LARGO DO RATO António Costa no último fim de semana, depois de confirmado oficialmente como novo líder do PS. E já com a "crise Sócrates" a dominar as atenções FOTO ALBERTO FRIAS

Escolhido como candidato do PS a primeiro-ministro nas eleições primárias de 28 de setembro, eleito secretário-geral do partido com 96% dos votos) no último fim de semana, António Costa assume finalmente a liderança socialista, algo que nunca admitiu desejar mas que há muito parecia "escrito nas estrelas". E logo no pior momento para o partido, com a prisão preventiva de José Sócrates, de quem foi número dois. Podia, aliás, ter-lhe sucedido em junho de 2011, mas na altura argumentou com o mandato que teria de deixar a meio em Lisboa para recusar; voltou a ponderar avançar em fevereiro de 2013, mas de novo resistiu. Até maio deste ano, altura em que mandou às urtigas as tréguas que tinha estabelecido com António José Seguro, e apresentou mesmo uma candidatura.

Aos 53 anos - a mesma idade que tinha Ferro Rodrigues quando assumiu a liderança do PS, em 2002; a mesma de Jorge Sampaio quando perdeu a chefia do partido para António Guterres, em 1992 -, António Luís Santos da Costa é o oitavo líder do PS. Ora, oito é o número que as teorias cabalísticas dizem significar "vitória, prosperidade e superação sobre as adversidades". O Expresso identifica os oito principais desafios que Costa terá de ultrapassar para cumprir a "cabala", a começar neste fim de semana e a terminar nas legislativas de 2015.

1. Garantir que há vida além de Sócrates

Quis o destino, que sabe bem quando ser irónico, que o PS se reunisse este fim-de-semana em Congresso na Feira Internacional de Lisboa, com vista para o Campus de Justiça de onde José Sócrates saiu na segunda-feira para a prisão preventiva em Évora. É o primeiro grande teste que António Costa tem pela frente: assegurar que o partido tira os olhos do outro lado da estrada para os fixar dentro do pavilhão e, garantir que o conclave socialista não deixa de ser aquilo que precisa de ser (uma discussão sobre como convencer os eleitores de que é no PS que têm de confiar no próximo ano) para se transformar numa incontrolável manifestação de desagravo a José Sócrates, porventura inspirada na que Mário Soares moveu na quarta-feira em frente ao Estabelecimento Prisional de Évora.

2. Manter o PS unido

É uma tarefa que Costa viu facilitada à partida com a expressiva vitória sobre António José Seguro nas primárias - e a prova é que não tinham passado quatro dias e já Álvaro Beleza anunciava um acordo com o novo líder, que passava por assegurar que um terço dos lugares dos orgãos partidários seria ocupado por apoiantes do anterior secretário-geral. Mas a prisão de Sócrates veio modificar o equilíbrio que parecia adquirido: por um lado, os seguristas (que têm mantido um prudente silêncio desde o fim de semana) podem sentir que ganharam um inesperado espaço de manobra e reclamá-lo - afinal, uma das razões (senão a principal) que mandou Seguro para casa foi precisamente a sua má relação com a herança de Sócrates; por outro, Costa tem de saber integrar os socráticos (e ainda são muitos, sobretudo no grupo parlamentar) sem, contudo, lhes dar um destaque e um protagonismo que seriam considerados irrazoáveis nesta altura. Uma verdadeira quadratura do círculo.

3. Construir uma equipa robusta

Corre de par com o desafio anterior. Parte já está resolvida de per se: na liderança parlamentar, escolhida logo na semana a seguir às primárias, Costa não deverá mexer, ainda que isso implique ignorar os que lhe apontam os riscos de manter na primeira linha da frente de batalha dois rostos tão associados a Sócrates como Ferro Rodrigues e Vieira da Silva. No Rato, o líder socialista também já deu um passo importante ao escolher Carlos César para presidente do PS, aproveitando assim para dar uma dimensão mais política a uma função até aqui praticamente simbólica. Ainda não se sabe quem vai integrar o Secretariado (o orgão executivo), mas com seus principais apoiantes já a ocupar funções incompatíveis (são os casos de Capoulas Santos, Ana Catarina Mendes, Pedro Nuno Santos, Marcos Perestrello ou Duarte Cordeiro), é provável que Costa se refugie numa equipa mais operacional, que lhe garanta a máquina partidária em velocidade de cruzeiro sem lhe reclamar a presença assídua na sede nacional que o també presidente da Câmara de Lisboa não vai poder garantir.

