CFA Ele nunca o admitiria!

DO Não, não. Não sou anti-Louçã, muito menos anti-Bloco. Claro que quando se conhece as pessoas...

E há lugar para um deputado no "Eixo"?

DO Quando entrei para o programa tinha uma posição muito mais difícil de gerir do que ser deputado: era assessor de imprensa do Bloco e do Louçã!

PML A dada altura houve um debate entre Portas e Louçã, e este no fim faz um comentário inqualificável sobre o sorriso de uma criança. Eu ainda não estava no programa e, de propósito, fui ver o que o Daniel dizia. E nunca mais me esqueço: nunca vi ninguém ser tão mentiroso!

"O meu papel de moderador é mais fora do programa do que dentro" Nuno Artur Silva

DO Toda a gente sabia que eu era do BE. Era o único do programa que tinha partido, e as pessoas sabiam! E não me lembro de alguma vez ter deixado alguma coisa por dizer por se tratar do Bloco. Teve muito mais importância a minha relação pessoal com Louçã quando ele estava a ser alvo de um ataque generalizado [depois desse episódio do debate com Portas] do que a minha relação com o Bloco. As nossas relações de amizade limitam-nos muito mais!

E há alguém de quem não falem exatamente por serem amigos?

CFA Há. Há uma pessoa que eu nunca agredi nem agredirei por respeito e amizade pessoal, que é Mário Soares. Mesmo que ache que ele tenha feito uma asneira. É uma personagem histórica que me merece o maior respeito. E se Álvaro Cunhal fosse vivo, provavelmente teria a mesma atitude.

PML Felizmente, a maior parte dos meus amigos está fora da política...

DO Eu critiquei uma vez o Miguel Portas, que era um grande amigo meu. Só que aí críticas noutro tom.

LPN Se eu tivesse amigos, eles adorariam ser criticados [risos]...

E o que é que vão dizer do António Costa no programa?

LPN Quem? O buda do Chiado? [gargalhadas] Venha ele. Eu estou à espera que ele ganhe. Aliás, estou à espera que ele me toque para me curar! Adoro quando mudam os governos, estou tão saturado!

PML A dinâmica do António Costa vai definir muito o tom de comentários no programa.

A dinâmica até agora não é muita...

PML Até agora é zero. O Luís Pedro é que definiu bem o que se está a passar. O Costa vai ganhar as eleições dizendo: "Boa tarde, senhores jornalistas."

CFA Não é só a dinâmica. O que o António Costa tem de muito diferente em relação aos outros políticos, embora o Passos também tenha um bocadinho, é que não tem leitura visível, as pessoas não sabem o que ele está a pensar.

PML Pois... É por isso que é a dinâmica que o vai definir. Porque até agora, como a Clara dizia, ele deu-nos zero. E nós nem sabemos muito bem o que é que vamos criticar.

CFA Não metas palavras na minha boca. Ele não deu zero, acho que até já deu bastante.

PML Estou completamente em desacordo. Acho que ele tem sido muito passivo. Mas há uma coisa que eu prevejo e vou acertar: se nós achávamos que o Sócrates tinha mau feitio... esperem pelo António Costa!

E se imaginarmos uma coligação António Costa e Rui Rio?

CFA Bom, em termos de mau feitio [gargalhadas]...

PML ...estávamos conversados.

Já pensaram em acabar o programa?

NAS Já.

LPN Todas as semanas [risos].

DO Todos já pusemos essa possibilidade, porque é muito duro de fazer.

Já imaginaram passar do comentário para a política mesmo?

DO Não olhes para mim. Olha para eles, porque eu passei da política para o comentário.

CFA Eu tive vários convites...

PML Acho perfeitamente possível. Se o cargo político for interessante, não vejo porque não.

LPN Eu passo diretamente para a travessia do deserto [risos].

NAS Nunca aceitaria um cargo político.

CFA O último que disse isso foi o Paulo Portas.

DO Acho que aqui há uma diferença. Eu e o Pedro...

CFA ...são políticos, claro...

DO Não, não somos políticos. Temos intervenção política e temos gosto em tê-la, seja em partidos ou fora deles.

CFA Eu quando era jovem trabalhei no PS e houve um momento em que achei que ia fazer uma carreira política, trabalhei com o Jaime Gama, o Jorge Lacão, o José Manuel dos Santos, o Mário Soares...

DO Jaime Gama e Jorge Lacão? E não adormeceste para o resto da vida?

CFA O Jaime Gama é uma pessoa muito inteligente e não me faz nada adormecer. E nem todos podem ser vitais como o Francisco Louçã e a Ana Drago [risos]. E se quisesse uma carreira política tinha continuado.

PML Estou com fé que o Daniel Oliveira me convide para deputado lá no partido dele...

DO És demasiado esquerdista.

CFA Tu não tens muito para onde ir, Pedro! Ele é neste momento o socratista do programa [gargalhadas].