4. Liderar o PS ao mesmo tempo que preside a Lisboa

Antes das primárias, Costa garantiu que não deixaria a presidência da Câmara de Lisboa (para cujo terceiro mandato foi eleito há pouco mais de um ano), ainda que tivesse de assumir a liderança do PS em simultâneo. Em entrevista ao Expresso chegou mesmo a admitir a possibilidade de manter as duas funções até ao momento em que, eventualmente, vença as legislativas. Estes dois meses demonstraram que, se a sua opção for conciliar os dois papéis, o secretário-geral do PS terá de se preparar para um contínuo e intenso escrutínio da sua atividade camarária, como experimentou agora a propósito das "taxas e taxinhas" que o Governo e os partidos da direita lhe criticaram abundantemente no Orçamento do município para 2015. Mas a verdade é que o palco da autarquia também lhe pode convir. Não sendo deputado, é a partir dos Paços do Concelho que pode fazer oposição ao Governo de forma mais audível, como também já aconteceu na controvérsia a propósito da utilização dos fundos comunitários.

5. Escolher quem apoiar nas presidenciais

O mais tardar no verão, ou até antes disso, o líder do PS vai ter de decidir que candidato presidencial apoiar às eleições de janeiro de 2016, com os olhos postos no facto de que poderá ser com esse nome que terá de se articular durante os quatro anos da legislatura, caso vença - como espera - as eleições legislativas de setembro/outubro de 2015. Costa gostaria genuinamente, como sempre afirmou, de ter a decisão facilitada com a disponibilidade de António Guterres. Mas à medida que o tempo passa, parecem menores as hipóteses de regresso do antigo primeiro-ministro ao "pântano" que voluntariamente deixou em 2001. Se assim for (e ainda há esperanças de que assim não seja), o líder do PS terá de apontar a outro candidato. Nomes, à partida não faltam, ainda que nenhum com a mesa força do putativo candidato a secretário-geral da ONU: António Vitorino (ainda e sempre), Jaime Gama, Carlos César, Maria de Belém ou, fora do universo de militantes socialistas, António Sampaio da Nóvoa ou Carvalho da Silva.

6. Apresentar o programa de Governo

Antes dos acontecimentos do passado fim-de-semana era a "piéce de resistance" dos trabalhos que esperam o novo líder socialista até às legislativas, e com data marcada pelo próprio: numa grande convenção nacional a realizar na primavera de 2015. Agora passou para um inevitável segundo plano, tão premente é para Costa conseguir, isso sim, evitar que o processo de afirmação do PS como alternativa sólida e credível à atual coligação de Governo se deixe contagiar pelo longo processo judicial que espera Sócrates. Ainda assim não pode ser tarefa a descurar: parte da chave para conseguir escapar aos estilhaços provocados pela eventual acusação do ex-primeiro-ministro passa precisamente por conseguir demonstrar aos eleitores, com mais do que enunciados vagos, como é que o PS se propõe solucionar o problema da dívida pública, ou pôr o país a crescer economicamente.

7. Fazer as listas de candidatos a deputados

É um tarefa que Costa bem pode agradecer aos deuses da política (e ao Presidente da República) só ter de cumprir lá para o verão, quando, supostamente, a turbulência destes dias já terá dado lugar a outra serenidade e distanciamento. E, então sim, nada impedirá o secretário-geral do PS de estar absolutamente livre de quaisquer constrangimentos para compor a bancada parlamentar que, assim espera, irá suportar o Governo na próxima legislatura. Sem certeza de quantos lugares de deputados terá para distribuir - no melhor dos cenários, mais de 115, o que significaria que o PS teria a ambicionada maioria absoluta -, é em qualquer caso a oportunidade de Costa para limpar o partido de "tralha", socrática, segurista, ou outra, que agora não lhe seria fácil dispensar sem mais.

8. Vencer as legislativas

É o "last" mas não o "least" dos desafios que o secretário-geral do PS tem pela frente. Há uma semana ganhar as legislativas de 2015 era uma certeza, alcançar a maioria absoluta era uma meta difícil, por certo, mas ainda assim possível. Agora, a dúvida coloca-se: conseguirá Costa proteger o PS dos estragos causados pelo processo judicial que impende sobre Sócrates, separar efetivamente as águas entre a política e a justiça, e convencer os eleitores de que o PS e os seus atuais dirigentes, a começar por si próprio, mantêm intacta a credibilidade e a capacidade para voltarem ao Governo daqui a um ano?